Fotojornalistas falam sobre o desafio de transformar fatos em imagens
Com o desafio de transformar fatos e acontecimentos em imagens, fotojornalistas falam sobre a rotina da profissão e oportunidades na área.
Atualizado em 04/08/2014 às 11:08, por
Christh Lopes*.
O uso de fotografias para retratar um fato e complementar uma reportagem ganhou corpo nos grandes veículos ao longo do tempo. Para falar sobre a rotina de quem apresenta uma visão apurada por meio de uma máquina, IMPRENSA ouviu fotojornalistas que abordam as características da profissão e as oportunidades da área.
Crédito:Divulgação
Christophe Simon Em nome do jornalismo, Christophe Simon fez a cobertura de diversos conflitos e eventos históricos no mundo pela AFP nos últimos trinta anos. “O fotojornalismo tem como fundamento testemunhar os acontecimentos internacionais em imagens”, diz. Ele foi um dos primeiros fotógrafos a entrar na Cidade do Kuwait, liberada pelas tropas americanas durante a primeira guerra do Golfo, em 1991.
Atualmente, o francês atua como diretor de fotografia da agência no Brasil e conta o que espera de seus comandados: “O fato e somente o fato importa”. Apesar da experiência na função, Simon ressalta que ainda enfrenta desafios e que existem obstáculos a serem superados.
“As dificuldades são muitas, como encontrar as boas pautas que vão interessar aos clientes (veículos), além de saber escolher o melhor fotógrafo para cada tipo de reportagem e cuidar da segurança dos profissionais durante coberturas mais complicadas, como as em zonas de conflito”, afirma.
Fotógrafo de redação
Para evitar problemas e manter um nível de qualidade em seus trabalhos, o jovem fotojornalista Gabriel Quintão optou por um trabalho fixo. Ele atende de forma integral o portal Vírgula, que apresenta conteúdos voltados ao público jovem na internet.
Crédito:Divulgação
Gabriel Quintão “Quando existe um agendamento de pauta no Vírgula eu sou comunicado e me programo para fazer a reportagem. Dessa forma, minha agenda ganha alguns dias livres, que eu consigo aproveitar fazendo trabalhos extras”, o que inclui fotografias para revistas e clientes comerciais. A versatilidade na função demanda tempo e as oportunidades não faltam, explica.
“Na minha concepção, o principal diferencial de um bom fotojornalista é saber identificar a notícia, assim como um bom repórter deve saber criar um bom título. Uma boa ideia do que e como fotografar em uma pauta faz toda a diferença”, afirma. Mas, o que mais o incomoda é esperar pelo acontecimento. “Às vezes, pode levar horas para um personagem aparecer e você tem que estar o tempo todo preparado, se for tomar uma aguinha pode perder a foto”, diz.
Os momentos tensos vivenciados na cobertura do “Rock in Rio” levaram o fotojornalista a desenvolver a série “Linha de Frente”, em exposição no Red Bull Station, em São Paulo. “É uma cobertura que proporciona desde o momento mais lindo e feliz até o mais tenso - quando milhares de pessoas disputam o primeiro lugar na grade para ficar perto do seu ídolo”.
Após quatro anos acompanhando festivais de música, Quintão registrava a luta por um espaço pela primeira fila. O olhar do fotógrafo revela um lado pouco acompanhado na cobertura de shows de música: o do fã. “Fotografando do fosso [espaço que fica entre o palco e a grade, destinado aos fotógrafos e cinegrafistas da imprensa] eu construí um material que mostra o sofrimento que essas pessoas são submetidas para conseguir seu lugar perto dos ídolos”, diz.
Freelancer
Sem vínculo empregatício, o trabalho freelancer é alternativa para quem deseja maior liberdade para selecionar a pauta mais lhe interessa. Assim, Ana Carolina Fernandes mantém seu dia-a-dia baseado em acompanhar acontecimentos factuais, fotodocumentarismo “ou simplesmente sair pela cidade com um celular no bolso para fotografar”. O cotidiano da repórter se forma a partir da necessidade do momento e da ocasião, de acordo com o que achar relevante registrar.
Há um ano, a fotojornalista se dedica a registrar as manifestações de rua que ocorrem no Rio de Janeiro. “Em um misto de fotojornalismo, online, muitas vezes transmitindo para a agência Reuters sentada na calçada no meio dos acontecimentos ou fotografando para um documentário pessoal, onde as fotos contam uma história mais longa no calor dos acontecimentos”, diz.
Foi na cidade que ela vivenciou a história mais marcante da carreira. Pela Folha de S.Paulo , Ana Carolina fazia a cobertura da visita do príncipe Charles à favela do Cantagalo. Como demanda a situação, tudo estava bem organizado, conforme o protocolo inglês. “Ele subiria um pedaço a pé e até a luz seria perfeita, fundo, tudo. Os fotógrafos tinham bolinhas coloridas nas credencias e cada cor correspondia a um pit na subida. Eu não tinha bolinha nenhuma... Fiquei lá em cima na porta do Criança Esperança”, conta.
O motivo pelo qual o príncipe se atrasou, e bastante, conforme diz, ela não sabe, afinal, naquela época o celular ainda não representava o sinônimo de comunicação como hoje. “Era aquela coisa constrangedora de pedir uma linha emprestada. Coisa que eu já tinha visto mais cedo que não rolaria. Pelo horário previsto, normal, dava tempo de voltar pra redação, mas com o atraso... várias crianças estavam a horas esperando o príncipe, em fila, com uma bolinha branca na mão”.
Como a programação havia mudado, Charles subiu o morro de carro, já que estava escuro por conta do horário. “E lá em cima só tínhamos eu e Marcelo Carnaval, os dois ‘vendidos’. Quando o príncipe desceu do carro, virou uma bagunça, as crianças correram até ele, que foi receptivo”. Foi então que uma grande confusão começou pela melhor imagem, “aí é cada um por si e tem que ser valente e guerreiro”. A determinação dela foi fundamental. Ela conseguiu registrar a fotografia que desejava, mas já passava das seis horas.
“Tomei a decisão de largar tudo, pois a foto era ótima para a primeira página. Carros e motoristas não subiam, claro. Desci ‘desembestada’ morro abaixo ligando para o motorista só para deixar meu equipamento com ele. Em seguida, entrei em contato com a minha amiga e colega Bel Pedrosa, sem parar de correr, pedindo pra transmitir a foto de lá. Depois, liguei de novo para ela fazer a legenda e às 18h45 a foto estava na primeira página da Folha em SP”, diz.
A história de Ana Carolina mostra a realidade da profissão de fotojornalista. Envolve paixão, comprometimento e atenção aos detalhes para que o profissional não perca a oportunidade de registrar o momento perfeito, que aparece na hora que menos esperamos.
“Me orgulho desse dia, pois não é realmente pra qualquer um, tem que amar muito tudo, ter a paciência de saber que tudo pode mudar rapidamente e ser muito guerreira para tomar a decisão de abandonar um príncipe, descer um morro bem longo, ladeira abaixo, pensar rápido e ainda contar com a sorte. Isso é fotojornalismo sem glamour, nu e cru, e como dizia João Bittar (famoso fotojornalista brasileiro), foto boa é foto publicada”, conclui.
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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves






