Foca em Apuros: Dia de Cão #2

Sempre fui atleta. Em uma época da adolescência, cheguei a figurar em peneiras de alguns clubes de futebol bastante consideráveis – tá, não é pra tanto.

Atualizado em 04/11/2015 às 15:11, por Matheus Narcizo*.

Até que dava para o gasto. Dava.

Hoje, aos 21 anos, pensar em exercícios contínuos me parece um grande sacrilégio. Não vejo problema em praticar algo uma ou duas vezes – ao ano, é claro. O problema é quando preciso fazer várias coisas de uma só vez. Foi assim neste segundo dia de treinamento. O corpo sentiu, mesmo aos 21.
O pessoal do ECAM avisou: levem roupas leves e uma roupa reserva. Lá vou eu com a minha calça jeans e camisa de manga longa – preta. Enfim, o grande dia. Quanta ansiedade para saber sobre o "amanhã".

Só consegui dormir porque a noite anterior tinha sido virada, sem sono. Mesmo assim, foram só duas horas. Uma soneca. Às 5h30 já estava saindo de casa. É que o segundo dia começaria mais cedo, como disse um dos militares que nos acompanhava.

"Às 7h30 em ponto saímos daqui. Quem ficar para trás pode ir a pé", brincou. O problema é que ir a pé do Ibirapuera a Osasco não deve ser nada bom. Muito menos quando o sedentarismo toma conta do seu corpo.

Mas, deixa eu te situar, leitor. Lembra das incontáveis citações sobre o "amanhã" no post de ontem? Pois bem, o "amanhã" chegou. E chegou bem. Chegou forte! Às 7h30 já estávamos nos encaminhando para Osasco, onde fica o 2° Batalhão de Polícia do Exército. Às 7h30 o termômetro já devia marcar mais de 30 graus.

PARADA

Antes de prosseguir, gostaria de contar uma história um tanto bizarra que aconteceu no trajeto do Batalhão de SP a Osasco. Estávamos dentro de um ônibus militar – todo camuflado, bonitão – em uma avenida da cidade – quando um barulho fez com que todos colocassem os olhos na rua.

O barulho? Um dos motoqueiros da Polícia do Exército havia sido atropelado enquanto realizava a escolta do ônibus. A trama era a seguinte: os motociclistas iam à frente e interrompiam o trânsito da marginal para que o ônibus pudesse passar sem problemas. O problema veio após um erro de cálculo do militar ou do motorista do carro. Ou dos dois.

Mas, essa não foi a parte mais bizarra. Não! Assim que o estrondo aconteceu, os militares que estavam dentro do ônibus pediram imediatamente para que o automóvel parasse. Todos desceram. Até que chegou a vez do motorista, que, sem avisar, sacou uma arma e colocou na parte de dentro da calça. Não há problema, vai que o barulho fosse uma ameaça, de fato? É preciso se proteger.

Mas, na hora não é assim que funciona. Quando vi aquilo, pensei: "Pronto, está feito! A prova prática tinha começado mais cedo!". Saímos do Batalhão às 7h30 direto para o painel "Jogar o foca no meio da balbúrdia pra ver se ele aguenta o tranco, mesmo". Que aula inicial, amigos!

O mais bacana (?) foi a atitude do motorista ter dado um "susto gostoso" em todos os estudantes. Apesar do medo, todos estavam atentos ao que ocorria do lado de fora. Alguns filmavam. Arrisco-me a dizer que não deixamos o ônibus única e exclusivamente por nos terem impedido. Êta bando de foca curioso!

PROSSEGUINDO

EFEITO DAS ARMAS 20/10

Às 8h30, depois do fato bizarro, chegamos ao 2° BPE, onde fomos apresentados ao Tenente-Coronel Jonh Davys Bezerra Dantas, responsável pelo cuidado dos focas durante as atividades práticas. Depois de um breve "olá", ele nos passou ao Tenente Alexandre, especialista em armas de fogo e responsável por dar o pontapé inicial à ação verdadeira.

Crédito:SD de Lima
Em primeiro lugar, o tenente nos mandou vestir uma roupa militar – composta de um colete de uns 15 quilos e capacete, além de uma espécie de tampão para o ouvido. Depois de vestido, senti: "enfim, Rambo". Estava demorando. Era a ação que eu queria. Vou aprender a atirar! Quase isso...

Nossa primeira atividade consistiu em compreender o efeito das principais armas usadas em conflitos armados em diversos obstáculos. As armas utilizadas foram a pistola 38, a 9 mm, o fuzil 556 AR15, calibre 12 (ou cartucheira) e o fuzil 762.

