Fotógrafa percorre quase 10 mil quilômetros para mostrar Maranhão 'desconhecido'

A fotógrafa e relações públicas Bianca Cutait, 30 anos, tem um jeito frágil. Entretanto, a aparência não a impediu de percorrer 9.357 quilômetros pelo Estado do Maranhão e atravessar 217 municípios, numa aventura que, segundo ela, vai além de um trabalho jornalístico, mas representa uma maneira humana de registrar o cotidiano de personagens tão representativos à cultura brasileira.

Atualizado em 18/10/2011 às 18:10, por Luiz Gustavo Pacete.

Experiências que foram registradas no livro "9.357km de segredos pelo Maranhão", da editora Decor.
Bianca Cuitat Casamento comunitário em São José de Ribamar As dificuldades na trajetória não foram poucas: Bianca contraiu dengue, foi recebida por uma tribo hostil e ficou presa em uma estrada. Mas na maioria dos textos que complementa suas imagens, ela preferiu dar destaque às belezas daquele Estado.
A viagem aconteceu no ano de 2005. Somente com uma câmera na mão, Bianca desafiou as aventuras que a façanha lhe impôs. "Quando me perguntam por que escolhi o Maranhão, não sei responder muito bem. Sinto que brotou um chamado repentino dentro de mim. Meus medos e minhas inseguranças eram praticamente eliminados durante todo o percurso, só pelo fato de existir, dentro de mim, a certeza de que o momento era de uma missão". Na capital São Luís, ela fez sua base, e de lá saía para desbravar o Estado. No livro, Bianca também tenta estudar a relação das pessoas com o ambiente em que elas vivem, sempre procurando compreender as diferenças de realidade que um mesmo país, imenso como o Brasil, pode abrigar. IMPRENSA - Como nasceu a ideia de percorrer o Maranhão? Bianca Cuitat - Quando fui viajar a primeira vez para o Estado, no ano de 1999. Acompanhei meu pai em uma aula que ele foi dar por lá; quando voltamos, decidi voltar outras vezes. Com isso, montei o projeto e segui adiante.
IMPRENSA - Pode destacar uma experiência inusitada? Bianca - Eu estava no Sul do Maranhão, na cidade de Imperatriz, um lugar moderno. Eu descobri que naquela região existe uma tribo, mas meu pai, que é maranhense, já tinha me avisado para não ir até aquele lugar de maneira nenhuma. Essa tribo chamada Krikati tem fama de ser hostil e perigosa. Chegando até a tribo, percebi que eles não estavam para muito papo. Fui falar diretamente com o cacique, que teimava comigo que tirar foto machuca. Ficamos cerca de duas horas conversando e eu tentava convencer que não dói. Em um dos momentos, eu perdi a paciência e vi uma mulher chegando e deitando na rede. Achei a cena bonita e fui tirar a foto. Nessa mesma hora, eu escorreguei e caí de boca no chão... Abri minha perna. O índio virou e disse: "falei que tirar foto dói". Saí da tribo, voltei para Imperatriz e vi que tinha rasgado a coxa em três lugares. Nunca mais voltei.

Bianca Cuitat No terreiro da Julia IMPRENSA - Alguma experiência frustrante? Bianca - Tem. Eu estava tentando chegar a um município chamado João Paulo. Estava com um carro pequeno e, conforme ia me aproximando e perguntando para que lado estava a cidade, as pessoas perguntavam se eu estava indo para lá de carro. Eu estranhei aquilo. Depois de percorrer vários quilômetros, a estrada acabou. Chegando lá, me explicaram que as pessoas só vão para a cidade a cavalo. Tive de voltar de ré mais de 17 quilômetros.

IMPRENSA - O que a experiência acrescentou? Bianca - Acho que, acima de tudo, foi muito mais do que um trabalho artístico ou jornalístico; foi uma oportunidade de encontrar uma paz interior nos lugares mais remotos deste mundo.

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