Fotojornalismo pode usar múltipla exposição, mas com cuidado para não confundir leitor

A publicação na capa da Folha de S.Paulo desta quinta-feira (19 jan/23) de uma imagem obtida com a técnica de múltipla exposição provocou discussão sobre o uso desse recurso no fotojornalismo.

Atualizado em 20/01/2023 às 10:01, por Redação Portal IMPRENSA.

De autoria de Gabriela Biló, que cobre política em Brasília, a imagem em questão sobrepõe a foto de uma vidraça estilhaçada a uma foto de Lula, com o centro dos fragmentos na altura do coração do presidente, dando a falsa impressão de que ele está atrás da vidraça. Crédito: Gabriela Biló

A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) divulgou uma nota condenando a publicação e afirmando que ela sugere violência contra o presidente no contexto dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.
Os críticos da Folha, de uma forma geral, seguiram o mesmo raciocínio, alegando que a montagem não se aceita no jornalismo e que a técnica de múltipla exposição só é tolerada quando fica claro que se trata de manipulação – preceito que a legenda da Folha não teria cumprido a contento.
Para a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a fotomontagem na capa da Folha é um "atentado contra o jornalismo" e a tal técnica de múltipla exposição de imagens não passa de eufemismo para manipulação da informação em tempos de pós-verdade.

Já o escritor e jornalista Lira Neto chamou o uso da imagem na capa da Folha de "adulteração da realidade perigosíssima" pela gravidade da atual situação do país.

Recurso válido

Mas há quem diga que uma montagem pode, sim, ser usada no fotojornalismo, da mesma forma que um enquadramento único, capaz de produzir inusitado sentido a uma cena aparentemente trivial.
Nessa linha de raciocínio, o uso da múltipla exposição no fotojornalismo é justificado por produzir imagens que funcionam como uma espécie de crônica visual. Mas até os defensores do recurso alertam que ele pode confundir o leitor, principalmente se a imagem de impacto for publicada na capa de um grande jornal e com legenda capenga.
Em meio ao apontamento dos eventuais erros da Folha, a postura da Secom no episódio também foi alvo de críticas. Houve quem sustentasse que não é papel do órgão dizer o que é ou não jornalismo e que não existe uma única interpretação possível para a imagem polêmica.
Jornalista da Folha, Cezar Feitoza lembrou que Biló já havia a usado a técnica de múltipla exposição com Marina Silva, ocasião em que o resultado final do trabalho da fotógrafa teria sido elogiado. Crédito: Gabriela Biló

Já a jornalista Fabiana Moraes, colunista no The Intercept Brasil e conselheira na Agência Pública, criticou Folha e Estadão pelo que chamou de "naturalização da violência extrema contra líderes petistas".

Tal postura, prossegue Fabiana, vai na contramão do discurso pela democracia dos dois veículos. Para sustentar sua tese, a jornalista publicou no Twitter, ao lado da fotomontagem de Lula feita por Biló, duas fotos da ex-presidente Dilma que, graças a enquadramentos inusitados, dão a impressão de que ela está queimando e de que foi golpeada por uma espada. Crédito: Reprodução Twittter