"Folha" mostra como pai ajudou o filho com paralisia cerebral a se formar em jornalismo

Atualizado em 02/05/2013 às 14:05, por Danubia Paraizo.

Quando Manuel Condez encontrou o jornalista Jairo Marques, repórter, blogueiro e colunista da Folha de S.Paulo , pela primeira vez na manhã de 5 de abril 2013, a empatia recíproca foi instantânea. Marques foi à casa do bancário aposentado, no bairro do Mandaqui, na capital paulista, para conhecer de perto uma história inusitada. Nos últimos quatro anos, Manuel decidiu encarar a rotina de uma universidade para auxiliar seu filho, Marco Aurélio, com paralisia cerebral, a cursar a faculdade de Jornalismo.
“A gente só ouve falar hoje de famílias que mal conseguem ver os filhos, e, de repente, me deparo com uma história em que o pai está doando tudo para o filho, a própria vida, o tempo. Tudo isso foi me dando mais certeza de que era único o que eu tinha em mãos”, lembra o jornalista sobre a pauta, daquelas que caem no colo do repórter.

Crédito:Marcelo Justo Em sentido horário, Jairo, Manuel e Marco
Conhecido e respeitado pelos leitores “infiltrados” – que não têm nenhuma deficiência – e pelos “malacabados”, como costuma chamar quem, assim como ele, tem alguma deficiência, Jairo Marques conta que soube da história de Marcão e seu pai por meio de uma de suas leitoras mais fiéis. “Tenho uma relação muito próxima com meus leitores e muitos canais de comunicação com eles. Recebo dezenas de sugestões, ideias, denúncias todos os dias, mas nem tudo consigo viabilizar.”
A história de “Marcão”, no entanto, entrou para a lista das pautas urgentes de serem executadas. A leitora contou ao repórter que foi à formatura de uma conhecida, que era da sala de Marco Aurélio, na faculdade São Judas, em São Paulo (SP). Durante a cerimônia, Manuel foi homenageado pela turma por ter sido mais que um simples colega, mas também um “paizão”. Assim, com a ajuda da leitora, os caminhos até os protagonistas dessa história ficaram abertos.
Marques conta que o primeiro contato com seu Manuel foi breve. “Liguei e combinei de ir visitá-los. Sabia que o potencial da história não me permitiria apenas uma entrevista por telefone.” Na data marcada, pontualmente às 10h30, o repórter chegou à casa da família Condez, e, logo de primeira, um incidente quebraria de vez a tensão e o nervosismo da visita. “Assim que cheguei com o fotógrafo, percebi que a rua da casa é bastante íngreme, o que inviabilizaria conseguir descer com minha cadeira de rodas.”
Com a boa vontade e naturalidade típicas de quem se dedica há 26 anos ao filho “malacabado”, seu Manuel não pensou duas vezes: tirou seu carro da garagem e fez questão de que o jornalista estacionasse no local, facilitando o acesso à residência. “As pessoas não estão acostumadas a ter alguém visitando sua casa, sabendo da sua história. Mas, talvez pelo fato de eu ser cadeirante, ele tenha entendido que eu teria um olhar diferente ao contar a história de seu filho”, disse Marques.
Ao recordar-se de como foi receber o repórter, Marco Aurélio revela ter ficado um pouco assustado no primeiro momento. “O Jairo conduziu muito bem a entrevista, o que me deixou totalmente à vontade. Parecia que estava batendo um papo com um amigo que já conhecia havia muito tempo.”
APRENDIZADO DOIS EM UM

