Fotógrafo João Urban relembra os anos de "resistência" no Brasil

A década de 1970 no Brasil foi marcada por contrastes. De um lado, esteve o futebol da "seleção canarinho", em pauta com o tri-cam

Atualizado em 30/11/2011 às 18:11, por Jéssica Oliveira*.

A década de 1970 no Brasil foi marcada por contrastes. De um lado, esteve o futebol da "seleção canarinho", em pauta com o tri-campeonato mundial e com o slogan "noventa milhões em ação". Do outro, a ditadura, iniciada no golpe militar de 1964, impondo a falta de liberdade, censura, perseguições e violência a todos os que fossem contra o regime.
Intelectuais, estudantes, operários, jornalistas, artistas etc, resistiram e sofreram as consequências. Nesse contexto, o fotógrafo curitibano João Urban teve o "empurrãozinho" que faltava para mergulhar de vez na fotografia. Ele ilustrou o "Ensaio" da edição 273 de IMPRENSA [pág. 62], mostrando sua fotografia documental, lado pelo qual ficou mais conhecido, apesar de gostar de retratos e paisagens.
Abaixo, uma outra faceta de seu trabalho. Confira seu relato sobre o período da resistência e algumas fotos feitas entre 1966 e 1973.
"Até esse momento não havia pensado na fotografia como uma forma de ganhar dinheiro. Frequentava o estúdio Prisma, do Jesus Santoro e Francisco Cawa, onde revelava meus filmes.
O Jesus Santoro era considerado um dos mestres dos fotografia pela minha geração e me ensinou muito. Ele liberava o laboratório para a gente utilizar, era um cara que tinha ideias libertárias e deu o maior amparo para a gente nessa época. Sempre foi generoso, deu guarida pra vários fotógrafos, nunca negou informações sobre técnicas, porque na época não existiam escolas. E foi no Prisma que fui percebendo que a fotografia podia ser uma profissão, e então decidi montar um estúdio pra mim, com a intenção de fazer finanças para o movimento de resistência.
Em 1969, 1970, não lembro bem, ainda trabalhava em um banco, mas fui demitido por questões políticas e sindicais, por participar de greves. Em seguida, passei a me dedicar à fotografia. Fiz algumas coisas que achei que seriam vendáveis, como objetos decorativos, foto ampliadas de acontecimentos históricos e cheguei a colocar em algumas lojas, mas a coisa não era tão simples assim. Foi nessa mesma época que a repressão se intensificou e vários companheiros foram presos. Minha militância efetiva foi de mais ou menos 1966 a 1971, porque quando minha primeira filha nasceu, em 1969, passei a ter outros tipos de preocupação e, em 1971, quando nasceu meu filho, não dava mais. Fui me afastando aos poucos, mas ainda tinha algumas tarefas no movimento operário. A minha casa continuou sendo "aparelho", termo utilizado na época para lugares que abrigavam pessoas do movimento e possibilitava encontros, mas a minha militância efetiva, parei. Certa vez, fotografei alguns policiais do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social]. Foi uma espécie de retaliação ingênua por eles estarem nos fotografando. Eles perceberam e fizeram um movimento em minha direção. Escondi-me na multidão, retirei o filme rapidamente e entreguei a câmara para o Zaneti, que sumiu para um lado e eu para o outro. Deixei os filmes com o Motta, na Foto Paris da Rua XV, sem perceber que havia sido seguido. No final da tarde, ele foi até o banco me avisar que os "tiras" haviam estado lá, mas não encontraram os filmes, que ele havia escondido.
No dia seguinte, foram me buscar no trabalho, para o espanto do gerente, que não entendeu exatamente o que acontecia, mas avisou meu cunhado, que trabalhava na Agência Central. O resultado foi um interrogatório severo, mas sem porrada, apenas uma ameaça do Ozias Algauer: "você é esperto, mas a gente ainda te pega", disse, e fez uma revista em meu quarto. Fomos até minha casa a pé, pois não havia viatura disponível.
O Diogo, gordinho, com um velho terno azul marinho, meio apertado, gravata com listas diagonais vermelho e azuis, era um transferido da Delegacia de Furtos e Roubos. O outro era um brancão, magro, com um terno claro, supostamente a "inteligência" da dupla, mais ligado em investigações de natureza política. Passou batido por minha coleção de Lênin - que com dificuldade fui reunindo, graças à ajuda do livreiro Vinholes - e com um gesto de euforia e um "Aaah!!!" de satisfação, retirou da estante um livrinho sobre teatro, publicado pelo Centro Popular de Cultura: "Esse nós vamos levar! Esse não pode..." Enquanto, isso Diogo entrava no quarto de minha irmã. Minha mãe quis saber se devia oferecer um cafezinho aos meus 'amigos', como eu os havia apresentado.
Encerraram a busca quando soou a sirene da marcenaria de meu pai. Saíram levando o perigoso livrinho do CPC. Para meu susto, Diogo voltou do portão e me disse: "Diga pra Teresinha [sua irmã] que no quarto dela tem umas coisas que não pode" Me olhou com uma estranha cumplicidade e saiu. Eram os cartazes dos filmes do cinema novo da coleção de Teresa. Os filmes ficaram salvos na mão do Motta e a Exacta, segura nas do Zaneti."
Leia mais
-
-
  • Ficha do João Urban no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social)
  • Ficha do João Urban no DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social)
  • Propaganda do período da Ditadura e de empresas que apoiavam o regime
  • Propaganda do período da Ditadura e de empresas que apoiavam o regime
  • Propaganda do período da Ditadura e de empresas que apoiavam o regime
  • Propaganda do período da Ditadura e de empresas que apoiavam o regime
  • Propaganda do período da Ditadura e de empresas que apoiavam o regime
  • Propaganda do período da Ditadura e de empresas que apoiavam o regime
  • Policiais fotografados pelo Urban (o de gravata escura no centro, e do seu lado direito)
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Passeata em protesto pelo fechamento do restaurante da UPE, considerado ponto de reunião de subversivos
  • Jesus Santoro, em entrevista ao MIS do Paraná, em julho de 2003, alguns meses antes de morrer