O decálogo do desencanto
Porque não comemoro do Dia do Jornalista
O decálogo do desencanto
Porque não comemoro do Dia do Jornalista
O decálogo do desencanto
Porque não comemoro do Dia do Jornalista
Hoje, 7 de abril, deveríamos comemorar o Dia do Jornalista. A história é velha. Diz-se que tudo começou com Líbero Badaró, o jornalista do Brasil Império que derrubou, com palavras, Dom Pedro I do trono.
Não temos mais coleguinhas como Líbero Badaró. Mas imperadores não faltam nestas paragens. Por isso penso que não temos motivo para comemorar o Dia do Jornalista. Dez razões muito práticas compõem uma espécie de Decálogo do Desencanto.
I
Estamos ganhando cada vez menos. E trabalhando cada vez mais.
Pergunte a qualquer coleguinha seu se ele acha que tem uma vida digna. Se ele ganha quanto merece, se acredita um dia ter uma aposentadoria honesta. Vale a regra que uma amiga escreveu em relação aos professores: os patrões pagam cada vez salários mais infames porque descobriram que os idiotas dos jornalistas gostam do que fazem. Ora, se gostam do que fazem, pra quê salário? Os dedos das minhas mãos e dos meus pés não são suficientes para contar o tanto de foca trabalhando de graça. Não, não é hipérbole. Tem gente trabalhando de graça na praça. Isso é que é gostar do ofício.
II
Não estamos preparados para o futuro.
Tudo bem que história é uma delícia. Ainda mais com chantilly. Mas não alimenta. O fato é que não estamos suficientemente preparados para o futuro. É razoável que não tenhamos a mínima idéia do que será a política, a economia ou a cultura daqui a um tempo, mas que não tenhamos interesse algum em nos preparar para o futuro, isso já é preocupante. O sistema produtivo das redações nos empurrou para o aqui-e-agora de uma maneira tão eficiente que sequer sabemos o que vamos comer no jantar.
III
Só nos sentimos competentes munidos de um diploma.
O furdunço em torno do fim da reserva de mercado para o exercício da profissão de jornalista - que começou em 2001 e agora encontrou águas mais calmas - mostrou uma face bastante preocupante da nossa classe. Não nos sentimos jornalistas bons se não tivermos como espada o bendito do diploma superior em Comunicação Social. O discurso em torno do canudo foi tão neurótico a ponto de todo mundo - prós e contras o fim da obrigatoriedade - ficar desnorteado e perder a razão.
IV
As escolas de jornalismo vendem ilusões e formam idiotas.
Não dá para saber a origem do mal, mas as escolas de jornalismo estão formando alguns tipos de jovens profissionais que nem em Marte eu encontrei. Juro que já conversei com aluno pensando que apresentar o Jornal Nacional é o topo da carreira mais brilhante do universo. Tem gente ainda discutindo, em sala de aula, o fim dos jornais impressos, a era de ouro do rádio e a (digna) vida de Chateaubriand. Pergunte a qualquer aluno de jornalismo ou recém-formado o que ele pensa sobre o rompimento do acordo com o FMI ou então sobre o avanço das igrejas neo-pentecostais e terá uma surpresa. Certamente ele não sabe o que é FMI (e igreja neo-pentecostal, para ele, é um dos três segredos de Fátima. Quando se lê os textos, então, dá vontade de chorar.
V
A reportagem morreu.
(um minuto de silêncio)
Onde estão os repórteres de verdade? Aqueles que vão para a rua, procurar notícia, ou construir notícia, ou apenas comer um cachorro-quente e falar sobre a vida com a gente comum? Ar-condicionado e Google são, de fato, invenções extremamente úteis, mas parecem acabar com a vocação dos perdigueiros. Os grandes jornais e revistas são construídos de pautas artificiais, criadas em cativeiro, sem emoção e, pior, sem ponto de contato algum com o mundo real. Como falar do sistema de transporte público sem, ao menos, andar de ônibus?
VI
Ler jornais é uma tarefa chata.
Fico pensando no tédio dos nossos coleguinhas que trabalham com clipagem de jornais. A imprensa está ficando tão chata que até o frango congelado no açougue se recusa a ser embrulhado em jornal. Não estou falando de um jornal. Estou falando de TODOS os jornais, que, aliás, estão tão parecidos entre si que parecem ter saído da mesma máquina da mediocridade.
VII
Fomos comprados por vinho branco vagabundo e pãozinho com patê.
Tem jornalista que vai a todas as coletivas possíveis somente para tomar vinho e comer canapés. Ou a fome é grande ou, de verdade, perdemos o senso do ridículo. Não estou falando em autonomia e independência ideológica e editorial. Estou falando em fome, vontade de comer e enganação do estômago. Os jornalistas estão cada vez mais deslumbrados com a inteligência operacional dos departamentos de marketing das grandes empresas. A alma do jornalista foi trocada por um presentinho bem vagabundo. Pode ser um porta-retrato, um ingresso de teatro, uma passagem de avião, um livrinho. (Se os patrões pagassem um pouco mais, talvez esse problema fosse menor).
VIII
Os melhores jornalistas do país estão desempregados.
Com raras exceções, os bons jornalistas que conheço não estão trabalhando em lugar algum. Uns deles, espertamente, não querem mesmo voltar para as redações. Outros, não arrumam emprego. Com tanto estagiário não ganhando nada ou ganhando menos que nada, há que se considerar que a tentativa de trocar oito mãos a $ 350,00 a dupla por um cérebro que custe $ 3.500,00 é aparentemente um bom negócio.
IX
Comemos mortadela e arrotamos caviar.
É sintomático: quase todos os jornalistas pensam que pertencem a uma espécie de classe superior da sociedade. Uns se acham mais bonitos, outros mais inteligentes, a maioria pensa ser bastante poderosa. Tanto que não querem se misturar com os pobres. Todo jornalista deveria tatuar o holerite no braço pra não se esquecer da sua condição de proletariado. Alguns sub-empregados.
X
Estamos satisfeitos com isso tudo.
Essa mesma Revista IMPRENSA publicou, há uns meses atrás, a filta de ressonância que o movimento sindical tem entre nós. Não penso que os sindicalistas não sejam bons. A verdade é que os sindicalizados (de fato, ou em potencial) é que estão satisfeitos com o que vivem.
P.S.: Para os que querem se livrar da dependência pública do patê de coletivas, eis uma receita prática e rápida:
PATÊ DE ERVAS
Ingredientes
- 1/2 kg de queijo fresco
- 3 colheres (sopa) de creme de leite
- sálvia
- orégano
- alecrim
- sal e azeite a gosto
Modo de Preparo
Processe todos os ingredientes e sirva com torradas.
(fonte: www.cybercook.com.br)