Os obstáculos? Não éramos nós, focas. Calma. Mas um muro de blocos, outro de tijolo, latas de tinta (com água), sabão (que simulou um corpo humano), vidro laminado e uma placa balística. Os tiros foram disparados em cada um dos objetos como forma de demonstrar, na prática, o efeito de cada uma das armas.

E afinal, qual era a intenção disso? A ideia era mostrar ao jornalista o melhor lugar para se abrigar dependendo da arma do inimigo. Por exemplo: o fuzil 762, que é extremamente potente, passou facilmente por quase todos os obstáculos – exceto a placa balística. E mais maluco é a forma como ele atinge o alvo. "Deixa um buraquinho no orifício de entrada e um 'rombo' na retaguarda", como descreveu o tenente.

Crédito:SD de Lima
Foi, sem dúvida, uma boa mostra de como saber escolher um bom abrigo durante uma troca de tiros. Primeiramente, tente observar o armamento do inimigo. Em segundo lugar, escolha o melhor abrigo para defesa. É melhor seguir esse conselho se quiser sobreviver, viu Rambo?!

Outra mostra que me chamou atenção foi o uso do sabão como simulador de um corpo humano. Isso mesmo! Eles nos mostraram como o negócio funcionaria se atingisse a nós. E é um baita estrago – da 38 ao 762.

Assista ao vídeo:

Conclusão: baita aula. Principalmente para compreender o efeito de cada uma das armas, algo que eu não conseguia entender somente na teoria. A prática muitas vezes parece ser mais simples. Nesse caso, foi.

A parte cansativa ficou por conta da roupa. Como pesa! Ficamos por cerca de quarenta e cinco minutos assistindo aos tiros e, antes dos 20, meu corpo já estava pedindo arrego. Sério mesmo!

Mesmo com todo o preparo, é louvável acreditar que alguém consiga permanecer por quatro, oito, doze horas com esse tipo de roupa. É como se você carregasse uma criança de cinco anos durante um combate. Imagina?

PRIMEIROS-SOCORROS 20/10

Conclusão: Essa aula não animou tanto. Apesar de extremamente importante – principalmente quando me imagino dentro de uma zona de conflito – talvez seja o tipo de informação difícil de promover ânimo geral em uma turma de jornalistas.

Crédito:SD de Lima
Apesar disso, vou levar para a vida um conselho dado a nós pelo Sargento Carvalho, do Corpo de Bombeiro de São Paulo e responsável por ministrar o painel sobre primeiros-socorros. "Antes de chegar à vítima é preciso olhar o todo", disse.

E é verdade. É preciso estar inteirado e atento ao seu redor. E não apenas em uma guerra. É preciso, antes de tudo, garantir que a sua vida esteja fora de perigo para que você possa atender ao ferido com o máximo de atenção possível, sem se preocupar com possíveis ataques. Reflexão muito bacana.

CONSUMO DE RAÇÃO OPERACIONAL 20/10

Ah, chegou o almoço. O tão esperado almoço do "amanhã". Fiquei o mês todo pilhado sobre o que seria, de fato, essa tal ração. Pois bem, descobri. Só não tenho certeza se foi tão saborosa, assim.

Crédito:Matheus Narcizo
Estávamos saindo da aula sobre primeiro-socorros quando um dos militares nos gritou: "É hora do almoço, galera!". Faminto, corri para o local apontado. Chegando até lá, havia várias cadeiras, uma ao lado da outra. Nelas, uma sacola verde – junto de uma marmita – estava a nossa espera.

Fomos atendidos pelo Capitão Tarso, do 2° BPE, que nos deu um parâmetro inicial sobre a ração operacional do Exército. Ele especificou as diferenças entre os alimentos R2 – que nutrem por 24 horas – e R3 – por 12 horas. Essas espécies de kits são consumidas somente em casos emergenciais – como, por exemplo, quando não há cozinha dentro do batalhão.

Crédito:Matheus Narcizo
Só para constatar: não é ração do tipo de cachorro ou alpiste de passarinho. Digo isso porque era exatamente o que eu achava que seria. Algo como um creme com sabor de feijoada, bem como os astronautas utilizam em expedições. Maluquice.

Pois, legal, depois da explicação me senti pronto para ir ao refeitório comer "algo de verdade". "E quando nós vamos almoçar?", questionou ao capitão um colega. "Ah, pessoal, só pra dizer: o almoço de vocês será uma das duas possibilidades de refeição. Escolham", disse, meio que retrucando a pergunta mal feita pelo foca.

