"Formar a intelectualidade de um país leva tempo", diz jornalista brasileira sobre trabalho realizado no Camboja
"Formar a intelectualidade de um país leva tempo", diz jornalista brasileira sobre trabalho realizado no Camboja
Entre 15 de novembro e 8 de dezembro a jornalista Paula Poleto acompanhou o fotógrafo André François, responsável pela organização ImageMagica - que documenta, entre outras coisas, o acesso à saúde da população brasileira e de outros países - em uma viagem ao Camboja, localizado ao sul do Vietnã.
Antiga colônia francesa, o Camboja enfrentou a partir 1964 um regime comunista liderado pelo partido Khmer Vermelho - que passou pelo período mais sangrento com o líder Pol Pot, responsável pelo genocídio que praticamente acabou com a classe intelectual do país. A ida ao país foi o começo de um projeto mundial sobre acesso à saúde.
O fotógrafo registrou, durante a viagem, o trabalho da organização Médicos Sem Fronteiras e o sistema de saúde local; os textos e as entrevistas feitas pela jornalista serviram de apoio para o trabalho fotográfico. "O meu trabalho serve como suporte para o dele. O texto é muito importante em um projeto como esse, porque podemos nos basear nele para saber com segurança que caminho seguir depois", disse Paula.
Portal IMPRENSA - Como surgiu o projeto da viagem ao Camboja?
Paula Poleto - Quando comecei a trabalhar na ImageMagica, sabia que ia ter um projeto mundial de documentário de acesso à saúde, mas era um projeto de longa data, sem perspectiva de acontecer tão rápido. Mas, como o André trabalhava desde 2005 fotografando saúde, tudo caminhava para isso. Ele já tinha experiência de fazer trabalho de campo, de conversar com as pessoas, conquistar a confiança delas. Era um passo para acontecer o projeto mundial; sem a experiência dele no Brasil, não seria possível viajar pelo mundo. Este era um sonho antigo do André, visitar vários países em vários contextos de saúde, e que começou a ser realizado com esta viagem.
IMPRENSA - E por que ele escolheu um país tão distante, inclusive culturalmente, do Brasil?
Paula - O Camboja foi escolhido porque é o país mais pobre do sudeste asiático e o 5º mais corrupto do mundo, além de ter passado pelo genocídio com o Pol Pot e o Khmer Vermelho. O André achou que seria um bom lugar para discutir a sociedade através de informações sobre como funciona a assistência à saúde. Fizemos uma parceria com a organização Médicos Sem Fronteiras para documentar por dez dias três expatriados brasileiros, um médico e duas enfermeiras, que trabalham na missão da entidade no Camboja. Depois ficamos mais dez dias por nossa conta para achar outras iniciativas de saúde e completar o trabalho, mostrando como funciona o sistema de saúde local.
IMPRENSA - Qual foi o seu trabalho na viagem, já que, apesar de ser um trabalho documental, é baseado em imagens?
Paula - Eu tinha que ajudar o André com tudo que ele precisasse, desde tradução para o inglês, porque, como eles falam khmer, era como nos comunicávamos, até relatórios e entrevitas em todos os lugares. O André fazia o trabalho com a imagem e eu com o texto; o meu trabalho serve como suporte para o dele. O texto é muito importante em um projeto como esse, porque podemos nos basear nele para saber com segurança que caminho seguir depois.
IMPRENSA - Qual foi a maior dificuldade jornalística que você enfrentou?
Paula - As informações só podem ser recolhidas em campo. Não tem como entrar em contato de novo com as pessoas que entrevistamos e fotografamos, às vezes foi em um vilarejo que demoramos 40 minutos para chegar e tivemos que pedir informação dez vezes, por exemplo. Além disso, é preciso ter um tradutor que tenha tato e saque seu projeto, porque são culturas muito diferentes, não é só a língua, é cultural. Mas a maior dificuldade foi o fato de precisar passar por uma terceira pessoa para ter um vínculo e fazer a entrevista, porque um pouco da informação se perde e é mais difícil de fazer o entrevistado se sentir à vontade.
IMPRENSA - Qual episódio foi mais marcante durante a viagem em termos jornalísticos?
Paula - Foi a entrevista com duas meninas de um orfanato perto de Phnom Penh, a capital do Camboja. O local abriga cerca de 15 meninas que que têm HIV, o que gera muito preconceito no país. Os pais descobrem e as abandonam ou acabam morrendo porque também têm o vírus. Foi difícil no começo, os donos do orfanato tiveram muito cuidado para autorizar o direito de imagem das meninas, com toda a razão. Mas eu comecei a entrevistar uma delas, com o tradutor e uma das enfermeiras brasileiras, e ela começou a chorar; foi superdelicado, porque eu estava lidando com uma criança portadora de HIV, que perdeu os pais e tinha acabado de ir para o orfanato. Não sabia como continuar a entrevista, e a enfermeira me disse: "se ela quiser falar porque vai se sentir bem, ela fala". E foi muito gratificante ver que ela queria contar a história, eu só precisava achar o jeito certo de fazer as perguntas.
IMPRENSA - Você pôde acompanhar a imprensa do Camboja?
Paula - Antes de ir, li na Internet várias notícias do Camboja Daily , em inglês. Lá não tem banca de jornal. Folheei uma revista em kmer, e é muito diferente, porque ao lado de uma página com modelos maquiadas, tem uma página sobre um crime, com a imagem de um corpo; a mistura é maluca. Mas acho que eles estão formando a intelectualidade do país, e isso leva tempo. Pouquíssimas pessoas mais velhas são letradas, e isso é resultado do genocídio, que provocou uma matança de intelectuais. Isso tem a ver com o que o país é hoje, porque tudo é novo, estão tentando reconstruir inclusive a educação. Para você ter uma idéia, até para nós conseguirmos autorização de uso de imagem, as pessoas assinam com o dedão, não sabem escrever o próprio nome.






