Feitas por jornalistas, plataformas de checagem de discurso público ganham espaço
Em 2003 Barack Obama ainda não havia sido eleito, não existia iPhone, Fidel Castro tinha mais um ano no poder, o Brasil curtia o penta sem sequer imaginar um 7 a 1 para a Alemanha, o Chaves morava no barril da vila e não se ouvia falar em veículos jornalísticos de fact-checking.
Naquele ano, o jornalista Brooks Jackson criou o site para monitorar as declarações de políticos norte-americanos em campanhas na TV, debates, discursos, entrevistas e comunicados de mprensa. Em 2007, o colega Bill Adair lançou o na versão on-line do St.Petersburg Times , da Flórida. Feito para checar as frases da corrida presidencial entre Obama e McCain, o site passou a acompanhar o Congresso, a Casa Branca, a imprensa, comentaristas políticos e outros formadores de opinião. Inspirada neles, em 2009, a jornalista argentina Laura Zommer criou o site . O pioneiro do gênero na América Latina abriu caminho para o chileno , o colombiano , o uruguaio e os brasileiros o e , todos criados em períodos eleitorais de seus países.
Demorou 11 anos, mas o espaço, que era temporário, já começa a ser ocupado de forma permanente, pelo , lançado em julho, e pelo , em agosto. A jornalista Tai Nalon criou o Aos Fatos com o relações públicas e programador Rômulo Collopy, por sentir falta de um acompanhamento objetivo das declarações da presidente Dilma Rousseff (PT) e demais políticos. Experiente na cobertura de Brasília (DF), ela pensou em fazer um blog, mas desistiu diante das iniciativas existentes.
Depois do agravamento da crise no país, retomou e ampliou a ideia. “Ofereci como blog para alguns veículos, mas achei que tinha mais potencial e decidi tornar independente. Fact-checking é o carro-chefe, mas já pensamos em novas formas narrativas. Pode ser que cresça para o storytelling com jornalismo de dados”, afirma.
Motivada pelo bom resultado do Truco! Em 2014, a se juntou ao para acompanhar o dia a dia do plenário, monitorando as frases mais relevantes ditas pelos deputados e senadores dentro e fora da casa. “Pensamos no Congresso como alvo, já que a representação parlamentar é a mais próxima do eleitor e, portanto, a que teoricamente mais deveria provocar a cobrança sobre as atitudes tomadas. O projeto se tornou ainda mais relevante pelo momento político do país”, explica Marina Amaral, codiretora da Pública.
Porta aberta
Depois do PoliticFact, Bill Adair criou o site para monitorar as plataformas de fact-checking. Até o fechamento desta edição, o mapa-mundi do jornalista contava com cerca de noventa iniciativas espalhadas pelo planeta, a maioria com viés político-eleitoral. Assim como Adair deixa claro em seu site, as responsáveis pelos projetos brasileiros acreditam que o fact-checking é uma tendência no jornalismo mundial, com a crescente desconfiança do público sobre a isenção e a correção do jornalismo contribuindo para isso.
Diariamente o ofício é examinado e debatido nas redes sociais, ao mesmo tempo que o público busca acreditar “em alguma coisa”. Por isso, as ferramentas para “separar o joio do trigo” com transparência ganham mais espaço. “Ao mesmo tempo que existe uma crise de credibilidade dos veículos tradicionais, da precarização de conteúdo e mão de obra, há necessidade e vontade, sobretudo de jovens, de acreditar em uma forma mais transparente de fazer jornalismo”, explica Tai. “Veículos independentes, dispostos a levar até o fim a apuração, doa a quem doer, são adequados para esses projetos”, completa Marina.
Crédito:reproduçãoA jornalista da Pública ressalta o jovem como um fato importante nesse processo. Segundo ela, essa parcela da população sabe de seu papel ativo na formação da opinião pública, e por isso recebe bem projetos que oferecem dados e fatos. “Também há um apelo visual e lúdico na forma como o projeto foi concebido, de jogo de carta de baralhos, de confrontar a autoridade, exigir explicações publicamente”, acrescenta.