E agora? Me questionei. Vou precisar comer esse negócio? É claro que vou! Tinha duas opções: um pacote a vácuo de carne seca com molho de abóbora e arroz ou um pacote com uma espécie de sopa de macarrão com frango. Escolhi a segunda.

Crédito:Matheus Narcizo
O primeiro desafio: aprender a esquentar a comida. Micro-ondas? Fogão? Tá de brincadeira, estagiário? Vai lá aprender a fazer o teu fogo pra esquentar a comida. "Vocês só tem mais quinze minutos", bradou o comandante. Tinha quinze minutos para esquentar a refeição e botar pra dentro. Consegui, quase não conseguindo.

Assista ao vídeo:

Na real, a comida era bem ruim. Conversando com o pessoal, fui informado de que a carne seca estava bem saborosa. E eu bem que tinha pensado nela.

Conclusão: Doideira total. É claro que, em um ambiente de conflito, no qual a comida é alvo de disputa, uma ração dessas deve ser uma das sete maravilhas do mundo moderno. Eu não duvido.

O problema foi aprender a manusear algo tão incomum de forma tão rápida. Não é nenhum jogo de xadrez, mas produzir o seu "fogão", acender o fogo, esquentar a comida para, enfim, comer, leva um tempo. Da primeira vez, ao menos.

Crédito:SD de Lima
O destaque ficou por conta da feição dos focas. Fomos todos pegos de surpresa e foi indescritível ver a cara de desgosto na maioria dos rostos. Indescritível, diria. Devo ter transparecido a mesma impressão.

NEGOCIAÇÃO E SEQUESTRO 20/10

Depois de um almoço "farto", voltamos ao ônibus e fomos levados ao 4° Batalhão de Infantaria Leve, também em Osasco, onde assistimos à palestra sobre "Negociação e Sequestro", ministrada pelo Major da Polícia Militar Hélio Tenório dos Santos.

Outro choque de realidade. O cara começou o painel dando logo um banho de água fria em todos os focas. "Essa palestra é muito importante para aprender a sobreviver a um sequestro. Vocês, jornalistas, ainda serão sequestrados na vida, então é bom saber".

Crédito:SD de Lima
O quê? Tudo bem que o Estado Islâmico está aí pra comprovar que o jornalista é, de fato, um alvo – eles têm, inclusive, um canal de TV no qual os jornalistas sequestrados são usados como disseminadores de informação – mas, não me deixa assim, assustado. Vai com mais calma que eu ainda estou no começo.

A palestra, de forma geral, mostrou como agir durante um sequestro, como lidar com os anseios pela liberdade e de que forma tentar trazer o sequestrador para o nosso lado. Para figurar a palestra, o major ainda deu exemplos de jornalistas que ficaram um longo tempo sequestrados: a canadense Amanda Hindhout (15 meses presa), o norte-americano Michael Scott Moore (três anos) e o também estadunidense James Foley (que passou um ano e nove meses preso até ser decapitado pelo ISIS).

Depois de nos ensinar como fugir do nosso próprio sequestro, o major direcionou o painel para a negociação, o lado mais político e diplomata do jornalismo. Como negociar, por exemplo, a entrada para cobertura jornalística dentro de uma zona de conflito? Quais as chances de conseguir um aceno positivo para quem domina o território?

Tivemos até um exercício prático, no qual precisamos negociar com o Exército a entrada de uma equipe de mídia dentro de uma área conflituosa. No fim, a ideia era compreender como se vence durante uma negociação. A vitória vem no mínimo e não no máximo, como se pensa. Entre com um ou com cinco jornalistas? O importante é ter alguém ali, mesmo que seja solitário.

Conclusão: Foi uma palestra tensa. A todo o momento me coloquei como um dos jornalistas sequestrados. Como deve ser? O que eu faria? Será que tentaria fugir? É desesperador imaginar algo assim.

O ponto bacana ficou para a questão da negociação. Sempre imaginei que alguém precisasse vencer. Mas, não. Não é assim. Assim como a dica do painel de Primeiros-Socorros, esse lance de "ganhar não é derrotar alguém" vai ficar na mente. Ainda mais em uma sociedade como a quem vivemos, que é predominantemente individualista.

PISTA DE PROGRESSÃO 20/10

Aqui está, a nata do dia! Lembra que, no capítulo anterior, falei sobre "ser puxado". É, tudo terminou aqui. Depois de um dia bastante corrido, com tiros, comida esquisita e dicas de "como ser um bom sequestrado", estávamos prontos para encarar o combate. Já dava para ir à guerra. Ah, tá!

