Foca em Apuros: A Missão #1

Em meados do último mês de setembro, recebi minha primeira grande missão desde o momento em que escolhi o jornalismo como profissão: cobrir os quatro dias do Estágio de Correspondente de Assuntos Militares (ECAM), promovido pelo Comando Militar do Sudeste (CMSE), ao lado de outros cinquenta focas vindos de várias partes do Brasil.

Atualizado em 03/11/2015 às 15:11, por Matheus Narcizo*.


A missão – usando o linguajar militar – não seria fácil. Não foi – dizendo como quem já vivenciou. Não está sendo – dizendo como quem precisa relatar todo o tipo de informação. Mas, quem disse que o jornalismo é fácil? Se for, de fato, fácil, peço que me ensinem. É difícil. E talvez a parte mais complicada seja retratar isso ao leitor. Pois bem, vamos lá.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar o que um correspondente faz. Via de regra, os manuais dos grandes grupos midiáticos do Brasil e do mundo definem o correspondente como "um repórter baseado fixamente em uma cidade estrangeira, cobrindo uma região, um país ou às vezes um continente inteiro".

E qual é o caminho a ser trilhado para ser um correspondente? Como ser responsável por informações de um continente inteiro? Quando pisei no quartel general do II Exército, o CMSE, no último dia 19 de outubro, essas eram duas das minhas grandes dúvidas.

Antes do curso, queria compreender o tal brilhantismo do cargo e toda a sua importância. Eu, que gosto de estudar conflitos armados, ansiei por entender os motivos que levam jornalistas a arriscarem suas vidas em comprometimento com a informação e a história. Queria, com isso, poder refletir e compreender se eu mesmo estaria disposto a "dar o sangue" por histórias que poucas pessoas se propõem a contar.

Aqui, leitor, você vai conferir nos próximos quatro dias uma série de vivências desse estágio. Foram aprendizados primorosos, essenciais e bastante marcantes que consegui através da convivência com profundos conhecedores do assunto. Também tiveram momentos de esforço físico. E desgaste mental. Há momentos em que o físico e o mental foram colocados à prova, justamente para mostrar o quanto é importante pensar e agir no menor tempo possível em situações assim. É questão de vida! É guerra!

Depois dos quatro dias, posso dizer que compreendo pouco mais sobre o que é e como deve ser estar em uma guerra. Digo "pouco mais" por achar ser impossível entender o que acontece sem presenciar e tangenciar um conflito. O que espero, depois destes quatro dias, é que você consiga entender este "pouco mais" apresentado por mim.

Crédito:SD de Lima
1° dia – A Missão

Chegou o grande dia. Não consegui dormir. Logo eu, que não recuso uma soneca. Saio da cama às 6h e vou "varado" para o primeiro dia do curso, que está marcado para começar às 8h. Às 7h30 já estou no CMSE.

Chego e sou direcionado a uma espécie de guichê para me identificar. Um dos militares pergunta meu nome e em seguida questiona: "Está preparado?", com risos. Eu, sempre "oportuno", rebato: "Opa! É você quem vai me apresentar aos golpes de krav-magá?". "Krav-magá, não. Hoje é tranquilo. Amanhã que vai ser puxado", me responde.

O "amanhã", a propósito, foi bastante comentado no primeiro dia de curso. Mas, não divido nada sobre isso hoje. Só amanhã. Só como pitada, confirmo: foi puxado.
Pouco antes das 8h, o organizador do evento nos reúne para uma apresentação situacional. Ele comenta sobre o evento, a necessidade de pontualidade – ressaltando toda a disciplina militar em relação a isso – e, de novo, a necessidade de trazer uma "roupa mais solta" para o segundo dia. Repito: foi puxado.

"Façam networking", bradou. "Vocês são futuros correspondentes e precisam de contatos. Aproveitem esse monte de gente, aqui".

ALIÁS, interrompo o texto para uma observação bastante interessante. Dos quase cinquenta alunos selecionados, 28 eram mulheres. Isso significa que mais de 50% do corpo de alunos do ECAM era formado pela ala feminina. Um número bastante significativo e que pode trazer bons frutos para o futuro. Parabéns às meninas!

