Fernando Rodrigues - colunista e blogueiro da Folha de S. Paulo
Fernando Rodrigues - colunista e blogueiro da Folha de S. Paulo
Importância para o jornalismo
"Brasília é uma cidade essencial para o exercício do jornalismo. Eu diria até que quem deseja ser jornalista, que está estudando, sempre deve considerar pelo menos passar por aqui. Em Brasília você encontra o jornalismo em estado bruto, o tempo todo. Então, é sempre um aprendizado conviver com as fontes profissionalmente, é claro. Eu acho que o jornalista encontra mais facilidades do que dificuldades em Brasília para fazer a cobertura."
Relação com as fontes
"A proximidade com as fontes não é uma dificuldade, é um problema. A proximidade excessiva e indevida com as fontes é uma deformação da prática do bom jornalismo, que deve ser combatida. Então isso, pode-se dizer, não é um obstáculo, porque se você é um bom jornalista e tem capacidade de discernir o momento em que a relação tornou-se imprópria e excessivamente próxima não tem o menor problema. Mas de fato esse fenômeno ruim ocorre em várias capitais onde existe essa concentração de fontes e jornalistas. Isso não é uma invenção brasileira, é um fato da vida, eu acho. Porque faz parte do jogo a fonte, não só em capitais de países, não só na política e na economia, mas em todas as áreas, na música, no futebol, nos esportes, a fonte querer se aproximar, tornar-se amiga do jornalista e assim influir de maneira indevida. A forma de combater é ter boa formação, capacidade de discernimento, independência jornalística por parte do meio em que o jornalista trabalha."
Influência da agenda dos poderes
"Eu não sei se a pauta é muito atrelada à agenda do Congresso. Eu acho que a pauta em Brasília é muito atrelada e vinculada a ações oficiais dos três poderes: Judiciário, Executivo e Legislativo. A pauta é muito voltada aos poderes da república por razões óbvias. Aqui a nossa demanda é outra e eu nem sei se tem como romper com essa rotina porque tem um aspecto relevante que tem a ver com o fato de o Brasil ser um país onde ainda vigora na sociedade uma espécie de 'estadolatria', uma adoração dos governos, uma dependência do Estado para tudo, que é muito nociva. Para mim, é um câncer no desenvolvimento social do país. Tem um sociólogo que uma vez disse que no Brasil o problema é que o Estado nasceu antes da sociedade: você tinha índio degradado, daí veio aquele rei de Portugal fugido de Napoleão, aquelas caravelas cheias de funcionários públicos e trouxe o Estado pronto, diferentemente da formação do Estado americano onde houve uma guerra contra a Inglaterra e lá tiveram, bem ou mal, os pais fundadores da terra e criaram o Estado a partir de uma cultura que foi se formando na independência do país. No Brasil, uma imensa maioria das pessoas, sobretudo em Brasília mas em muitas partes do país também, sonham em trabalhar para o Estado, em fazer negócios com o Estado. O Estado é o grande 'ioiô', todo mundo quer um favorzinho do 'ioiô' e o Estado sabe disso, os políticos sabem disso. Eles influenciam na nossa vida desgraçadamente, e eles produzem decisões aqui que afetam a vida das pessoas. Então, em decorrência de tudo isso, o volume de notícias que nós somos compelidos, obrigados a produzir é grande."
Concorrência
É um ambiente de hiperconcorrência. São raros os setores na sociedade brasileira que registram a concorrência feroz que existe entre os grandes meios de comunicação no Brasil, meios impressos, meios eletrônicos, agora com a internet. Que bom seria se houvesse concorrência assim para vender passagem de avião, telefone, carro, qualquer coisa. É ruim para quem sofre ali, sua no dia-a-dia, na labuta pela boa notícia, pela primazia de ter informação em primeira mão, mas para o público consumidor o resultado é bom, porque ele tem produtos verdadeiramente concorrentes. Essa é a parte boa do capitalismo. Nos Estados Unidos o processo de formação do território promoveu por diversas razões uma alfabetização mais rápida. Lá, há 200 anos aproximadamente, havia já alguns - no plural - jornais de expressão nacional. No Brasil há 200 anos é difícil admitir até que existia um jornal, era algo muito primitivo. E enquanto não existia rádio, televisão, houve, nos Estados Unidos, a disseminação de dezenas, centenas de jornais regionais, e antes, evidentemente, da crise da mídia impressa, havia muitos jornais de excelente qualidade nas cidades do interior do país. Enquanto no Brasil nunca teve muito desenvolvimento nessa indústria e antes que ela pudesse se desenvolver chegou o rádio, chegou a televisão, e nós nunca, infelizmente, pudemos desenvolver uma mídia robusta, forte e independente no interior do Brasil. Embora, faço a ressalva, de que há bons pequenos jornais no interior do país."
Importância das sucursais
"Um jornal que deseja ter um noticiário próprio, exclusivo sobre o que é relevante no Brasil, não pode se dar ao luxo de economizar e não ter uma sucursal aqui. É caríssimo, mas é vital para qualquer publicação, televisão, rádio, internet. É caríssimo manter uma estrutura aqui, é necessário muita independência financeira, poder de investimento para manter. Os grandes jornais têm, mas é uma operação custosa. Cerca de 30 jornalistas trabalham aqui [na sucursal da Folha]. Eu acho que o tamanho das sucursais dos grandes jornais aqui não ficam devendo nada para o tamanho das sucursais dos grandes jornais americanos em Washington, por exemplo. É igual enxugar gelo, desculpe a frase feita, mas eu não vejo condição para ampliar as sucursais dos jornais em Brasília. Se você dobrar o número de repórteres todos eles vão ter trabalho, mas eu acho que é economicamente inviável porque quantos jornais a mais são vendidos, quantos anúncios a mais serão vendidos se as sucursais da Folha, do Estadão, de O Globo dobrarem o número de jornalistas? Sinceramente eu acho que as sucursais, do tamanho que elas são, reportam sobre tudo o que acontece. É raro você ter um evento em que alguém não tenha coberto. É raríssimo escapar alguma coisa que seja importante."
Mercado para os novos
"Eu faço votos de um novo jornal. Eu acho o seguinte, ninguém rasga dinheiro. Se vier um jornal é porque cabe. Se não vier é porque não cabe. Ninguém vai fabricar um produto, gastar dinheiro, colocar no mercado sabendo que ninguém vai comprar o produto. Às vezes acontece por uma má decisão administrativa, financeira, mas tenho a impressão que se vier um novo jornal, mercado há."