Crédito:Matheus Narcizo
Sob o comando do Tenente-Coronel Cavalcanti, fomos até a pista de progressão do 4° BIL vivenciar um ambiente de guerra. Ao som, segundo Valesca Popozuda, de "tiro, porrada e bomba" fomos divididos em equipes de seis (ou sete) focas a serem guiados por uma equipe do Exército durante um embate com inimigos. Novamente, a roupa pesada, acrescida de joelheiras e cotoveleiras. Bastante incômodo. Ainda mais em um calor de quase 40 graus. Agora sofre, foca!

Fui membro da segunda equipe escalada para a pista, que continha um túnel, dois muros, uma passagem por arame farpado e atravessadas sobre pontos de tiroteios.

PAUSA

Aqui, preciso ressaltar uma lembrança bastante engraçada. Estava com outros quatro companheiros aguardando o começo da prova. Faltava um. Não demorou muito para avistarmos sua presença. Ele vinha. Vinha correndo. Estava empolgado. Quando chegou perto, decidiu dar um mergulho para dentro da casa de refúgio na qual aguardávamos e acabou martelando a cabeça na quina da porta. Foi sorte estar de capacete. Uma porrada!

Não poderia deixar de lembrar o quanto isso foi engraçado. Mais engraçado ainda após notar que o soldado logo atrás dele se segurava para não rir. Ele precisava manter a postura. Estava em guerra. Nós, não, estávamos estagiando. Obrigado, carinha. Jamais será esquecido.

VOLTANDO

Depois das instruções iniciais, a prova começou. A ordem era: os soldados vão à frente e vocês podem prosseguir após a primeira ordem. Pois bem. Fui o primeiro.

Logo no primeiro obstáculo, o do túnel, quase desisti. Fui crente que sua altura era razoável – acreditei que uma agachada básica seria suficiente, mas não. Era bem mais baixo. O capacete batia no teto, que o mandava de volta para frente do meu rosto. Ficava sem visão. Escuro e sem visão. Precisei rastejar. Achei que não conseguiria. Foram os trinta piores segundos dos meus últimos anos. Saí.

Crédito:Matheus Narcizo
Consegui deixar o túnel e, em seguida, precisei pular dois muros. O primeiro foi tranquilo. No segundo precisamos de ajuda, por conta da altura. Depois, o arame farpado. Eu não sei, mas era como se eu já quisesse o Rambo bem longe de mim. Eu, que antes da prova quase coloquei uma faixa no cabelo e pintei o rosto com listras de tinta preta, acabei vivendo uma guerra particular...com a dor.

E o que já estava difícil ganhou ares um tanto mais complicados após a pressão bastante intencional dos soldados. Uma simulação bastante real do que é a guerra. "Abaixa, jornalista. A essa hora você já teria morrido", disse um deles. "E cadê você tirando fotos? Cadê a captação de informação?" questionou outro.

E foi aí que, caramba, percebi que tinha deixado a máquina na mochila. Seria uma chance bacana de fotografar um falso conflito que tinha ares de realidade. Sem outra forma, forjei uma câmera com a mão. Foi como se eu estivesse fazendo meu trabalho. Só não consegui registrá-lo, infelizmente.

Depois de capturar o inimigo, finalizamos a pista. Ainda havia outro obstáculo, um túnel debaixo da terra, mas os soldados acharam melhor não investir nele. Um túnel de cerca de cinquenta centímetros de altura. Veja lá. Ainda bem que não rolou.

Assista ao vídeo:

CONCLUSÃO 2° DIA:

Quando tudo acabou eu estava cansado. Contando assim, pode parecer que não, que é coisa de sedentário, mas foi difícil. Foi puxado, como adiantei no primeiro capítulo. Só fazendo tudo aquilo para saber.

Foi um "dia de cão", definitivamente. Um dia que me mostrou o quanto deve ser difícil estar disposto a fazer isso todos os dias. E quanto deve ser difícil ser um correspondente. Imagina só, estar cansado e ainda ter que pensar em se esconder no lugar correto, refletindo sobre um almoço magnífico e ainda ter que trabalhar? Sofre aí, foca!

E assim termina o "amanhã". O próximo dia também foi puxado, mas a pegada foi diferente. Foi muito mais voltado para o lado mental do jornalista. Foi preciso usar a cabeça, desconectar de mim, o Rambo, e dar vida a um militar estrategista, algo como Napoleão.

"Quem já jogou WAR?", questionou um militar. É, foi mais ou menos assim. Não deixe de conferir. Até amanhã.


Acompanhe a outra reportagem da série:

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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves