Fidel Castro e a UPI

Fidel Castro e a UPI

Atualizado em 03/08/2009 às 13:08, por Nelson Varón Cadena.

Há meio século a revolução cubana dava uma guinada definitiva rumo ao socialismo com a deposição do Presidente Manoel Urrutia que governava o país desde 02 de janeiro. No início do ano a Frente Cívico Revolucionária liderada por Fidel Castro adentrara na capital, Havana, pondo para correr o ditador Fulgêncio Batista. Urrutia tinha sido indicado por Castro para ser o Presidente da República, mas divergências em torno da influência do partido comunista sobre o novo governo levaram o magistrado a se demitir e se refugiar nas embaixadas da Venezuela e México e em agosto de 1959 deixar a ilha para sempre. Fidel Castro que num primeiro momento declarara não ter apego pelo poder rendia-se "aos apelos do povo" e assumia com mãos firmes as rédeas da revolução que, então, prometia igualdade para todos os cubanos.

Foi através da United Press Internacional-UPI, agência de noticias criada no ao anterior à revolução cubana com a fusão da United Press e International News Service, que os brasileiros acompanharam os fatos na ilha. A sucursal da UPI em Havana enviava despachos quase diários aos jornais brasileiros e da América latina em Espanhol, traduzidos pelos redatores dos grandes jornais do Rio de Janeiro e São Paulo. Naquele tempo Cuba tinha um dos melhores sistemas de televisão do mundo, mas a revolução cubana chegou até nos foi através da mídia impressa e um, ou outro registro radiofônico do Repórter Esso que também se abastecia da UPI. E não mais era influenciado pela agência de propaganda McCann-Erickson como no tempo da Segunda Guerra Mundial.

O desapego do Comandante
Foi em 03 de janeiro de 1959 que os jornais brasileiros anunciaram a revolução cubana com riqueza de detalhes. A Folha da Manhã publicou na sua primeira página uma longa reportagem, em quatro colunas e com registro fotográfico do tiroteio em Havana, com o título:" Entrada Triunfal das Forças Rebeldes na Capital de Cuba". O olho da matéria indicava que Manuel Urrutia tinha sido escolhido pela Frente Cívico-Revolucionária para a Presidência da República, provisória, enfatizava o destaque. A reportagem detalhava a entrada vitoriosa das tropas revolucionárias e a debelação dos últimos focos de resistência, ressaltando o impacto dos saques e incêndios, atos de violência cometidos "contra as residências e escritórios de antigos colaboradores do antigo presidente".

Mas o ponto alto da matéria era a declaração oficial do Comandante Fidel Castro. O chefe da revolução dizia com todas as letras que "o plano de tomada do poder pacificamente foi traído e que é agora que a revolução começa". Fidel afirmava que tinha absoluta confiança de que no dia seguinte todos os postos militares da ilha receberiam ordens apenas do Presidente Urrutia, indicado por ele. Num aparente desapego pelo poder disse que "Urrutia é agora a autoridade máxima da República e eu apenas um cidadão à serviço do povo". Castro rechaçava a tentativa de empossar o juiz Carlos Piedra como mandava a Constituição, na vacância da Presidência da República, com o argumento de que "um magistrado da Suprema Corte não pode ser Presidente, pois em Cuba nuca houve justiça".

Na seqüência de sua fala Castro disse textualmente que o movimento revolucionário "não havia derrubado um ditador para em seguida permitir que se impusesse outro ao povo". Faltou acrescentar outro que não seja eu. O fato é que naquele primeiro momento da revolução cubana Fidel já tinha uma política externa na cabeça. Na fala registrada pela UPI conclamava ao povo da República Dominicana para seguir o exemplo do vizinho, ele, e derrubar a ditadura do General Trujillo: "O povo dominicano aprendeu dos rebeldes cubanos como se derruba uma ditadura". O tempo encarregou-se de realizar o que efetivamente tinha em mente, idéias além do discurso da vitória.