“Fui censurado no Estadão e isso não admito”, diz Ethevaldo Siqueira sobre saída do jornal

Estadão - após 45 anos no jornal - em dois ou três anos, o encerramento da parceria seria por um motivo simples: dedicar-se a outros pr

Atualizado em 31/10/2012 às 16:10, por Luiz Gustavo Pacete.

Após 45 anos no periódico, jornalista afirma que desentendimentos com direção aceleraram o término de sua coluna

O jornalista Ethevaldo Siqueira, que completou 80 anos no último mês de agosto, tinha planos para deixar de publicar sua coluna no Estadão - após 45 anos no jornal - em dois ou três anos, o encerramento da parceria seria por um motivo simples: dedicar-se a outros projetos. Entretanto, a saída foi adiantada por meio de sua coluna, publicada em 21 de outubro, avisando aos leitores que deixaria de escrever no periódico. “Não foi nenhuma tragédia, nada triste, a não ser, é claro, uma questão sentimental de trabalhar todos esses anos no jornal e ter de me despedir”.
Ethevaldo Siqueira Siqueira explica, com exclusividade à IMPRENSA, que sua saída do jornal se deu por desentendimentos com o diretor de conteúdo do Grupo Estado e por uma situação desconfortável que para ele configura censura. “Eu pretendia ficar mais algum tempo, mas não me dei bem com o [Ricardo] Gandour. É uma figura que não tem raízes ou tradição no jornalismo. Exerceu cargos relacionados a jornalismo em outras grandes empresas, é jovem, mas não tem liderança, meteu ‘os pés pelas mãos’ várias vezes comigo. Inclusive quando quis censurar minha coluna”.
O episódio que Siqueira cita como censura aconteceu há alguns meses. O colunista escreveu em seu espaço críticas direcionadas à política adotada pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. O ministro contatou a direção do jornal e pediu direito de resposta. Quando Siqueira pediu uma tréplica à resposta de Bernardo foi informado que já tinha tido oportunidade de escrever em sua coluna e que agora era a oportunidade de o ministro falar. “Ele veio me dizer que eu não poderia criticar o governo daquela maneira. O jornal nunca fez isso comigo em todo o tempo que eu estive lá. Ficou a palavra do ministro contra a minha e o Gandour não me deu direito de resposta. Eu não aceito isso. Não pelo jornal, mas por essa figura [Gandour]. Eu só fui ver a publicação no dia seguinte”.

“Ele veio me dizer que eu não poderia criticar o governo daquela maneira. O jornal nunca fez isso comigo em todo o tempo que eu estive lá. Ficou a palavra do ministro contra a minha e o Gandour não me deu direito de resposta. Eu não aceito isso. Não pelo jornal, mas por essa figura [Gandour]" . O jornalista aponta que sua atitude à época foi madura o suficiente para não configurar qualquer tipo de “picuinha”. “Tenho maturidade o suficiente para não ter nenhum tipo de vaidade boba”.

Siqueira se preocupa com o futuro do jornal e ressalta os grandes talentos que a publicação vem perdendo. “Um ou outro pode sair, mas não pode perder talentos, além disso, ninguém mais que está lá terá a perspectiva de carreira que eu tive”. Siqueira chega a citar os colegas recentes que deixaram a publicação, entre eles Carlos Alberto Sardenberg, Pedro Dória e Renato Cruz.
O jornalista fala também sobre as dificuldades que tinha nas negociações de renovação de contrato. “Ele queria renovar o contrato, mas costuma argumentar nessas ocasiões que não poderia pagar o que eu já vinha ganhando por isso teria de baixar o valor. A função dele lá é cortar despesas e eu não concordo com esse tipo de atitude”. Siqueira usa uma frase do patrono do Grupo Estado, Júlio de Mesquita Neto, para rebater a situação que acontece atualmente com a empresa. “Eu aprendi com o Sr Júlio que o coração e a alma de um jornal estão na redação, não no prédio, nas máquinas, na tecnologia e tampouco na publicidade”.

Gandour: “Fiquei chocado com as colocações. Minha relação com o colunista sempre foi cordial, e ele sempre desfrutou de autonomia. Tanto que em seis anos de convivência no jornal ele nunca se queixou.”

Para o jornalista, que se especializou na cobertura de telecomunicações, o jornal tem conteúdo, mas se vê diante de um grande desafio: ter receita no digital. “Além disso, o Estadão está perdendo valores. Minha preocupação é com o futuro do jornal, não estou criticando acionistas. Mas vi o drama da redação. Ele é um cara autoritário, não lidera. É um capataz”.

Siqueira afirma que disse tudo isso diretamente para o diretor de conteúdo que respondeu: “Vou desconsiderar tudo que você está dizendo”. O jornalista concluiu afirmando que tudo o que aconteceu é um desrespeito com a dedicação que ele teve para com o veículo. “Um desrespeito inclusive com minha idade, não queria nada de ninguém, queria continuar mantendo minha coluna com a maior qualidade, além de reportagens e artigos especiais que eu sempre publiquei”.
Procurado por IMPRENSA, o diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, reagiu com espanto às afirmações do ex-colunista. “Fiquei chocado com as colocações. Minha relação com o colunista sempre foi cordial, e ele sempre desfrutou de autonomia, tanto que, em seis anos de convivência no jornal, ele nunca se queixou.”