Fotógrafos relatam comportamento hostil de policiais durante manifestações em SP

Fotógrafos que acompanharam os protestos contra o governo de Michel Temer (PMDB) na última quarta-feira (7/9) relataram ao El País Brasil a ação violenta dos policiais com a imprensa durante as manifestações.

Atualizado em 09/09/2016 às 10:09, por Redação Portal IMPRENSA.


Crédito:Rovena Rosa/Agência Brasil Profissionais de imprensa relatam casos de agressão por parte da polícia
Um deles, que não foi identificado, contou que quase foi levado para a delegacia em uma abordagem da polícia. "Eles ficaram perguntando onde eu morava, por que estava com capacete, por que era carioca e estava indo a um protesto em São Paulo”, disse. Ele só foi liberado quando um grupo de jornalistas chegou no local.
Vinicius Gomes, do coletivo independente Afroguerrilha, também foi parado pelos agentes. Era a segunda abordagem que passava desde o impeachment de Dilma Rousseff. No dia 31 de agosto, ele foi agredido e levou cinco pontos na cabeça. O equipamento dele foi jogado no chão e destruído.
Gomes foi levado para delegacia, depois para um pronto-socorro, mas teve de retornar à delegacia. O procedimento começou por volta das 21h e terminou pelas 4h da manhã. Neste período, ele disse ter ficado mais de 40 minutos de pé, virado para a parede, enquanto os advogados acionados pelos fotógrafos que presenciaram a abordagem não chegavam à delegacia.
Outro fotógrafo, que preferiu não se identificar, relatou que passou a ser perseguido após virar alvo de uma ação violenta da polícia e aparecer em algumas reportagens em 2014. Ele chegou a receber ligações e intimidações em sua casa. “Eles estacionavam a viatura do lado de fora e ficavam algumas horas na porta”, contou.
Um dos casos mais conhecidos é o do fotógrafo Sérgio Silva, que perdeu um olho após ser atingido por uma bala de borracha da PM durante um protesto em junho de 2013. Em uma decisão recente, a Justiça o considerou culpado pelo ocorrido.
Após os casos de violência, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo publicou uma nota em repudio à ação da polícia e solicitou uma audiência com o Governador Geraldo Alckmin (PSDB). O diretor da entidade, Alan Rodrigues, destaca que o caso do fotógrafo do Afroguerrilha mostra a escalada de violência contra os profissionais. De acordo com ele, cerca de 30 fotógrafos já entraram em contato para relatar agressões.
“Hoje, o perfil do fotojornalista mudou, é difícil ver alguém que trabalha fixo em um jornal. Geralmente são freelas e profissionais que atuam em mídias alternativas. Esses têm sido alvos preferenciais. Claro que ninguém merece esse tratamento, mas acreditamos que a polícia os vê como ativistas e não trabalhadores, aí a abordagem é pior ainda”, observa.
Depois do episódio, o coletivo Afroguerrilha decidiu fazer um crowdfunding para comprar um novo equipamento para Gomes. No próximo domingo (11/9), uma ação conjunta de fotógrafos vai vender fotografias no vão do Masp para tentar arrecadar dinheiro.
O profissional disse ainda que acredita que, por ser negro, é um alvo "mais visado". "Durante todo o tempo em que estive na delegacia percebi que o meu tratamento era diferente de outro fotógrafo que foi levado junto comigo. Eles ficavam me chamando de neguinho, perguntando se eu nunca tinha sido preso por fumar um baseadinho”.
A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão do Ministério Público Federal, afirmou que vai monitorar as ações das policiais do Rio de Janeiro e de São Paulo durante as manifestações.