“O gosto de Marco Aurélio pelo jornalismo começou desde cedo”, confidencia o pai. Palmeirense fanático, o rapaz foi motivado pelo fascínio ao esporte e apostou na carreira de jornalista. “O Marco sempre gostou de futebol. Na verdade, de todos os esportes, então, quando terminou o segundo grau, imediatamente pensou no jornalismo”, conta Manuel. Embora tenha limitação física severa, o agora jornalista Marco Aurélio não tem comprometimento intelectual.
Manuel e a esposa, Vera Lúcia, que sempre tiveram dificuldades para encontrar escolas que aceitassem seu filho, explicam que na faculdade ele foi recebido com tranquilidade. A decisão de auxiliar o estudante, assistindo com ele a todas as aulas do curso, foi tomada em comum acordo. “Não teríamos condições de pagar uma pessoa para acompanhá-lo. Como eu estava aposentado e na época minha mulher estava trabalhando, decidi encarar o desafio”, diz o pai.
Segundo Anderson Fazoli, coordenador do curso de jornalismo da São Judas, ter um aluno com paralisia cerebral não foi um problema para a faculdade. “Nunca tivemos nada parecido com o caso do Marcão, mas já tivemos dois casos de autismo, sendo que um deles demandava reuniões mensais com a psicopedagoga do jovem. Todos foram alunos excelentes que se formaram com mérito. Um, inclusive, já concluiu a pós-graduação.”
De fato, pessoas com paralisia cerebral concluírem a faculdade não é algo tão incomum como se imagina. Justamente por conhecer a fundo esse universo, Jairo Marques diz não ter sido uma surpresa ver um rapaz com as habilidades de Marcão. “Pessoas com paralisia cerebral fazem até curso de mestrado e doutorado. Agora, um pai encarar essa situação com o filho com autonomia motora zero me tocou. Em 15 minutos de conversa, tanto o fotógrafo quanto eu já estávamos nos segurando. É uma história que foge muito da realidade de qualquer pessoa.”
Apesar do desafio de voltar aos bancos da universidade quase 30 anos depois de concluir o curso de Direito, seu Manuel tirou o compromisso de letra. “Tudo foi novidade. Muita coisa mudou. A princípio estava com a mente um pouco enferrujada, mas aprendi muito nesses quatro anos.”
Marco Aurélio também diz ter saído outro da faculdade. Em sala de aula pôde aperfeiçoar habilidades que já tinha, como o bom português, e desenvolver outras. “O que mais curti foram as aulas de Teoria da Comunicação e das Mídias, pois, com os conhecimentos transmitidos, me tornei muito mais crítico e observador.”
E enganam-se os que pensam que o tão sonhado diploma colocou um ponto final nos desafios do novo jornalista. A convite da própria Folha de S.Paulo o rapaz produziu sua primeira reportagem, publicada no último dia 14 de abril. “Foi uma proposta que veio da direção do jornal. Eles fizeram questão de que a primeira reportagem do Marco Aurélio fosse publicada na Folha. Ele achou o máximo o desafio”, conta Marques, que revisou o texto e orientou a execução da pauta.
O tema escolhido para a reportagem foi uma extensão do trabalho de conclusão de curso do rapaz – um livro-reportagem sobre os novos modelos de famílias. Ao lado do pai, Marco Aurélio foi à casa dos Isoda para sua primeira entrevista como jornalista. O desafio foi mostrar como uma família nada tradicional – parte dos filhos mora com a mãe em uma casa e a outra parte mora com o pai, em outra residência – faz para se unir. A saída encontrada foi montar uma banda de rock com todos os filhos.
Sobre sua estreia, Marco Aurélio conta que, quando caiu a ficha que sua primeira matéria sairia em um jornal de grande circulação, abraçou a responsabilidade. Como resultado, a matéria “Casal cria banda de rock para unir filhos de outros relacionamentos” –“Unidos pela música”, na versão impressa – foi uma das mais lidas do jornal do dia, segundo site da publicação.
“De todos esses anos que estou na Folha foram poucas as reportagens que tiveram uma repercussão tão grande”. Até o fechamento da reportagem, a matéria que deu o pontapé inicial a tudo isso – “Pai assiste aulas e ajuda filho com paralisia a se formar jornalista” –, escrita por Marques, foi compartilhada por mais de 30 mil pessoas no Facebook e serviu como pauta para matérias na TV Record, no “Fantástico”, da TV Globo, e, claro, aqui em IMPRENSA.