Crédito:SD Victor Oliveira
PRIMEIRA PALESTRA 19/10

A palestra de entrada esteve sob o comando do Tenente-Coronel da Reserva Carlos Alberto de Moraes Cavalcanti, que nos situou, em linhas gerais, sobre o que um jornalista precisa saber sobre a guerra para ir até ela.

Na real, o título da palestra era "Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário (DIH)", mas, a verdade é que o tenente acabou abordando um mundo de outras coisas. Falou sobre a atuação da ONU, sobre as Convenções de Genebra, os tipos de guerras – civil e internacional. E, principalmente, ligou tudo isso à nossa profissão. É aí que mora o ponto.

Em resumo, achei bastante interessante o pessoal do ECAM tê-lo colocado como palestrante inicial. Foi, digamos, um lead sobre guerra para nós, estudantes. O que é? Como posso agir? Como eu deveria agir? Quais os riscos?

De forma bastante correta, Cavalcanti evitou durante todo o momento linkar a ideia de cobrir uma guerra ao fato de estar obrigatoriamente posicionado ao lado de um exército específico.

Pelo contrário, ele não defendeu e nem criticou demais o tal jornalismo embedded – no qual o profissional é, digamos, "bancado" para trabalhar em favor de uma tropa. O fato de escolher seguir ou não um lado, para o tenente, pareceu uma questão muito mais pessoal – mesmo que eu, sem hipocrisia, consiga compreender que o posicionamento dele, se jornalista, seria o de atuar ao lado das Forças Armadas.

Ele nos questionou: "Para o enfoque jornalístico: retratar o ato em si, sem posicionamento, ou manifestar apoio?". Veja, boa questão. O que faria? Talvez seja difícil responder aqui, em São Paulo, sentado em frente a um ventilador e bebendo café. Mas, daqui, digo que escolheria trabalhar com certa distância em relação ao exército.

E, por quê? Atuar ao lado de uma tropa me daria, sem dúvida alguma, regalias, principalmente em relação à segurança. Em contrapartida, será que isso não geraria certo bloqueio no tratamento de algumas questões? Eu teria liberdade de cobrir informações extra-campo determinado pelo Exército? Não sei. Talvez não.

Eu, além da guerra, desejaria dar ao trabalho feito uma posição pouco mais humana. Por que não ir até os civis que vivem em meio ao conflito? Nada melhor do que ter a liberdade de tentar realizar um trabalho que vá mais a fundo na raiz da guerra. Em contrapartida, como ficaria a segurança? Um dilema. Acho que isso pode ficar mais claro após o último episódio da série.

Ainda no gancho da opção sobre a atuação jornalística dentro do conflito armado, o tenente impôs outro questionamento: e quando um jornalista é, de fato, um alvo?

Somos um alvo a partir do momento em que escolhemos um lado ou influenciamos no combate. E, no final, o que parecia ser mais seguro pode não ser, não é? Eu aceito informar sob a sua ótica, em segurança, mas passo a ser, instantaneamente, um alvo. "Essa é uma questão que todos vocês devem se impor, porque você se torna alvo inimigo a partir do momento em que decidir defender um lado e vestir colete e capacete", foi como fechou a primeira palestra do dia o tenente Cavalcanti.
Conclusão: uma palestra bem bacana, de ponta a ponta. O tenente nos trouxe parâmetros essenciais para a atuação em uma zona de conflito e ainda me fez confrontar meus próprios valores, ética e ideais a um ambiente tão hostil. Me levou a pensar o quão ser correspondente vai além de apenas ser corajoso. Será que eu faria tudo da mesma forma? Não sei. Repito: falar da poltrona é fácil.

Crédito:SD Victor Oliveira
SEGUNDA PALESTRA 19/10

A segunda palestra matinal ficou sob o comando do General de Brigada Riyuzo Ikeda. Particularmente, o painel "O CMSE no contexto do Exército Brasileiro" não me empolgou. A ideia do general foi estabelecer motivos pelos quais o CMSE está em São Paulo. Para isso, ele usou exemplos mercadológicos, como o estabelecimento das maiores construtoras, frigoríficas, montadoras, geradores, entre outras empresas estarem no Estado. Um comparativo interessante, mas que acabou se tornando repetitivo.

