Fernando Gonsales
Níquel Náusea: Mickey Mouse alternativo

Fernando Gonsales
Níquel Náusea: Mickey Mouse alternativo

Atualizado em 28/10/2004 às 04:10, por Fabíola Tarapanoff.

Fernando Gonsales
Níquel Náusea: Mickey Mouse alternativo

Com seu humor peculiar e irresistível, o cartunista Fernando Gonsales conquista o público com seu ratinho politicamente incorreto

Você fez curso de ilustração? Como começou a carreira?
Eu fiz curso superior, mas não tem nada a ver com ilustração. Eu gosto muito da área de biológicas, de animais, mas gosto mais ainda de desenhar. Comecei a fazer Veterinária e Biologia nos anos 1980, mas aí não deixaram fazer os dois ao mesmo tempo, uma portaria não permitiu. Então fiz Veterinária, em 1979 e acabei em 1983 e fui fazer Biologia bem devagarinho. Comecei em 1980 e terminei em 1997. Trabalhei como veterinário um ano e trabalhei em Tucuruí, no Pará, com animais silvestres, mas depois começou a dar certo a carreira de desenhista e optei pelo desenho. No Pará foi o seguinte: fizeram a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, colocaram barragem, teve uma inundação em uma área, o que é uma calamidade enorme. Tive então de pegar os animais que estavam se afogando e os coloquei em um local mais alto, isso foi entre 1984 e 1985. É uma palhaçada enorme. Se você inunda uma floresta, acaba com alimentos e não adianta colocar os animais em outro lugar que não vai ter alimento para todo mundo. Minha carreira como ilustrador começou na Folha de S.Paulo em 1985. Hoje eu nem sei mais onde fica a Folha, envio tudo pela Internet. O trabalho eu faço a lápis no papel e depois passo nanquim com pincel, escaneio e a minha esposa, Marília, faz a cor.

Qual o seu animal preferido?
Visualmente eu acho os felinos imbatíveis. Não é para desenhar, porque não são engraçados. Sapo, porco é mais engraçado de desenhar, mas os felinos são fortes, são muito lindos.

Você gosta muito de animais, eles são uma inspiração em sua obra. Você trocou os bichos de verdade pelos feitos de papel e tinta?
Eu não gosto muito de ter animais em casa, não tenho nenhum. Passarinho nem pensar, peixe em aquário me dá aflição, mesmo cachorro em apartamento. Então é preferível não ter nenhum animal.

É verdade que você teve uma pulga de estimação?
A pulga, como todos sabem, se alimenta de sangue. Eu deixava dentro de um vidrinho e na hora de alimentar eu colocava na minha barriga e deixava ela me picar e depois tirava. Não cheguei a dar nome para ela, mas ela foi assassinada. Meu primo foi ver se o inseticida funcionava.

Queria que comentasse como foi a idéia de criar o Níquel Náusea.
O começo dessa tira foi em um concurso de tiras, que a "Folha de S. Paulo" promoveu. Aí eu tinha de criar um personagem e resolvi que seria um animal que morasse na cidade, não queria que fosse do campo. Queria que fosse urbano. Fiquei então entre cachorro, gato e rato. Eu fiz o rato, que é o animal mais independente, que vive apesar dos humanos, não graças aos humanos. Depois que eu escolhi o rato, resolvi fazer um nome, aí escolhi Níquel Náusea, que é uma piada. Mas depois fiz umas brincadeiras com o Mickey, que o Níquel tem ciúmes, inveja do Mickey, mas o principal não é essa conversa, que ele é um rato e cuida da vida dele dentro do mundo dos humanos.

Como se inspira para fazer as tirinhas diariamente?
Normalmente eu tenho de ficar quieto em um lugar para fazer uma tira. Tem pessoa que até sonha com a idéia. Comigo nunca aconteceu, é muito difícil. Você tem de sentar e eu começo por um tema, a inveja, briga e fico pensando nesse tema e aí aparece.

Tem um horário em que trabalha melhor?
Em geral na manhã é melhor para ter as idéias, está um pouco mais fresco. E é distribuído para vários jornais. Faço uma tira por dia. Às vezes fico só bolando idéia e quando vejo que está dando certo continuo. Não tem uma rotina, faço sete tiras por semana. Publico no "Diário Brasiliense", no "Diário do Commercio" de Recife, em "O Dia", no "Jornal de Americana". Publico em média em dez jornais.

Quanto você recebe por trabalho?
Varia bastante, um salário mínimo por mês, de cada jornal. Mas eu tenho de dividir com uma agência, a Pacatatu, que distribui não só a minha tira, mas de vários outros, do Angeli e do Glauco. Quanto aos livros, recebo pelos direitos autorais.

Qual foi a inspiração para a barata Fliti, que gosta de cheirar inseticida?
A idéia é bem idiota, não sei se você já viu uma barata intoxicada, ela fica bem doidona, parece que ela está curtindo um barato e a partir daí eu comecei a fazer um personagem.

Nas suas tiras os seres humanos são meio vítimas dos animais, tem uma tirada inteligente. Na sua opinião os animais dominam o mundo e não o homem?
Você sabe que quando eu comecei a tira eu fazia bem assim, o homem como vilão e os animais os heróis, mas com o tempo eu fui mudando minha concepção. O ser humano é tão animal quanto os outros animais, não tem diferença. Eu procuro colocar o ser humano tanto vilão quanto vítima da situação do que está ocorrendo. Se for pensar em termos da idade do planeta, o ser humano é novato. O ser humano tem dez mil anos e a história da vida tem 3 bilhões e meio de anos. Se pensarmos friamente, o ser humano não tem nada que indique que daqui a 50, 100 mil anos, ele continue existindo.Não sei há quanto milhões de anos. Mas os caras encontram os fósseis de baratas iguaizinhas as de hoje em dia com milhões e milhões de anos.

Queria saber quais os artistas nacionais e internacionais que te inspiram?
Eu gosto bastante de gente que estiliza o desenho, faz um desenho estranho. Isso está tanto em quadrinhos quanto em artes plásticas. Dos quadrinhos eu gosto do Quino, que fez a Mafalda, do Astérix, do cara que fazia a história do Tio Patinhas, o Carl Banks, que fazia umas histórias meio malucas. As histórias do Tio Patinhas são muito estranhas, são malucas, dentro do padrão Disney.

Você já fez algum trabalho para o exterior?
No exterior eu só trabalho em Portugal, no "Diário de Notícias", ele publica a notícia e outros autores brasileiros e os livros que eu publico aqui são publicados ali, não têm adaptação nenhuma. Mas parece que os portugueses entendem, estão familiarizados com o português daqui. Muita novela brasileira faz sucesso e eles aprendem o nosso português, o sotaque, o tipo de falar.