"Foram oito publicações singulares", diz Eliana Caruso sobre os 50 anos da revista "Pif Paf"

Publicação foi criada dois meses após o golpe e marcou a história da imprensa brasileira.

Atualizado em 21/05/2014 às 15:05, por Alana Rodrigues* e Jéssica Oliveira.

“Não temos prós nem contras, nem sagrados profanos”. Há exatos 50 anos, esta frase abriu o primeiro editorial da revista Pif Paf , criada pelo jornalista Millôr Fernandes e que dava continuidade à coluna que escrevia em O Cruzeiro , após ter sido demitido por Assis Chateaubriand.
Crédito:Arquivo pessoal Millôr Fernandes com Eliana Caruso, curadora da reedição da revista "Pif Paf"
Criada dois meses após o golpe militar, em maio de 1964, a Pif Paf contava com a colaboração de grandes nomes como Claudius, o jovem Fortuna, Ziraldo, Eugênio Hirsch, Rubem Braga, Sérgio Porto e Antônio Maria, que utilizavam o maior poder que tinham — o humor — como uma arma contra a opressão do contexto ditatorial brasileiro.
A publicação durou apenas quatro meses e rendeu oito edições. A partir do quarto número, instituiu o concurso imaginário “Miss Alvorada 65”, uma alusão aos pretendentes à Presidência da República. O fechamento do veículo ocorreu depois da publicação de uma fotomontagem do então presidente Castello Branco.
Apesar da vulnerabilidade frente à censura, Pif Paf deixou um recado aos leitores em sua última edição: "Quem avisa, amigo é: se o governo continuar deixando que certos jornalistas falem em eleições; se o governo continuar deixando que determinados jornais façam restrições à sua política financeira; se o governo continuar deixando que alguns políticos teimem em manter suas candidaturas; se o governo continuar deixando que algumas pessoas pensem por sua própria cabeça; e, sobretudo, se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia.”
Preservação da memória
Mais de 40 anos depois, em abril de 2005, sob a organização de Eliana Caruso, os oito exemplares da revista quinzenal ganharam uma reedição fac-similar da Editora Argumento. "No topo da árvore genealógica do humor brasileiro está o Pif Paf . Já era graficamente moderno e na forma de fazer matérias", explica a curadora do projeto.
"Muita gente queria e, quem tinha, guardava dentro do cofre, porque era difícil o acesso. Aí quando lancei foi uma felicidade geral, as pessoas comentavam que estavam contentes em poder ver novamente a revista porque ela realmente marcou uma época e foi a precursora de tudo o que saiu com forma de humor como O Pasquim e o Planeta Diário ", acrescenta.
Para ela, Pif Paf conseguia driblar a censura porque utilizava do deboche e ironia o tempo inteiro, ao mesmo tempo, em que era muito crítica. "Todas as edições são fantásticas, cada número trazia uma novidade. Foram oito publicações singulares. O humor bem feito e crítico, os desenhos, a própria diagramação moderníssima que continua até hoje. A atualidade dela chama atenção", completa.
Traço reforçado
"O Jaguar, Claudius, Fortuna e eu. Nós éramos craques. Cartunistas de primeiro mundo. O Millôr era o grande juiz. Éramos cinco amigos e anos mais jovens que ele. Eu já fazia charges para o Jornal do Brasil , o Jaguar também já fazia algumas publicações sindicais, o Millôr também. Éramos de esquerda, não éramos comunistas, nem militantes, mas todo mundo tinha mais ou menos o mesmo pensamento. Precisamos fazer uma revista para resistir à ditadura como sempre houve na história da imprensa na França, na Inglaterra, Itália", pontua Ziraldo.
Crédito:Divulgação Revista teve apenas oito números
Segundo o cartunista, que marcou a publicação com seus traços, a revista foi a primeira a dar voz aos protestos contra a ditadura. Ele relata que Millôr chamou a equipe e contou sobre a seção homônima em O Cruzeiro . “Vamos fazer uma Pif Paf em revista”, anunciou o jornalista.
"A revista já estava bolada. O Eugênio Hirsh [artista gráfico argentino] veio para o Brasil e fez história com capas para uma porção de livros e a primeira capa da Pif Paf . Quando fomos chamados, todo o projeto já estava concebido. Todo mundo que trabalhava com o Millôr tinha grande admiração por ele, que era perturbadoramente inteligente", ressalta.
Ziraldo relata que os trabalhos eram passados para o Millôr que avaliava e concedia a aprovação do conteúdo. Com o fim da publicação, a equipe tentou ir para outros meios alternativos para dar continuidade à Pif Paf .
"Após o fim da revista, Jaguar, eu, Fortuna e Claudius ficamos algum tempo procurando uma forma de arranjar uma revista ou um jornal de protesto, porque a imprensa não nasceu noticiando, mas protestando. A gente não podia ficar quieto. Era um compromisso com o nosso DNA. A gente ficou aflito. Somos humoristas, cartunistas, o país em ditadura, não podíamos quietos", acrescentou.
Millôr - A história que o levou à Pif Paf
Em um texto que explica a criação da revista, Millôr Fernandes narra a divertida história do editorial de O Cruzeiro que pedia desculpas aos leitores por causa de seu artigo com uma versão própria de Adão e Eva. “...Matéria insultuosa às convicções religiosas do povo brasileiro”, “...prometemos aos nossos leitores, agravados de forma tão brutal... que isso não mais se repetirá”, “...confiamos na honestidade intelectual de nosso colaborador. Confiamos e erramos.”. “Esta revista sempre deu a seus leitores, com autenticidade, seu testemunho de cristianismo. É perante Deus que nos penitenciamos”, escreveu o veículo.
A notícia sobre a crítica ao texto de Millôr foi dada enquanto estava em Lisboa, na festa da condessa de Paris, quando o cantor Juca Chaves se aproximou e perguntou ao jornalista: "Você viu o que O Cruzeiro escreveu contra você?".

Após voltar de viagem, todos os órgãos da mídia lhe ofereceram um jantar de "desagravo" e o jornalista fez um desabafo: " fiz um discurso. Até grande. Pois eu não estava abatido. Nasci com glândulas felizes. E resumi, no fim do discurso: 'Me sinto como um navio abandonando os ratos'".

O amigos que estavam presentes no evento, e mais tarde integrariam a Pif Paf , o convenceram em transformar a coluna de O Cruzeiro em publicação semanal. "Foi o parto mais difícil da minha profissão. Pois tive que arranjar dinheiro emprestado com o Banco Nacional (paguei tudo, é infâmia da parte deles espalharem que o rombo de 12 bilhões começou com minha dívida) tive que pensar e realizar toda a estrutura da publicação", disse.
Com a extinção da revista, o jornalista recebeu convite para publicar seu trabalho no Diário Popular de Lisboa , com 18.000 exemplares semanais. "Imediatamente sentei na prancheta e, de madrugada, terminei cinco páginas que, na manhã do dia seguinte, enviei pra Portugal. Foi assim que a repressão brasileira fez com que, durante 10 anos, eu virasse jornalista português", finaliza.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.

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