Além do verdadeiro e falso
Apesar de partir do mesmo ponto, cada plataforma foca em um determinado tema e tem a sua forma de classificar o conteúdo analisado. O Aos Fatos, por exemplo, avalia falas, documentos e peças publicitárias dos três poderes de nível federal. A classificação é feita em graus diferentes de autenticidade: falso, exagerado, impreciso e verdadeiro.
“O Aos Fatos trabalha para ser complementar ao noticiário. Escolhemos o que analisar pela temperatura do noticiário, relevância do assunto e influência do político em questão. Temos que contribuir com o debate atual. O nosso foco é o quente”, diz Tai.
No Truco no Congresso, o discurso e os projetos de lei dos parlamentares são checados
com base em cruzamentos de dados, estatísticas e entrevistas com especialistas. O número de frases depende do que for coletado e considerado relevante dentro dos acontecimentos da semana.
A classificação do conteúdo é inspirada no truco, famoso jogo de baralho. As frases recebem uma “carta” que explica se a informação é verdadeira, está fora de contexto, é um blefe ou é considerada prejudicial para uma parcela da população. Além de dar as cartas, o projeto “pede truco” aos parlamentares, desafiando-os publicamente a explicar o que disseram. “O importante é que a maior parte dos assuntos de interesse público seja coberta através da checagem das frases dos parlamentares”, diz Marina.
Já no blog Preto no Branco, criado em 2014 para comparar trechos e frases de declarações do horário eleitoral na TV com dados públicos oficiais, a classificação tem sete categorias: “exagerado” (informação é correta, mas o dado foi levemente distorcido), “contraditório” (informação vai contra o que o próprio candidato já disse anteriormente), “verdadeiro, mas...” (informação está correta, mas vale uma ressalva), “insustentável” (não há dados públicos que comprovem a declaração) e “ainda é edo para dizer” (a informação poderá ser verdadeira, mas ainda não), além dos tradicionais “verdadeiro” ou “falso”.
“É muito importante que a checagem seja feita apenas com informações que o leitor poderia encontrar. Não valem recursos tradicionais de redação a que eles não teriam acesso, como assessorias de imprensa”, explicou Cristina Tardáguila, editora assistente de “País” no jornal O Globo e fundadora do Preto no Branco, à época de seu lançamento. Apesar de ter seu último post em março de 2015, o blog está ativo e deve ser permanente.
Mas nem só de jornalista se fazem plataformas de fact-checking. Além do uruguaio UY Check, criado por estudantes de ciência política, o chileno Del Dicho al Hecho (DDAH) é exemplo de que o modelo pode ser usado por profissionais de outras áreas. Segundo a cientista política Daniela Tejada, coordenadora do DDAH, o site chileno foi criado em 2011 quando o povo não conseguia saber o cumprimento das promessas feitas pelo presidente da República durante a campanha.
“Como a informação estava dispersa ou era inacessível, nós queríamos facilitar este trabalho com a nossa plataforma”, explica. Feito com a ajuda de um sociólogo e uma advogada, o objetivo do DDAH foi fortalecer a prestação de contas no país, instar o governo a fornecer essas informações em uma ferramenta institucional e gerar um estudo sistemático e análise da evolução da administração presidencial.
Além de motivar respostas da esfera executiva chilena e de ministros, o DDAH costuma ser fonte para a imprensa, que repercute o conteúdo do site. “Acreditamos que qualquer organização pode fazer monitoramento como este e a independência política fornece legitimidade social. Para nós, o mais importante é a transparência”, diz Daniela.
Marina, da Pública, vê a experiência do fact-checking como positiva e conta que a agência incorporou a ferramenta em sua rotina, estendendo-a para as outras produções jornalísticas, com o espírito do Truco!: o da checagem apartidária, isenta e aprofundada. “Essa intenção transparece para o leitor.”






