Fora do eixo
Fora do eixo
Corria o remoto ano de 1983 quando Jarbas de Oliveira, aos dezenove anos, torrou suas economias em uma câmera Minolta. Apesar da ausência de fotômetro, aquele equipamento era um dos mais sofisticados da sua cidade, o pequeno município de Cedro, no interior do sertão nordestino, no centro-sul do estado do Ceará.
Hoje, aos 43 anos, ele pode dizer que foi um bom investimento. Dono de uma possante Cânon - "um equipamento muito abastado para um bom freela" - e de lentes que vão dos 14 aos 400 mm, Jarbas de Oliveira é um dos mais solicitados fotógrafos do nordeste. Entre seus clientes mais recorrentes estão a Folha de S.Paulo , O Globo e o Estado de S.Paulo , respectivamente os três maiores diários do país.
A carreira do ilustre retratista de Cedro começou a deslanchar no início da década de 90, quando começou a colaborar com a Folha. Em 2000, desembarcou em São Paulo para trabalhar como funcionário fixo na redação do jornal. Seu objetivo era cobrir a acirrada disputa eleitoral para a prefeitura. "Voltei para Fortaleza por uma questão econômica. O salário estava muito baixo e era uma época de cortes nas redações", conta.
De volta ao estado natal, Jarbas continuou seus trabalhos fotográficos. Além das agências já citadas, o cearense tem fotos publicadas nas revistas Veja , Época , Isto É , Contigo , Quem , Caras , Flash , Placar , Casa Cláudia e nos jornais O Dia , Agora São Paulo, Correio Braziliense , Estado de Minas e Zero Hora . Seus cliques também já ultrapassaram fronteiras: foi pautado pela agência espanhola EFE, e enviou imagens para as agências Reuters e Associated Press.
A dura vida
Antes de decidir que iria ganhar a vida tirando fotos, Jarbas queria ser agrônomo. De Cedro para a capital cearense, ele percorreu 420 quilômetros até se instalar nas proximidades da Universidade de Fortaleza, onde se matriculou no curso de Agronomia. Seu destino começou a mudar quando uma fotografia sua, inscrita num salão da UNIFOR, conquistou o 9º lugar. "Era final da ditadura, o movimento estudantil estava agitado e eu comecei a cobrir as manifestações em Fortaleza para os sindicatos e pequenos jornais. Durante uma ocupação de reitoria aqui na capital uma foto minha foi publicada no Estadão ".
Com a carreira de fotógrafo deslanchando, Jarbas largou o curso de Agronomia no 2º ano, prestou vestibular novamente e começou a cursar Comunicação Social em Jornalismo, na Universidade Federal do Ceará.
De volta à faculdade, seu primeiro estágio foi como revisor no jornal O Povo . Mesmo ocupado com esse emprego continuava fotografando como correspondente para a Agência Angular, de João Bittar, e para a Ágil Fotojornalismo, de Milton Guran e André Dusek, referência do jornalismo investigativo dos anos 80.
Aos poucos Jarbas firmou seu nome no quadro de fotógrafos das principais agências de notícias do Brasil. Agência Estado, Folha e Globo recorrem a ele freqüentemente quando há uma pauta no Nordeste. Isso não significa, porém, que a vida seja fácil para quem vive Rio-SP-DF. "Por aqui não acontece muita coisa de repercussão nacional. Existe uma inconstância de material. As decisões que afetam o país não passam pelo nordeste. A sorte é que temos no Ceará alguns líderes políticos de influência nacional como o Tasso Jereissati, o Ciro Gomes. Além disso, temos a seca que sempre rende pauta".
A luz, a lente, o tempo
A câmera digital Canon, sucessora de uma Nikon, que foi roubada, e de uma Minolta sem fotômetro, que ele garante ter sido ótima para seu aprendizado, é sua inseparável companheira.
Sua transição para a era digital foi precoce - em 1999 adquiriu a primeira câmera. "Que eu saiba, aqui no estado, fui o primeiro a comprar uma câmera digital profissional. O vendedor disse que fui um dos primeiros do Nordeste. Quando cheguei na Folha , o João Bittar, que era o editor, falou que achava que eu era o único freela que tinha uma digital".
Mesmo assim, foi ainda com uma câmera analógica que fez uma de suas grandes coberturas. Em 1998, foi para a França cobrir a Copa do Mundo pelo jornal O Povo . "Fiquei dois meses por lá e foi muito bom. Gostaria de ter a oportunidade de fazer de novo ou de cobrir as Olimpíadas".
Uns dos seus grandes registros, porém, são imagens da prostituição infantil que mesmo com toda sua experiência, ele considera difícil conseguir bons flagrantes "Tem que ser algo escondido já que ninguém quer aparecer e, além disso, muitos estrangeiros freqüentam esses locais". As imagens da prostituição das meninas que já renderam reportagens no O Globo e na Folha foram tiradas, por exemplo, de dentro do carro.
Além de boas fotos, essa pauta lhe rendeu uma "boa" história. Quando foi fotografar, com uma correspondente, em um bairro típico de prostituição infantil, registrou um turista que entrou no carro com algumas meninas. Começaram a segui-los, só que como eles se distanciaram da cidade acharam melhor não continuar. No dia seguinte, a correspondente avisou Jarbas que o estrangeiro fotografado tinha sido preso em flagrante numa casa de praia."Era um garotão inglês de 23 ou 24 anos com umas três menores de idade". O fotógrafo e a jornalista seguiram para a delegacia atrás de uma continuação para a matéria. "Chegamos lá e os policiais não deixaram a gente falar com o inglês. Mas ficamos na delegacia e, num descuido, as meninas que tinham sido presas com o turista jogaram um cinzeiro em mim. Tudo isso porque elas acharam que fomos nós que as denunciamos, mas foram os vizinhos da casa que ouviram um barulho estranho e ligaram para a polícia".