Conclusão: o ponto alto da palestra aconteceu enquanto Ikeda falava sobre a divisão dos cargos dentro do batalhão. Bem legal entender como funciona algumas das hierarquias dentro do exército, como o Batalhão, a Brigada e a Infantaria. Isso, no entanto, será esmiuçado no terceiro dia. Aprenda no ritmo do curso, como eu.

PAUSA PARA O ALMOÇO

Ah, o almoço. Um bom almoço. Isso fará falta no segundo dia. Aguarde.
Observação: também foi bastante interessante perceber como a hierarquia militar se divide em momentos como a refeição. Militares mais graduados de um lado, soldados novos – espécie de focas do Exército – do outro.
Crédito:SD Victor Oliveira
PÓS-ALMOÇO TERCEIRA PALESTRA 19/10

A última palestra do primeiro dia foi uma incógnita. Foi boa, só não achei ótima, como a primeira.
O bate-papo foi comandado pelo também General de Brigada, Otávio Santana do Rêgo Barros, que é Chefe do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX) e falou sobre "A Comunicação Social no Exército Brasileiro".

Logo no início, ele pontuou a atuação do Exército em redes sociais como Facebook, YouTube, Twitter e WhatsApp. Foi um susto! Eu, que mal sabia que o Exército tinha um site, descubro que eles, muito além, investem em WhatsApp! Surreal! Digo que foi um susto por ter em mente o arquétipo do militar como um ser antiquado e arcaico. E foi interessante descobrir que estava errado.

Sobre a nova direção, ele explicou que "a intenção disso tudo é fazer com que o EB (Exército Brasileiro) consiga reerguer sua imagem em relação à população brasileira." Uma tentativa de estreitar a confiança do povo para com os militares. E sabe quem é peça-chave nisso? Sim, nós, os jornalistas.

Pela segunda vez me vi confrontado com meus próprios ideais. Será que faria? Me recusaria? Mais do que informar, a palestra mostrou como o Exército tem investido no domínio da opinião pública. Mostrou, também, como ele necessita do jornalista para tornar isso real. Eis a questão: até que ponto somos [jornalistas] necessários?

"Nós gostamos que jornalistas nos acompanhem em missões. Isso os ajuda a compreender um pouco mais sobre a forma como atuamos. Além disso, é de extrema importância que eles repassem nossas ações à sociedade", comentou.

CONCLUSÃO: essa foi a palestra na qual me senti mais confrontado. Também foi a que mais me fez pensar na força do jornalismo. Nos "usam" – não há jornalista santo, também – porque conhecem nosso poder. Um poder que muitos nunca imaginaram ter. Olha aonde foi se meter, seu foca curioso!

Uma coisa bacana de ressaltar é a interação do EB com a população. Acreditem, eles estão investindo pesado nisso! A estrutura multimídia é impressionante. Vídeos bem feitos e com encaixe à rede social. Mais do que "um tiozinho" se enfiando nas redes, o Exército mostrou saber manusear as novidades. Tchau, arquétipo!

CONCLUSÃO 1° DIA

Em suma, o primeiro dia de curso teve intenção de nos situar sobre o que é uma guerra, seus conceitos, seus desafios. Ideias básicas para quem deseja cobrir um conflito armado de forma consciente e responsável. No segundo dia – aquele, tenso – as teorias foram colocadas em prática.

Ainda no primeiro dia, curioso como você, leitor, questionei um soldado sobre o falado "amanhã". "Dá para descrever um pouco do que vai acontecer?", perguntei. "Calma, que amanhã você descobre", me respondeu, sem ajudar. E é com esse gancho que convido a todos para o próximo capítulo da série. Não esqueça: venha com roupas leves - calça jeans, tênis e camiseta - e alimente-se bem. Até amanhã.


* Com supervisão de Vanessa Gonçalves