Fixação por calças

Fixação por calças

Atualizado em 11/06/2010 às 12:06, por Silvia Dutra.

Eu já tinha ouvido falar ou mesmo presenciado gente perdendo o emprego por ser incompetente, despreparada para exercer alguma função. Por faltar demais, ou estar sempre atrasada. Ou por comparecer ao trabalho embriagado, drogado, não demonstrar compromisso com a empresa nem responsabilidade ou honestidade.
Por burrice e falta de bom senso também já tinha visto. Um cunhado meu, dono de uma clínica veterinária aí no Brasil, certa vez demitiu uma funcionária que em pleno expediente resolveu usar uma máscara de abacate no rosto e colocar uns bobs no cabelo.
Também já vi gente sendo demitida por insubordinação e desrespeito aos superiores hierárquicos, em confrontos ao vivo ou por conta de fofocas ou indiscrições na Internet. Agora, gente sendo demitida porque admitiu ter mantido relações sexuais antes de estar legalmente casada confesso que foi minha primeira vez.
O caso aconteceu numa cidade da Florida, St Cloud, na região de Orlando, e é tão absurdo que virou notícia. Jarretta Hamilton era professora da quarta série na escola particular Southland Christian School, de orientação religiosa e cristã. Ano passado, logo após seu casamento, ela descobriu estar grávida e foi conversar com o departamento de recursos humanos para perguntar sobre a licença maternidade.
Foi quando lhe perguntaram se ela havia concebido a criança antes de comparecer ao altar e assinar os papéis do casamento. Ela confirmou que a gravidez tinha começado três semanas antes da cerimônia. Dias depois ela foi demitida abruptamente, impedida de terminar o semestre.
Jarretta entrou na Justiça, acusando o ex- patrão de violar uma lei federal que protege uma funcionária de ser demitida por estar grávida. E também uma lei estadual contra discriminação baseada no estado civil.
Dias depois seu advogado, Edward Gay, recebeu uma carta da administradora da escola, Julie Ennis, explicando que Jarretta tinha sido aconselhada a "não mais voltar porque não havia observado uma questão moral, chamada fornicação, que é o sexo fora do casamento".
Na carta a escola nega que a gravidez tenha sido o motivo da demissão e admite que Jarretta era uma excelente professora. "Temos outras professoras grávidas, mas elas conceberam já casadas. Jarretta foi informada dos padrões, valores e propósitos da escola quando aceitou trabalhar aqui". Candidamente Julie Ennis ainda pede na carta que Jarretta Hamilton retire o processo da Justiça e "considere os ensinamentos do Senhor".
Vários pais de alunos apoiaram a decisão da escola em fazer valer os valores cristãos. "Temos um código moral no qual acreditamos, essa é a base da escola", disse Scott Bickel, pai de dois alunos.
Já o advogado de Jarretta acredita que nenhuma cláusula de moralidade no contrato de admissão de uma professora pode ter mais valor que leis estaduais e federais contra discriminações no local de trabalho. Jarretta Hamilton também acusa a escola de ter violado sua privacidade ao revelar para pais e estudantes as razões para sua demissão. E o caso continua.
Frequentemente essas escolas religiosas viram notícia aqui nos Estados Unidos e quase sempre por razões nada positivas. Os motivos variam. Vão desde denúncias de abusos sexuais por padres e cléricos contra crianças em escolas e orfanatos até outros tipos de violações, da privacidade e dos direitos civis de alunos e funcionários.
Meses atrás mesmo, numa outra cidade também aqui na Florida, uma universidade católica anunciou de que a partir do dia 10 de agosto de 2010 todas as professoras e funcionárias estarão proibidas de usar calças compridas durante o expediente.
A universidade se chama Ave Maria, sem brincadeira, e fica numa cidade com o mesmo nome. O fundador de ambas é Tom Monaghan, um católico que ficou milionário fazendo pizzas.
Ele criou a rede de pizzaria Domino's, com lojas em todo o país. Ao vender os negócios e se aposentar, Monaghan decidiu comprar terras perto de Naples, na costa oeste da Florida. Arrumou alguns sócios, investiu milhões de dólares e construiu uma grande universidade católica e, em torno dela, uma cidade.
Dois meses atrás Monaghan baixou o tal decreto, instituindo a obrigatoriedade das saias e banindo as calças compridas para as mulheres. "Acreditamos que esse novo código de vestimenta vai nos destacar visualmente, de uma maneira positiva, de outras instituições de ensino superior", foi a explicação que as funcionárias receberam.
Como toda a economia da cidade gira em torno da Universidade é bem provável que o decreto de Monaghan seja obedecido. Nesses tempos de desemprego generalizado não é difícil decidir entre ganhar a sobrevivência ou usar uma calça comprida.
Ao visitar o website da cidade de Monaghan notei a ênfase em religião e na preservação e divulgação os padrões e valores morais alinhados com tais crenças. Exatamente como a carta da burocrata da escola, Julie Ennis, que demitiu a professora competente. Só tem uma coisa que me intriga nessas histórias todas: a fixação que essas pessoas religiosas parecem ter por assuntos superficiais e de fórum totalmente pessoal. E por calças: quem usa calças, quem usa batinas e esquece das calças, onde e quando alguém pode usar calças, quem não pode usar calças, quem tirou as calças, se tirou antes ou depois do casamento, Ave Maria!