Fechamento ou fecha-tempo?

Fechamento ou fecha-tempo?

Atualizado em 25/10/2004 às 12:10, por Redação Portal Imprensa.

Correria, loucura, adrenalina, poder, stress. Seja nas revistas mensais, jornais diários, internet ou na televisão, o fechamento é o grande momento da redação. Para o bem ou para o mal.

Na internet o fechamento é minuto a minuto, o deadline não existe e a tensão é total. Se errou, corrige-se na hora. Se foi furado, recupera-se na meia hora seguinte. Já nas revistas semanais a loucura começa quando a semana vai chegando ao final. De quinta-feira em diante, tudo pode acontecer. Voltar ou não para casa é algo que depende dos fatores térmicos da pauta, das capas que sobem e descem e dos desdobramentos das manchetes vigentes. Quem for furado ou errar, tem de dormir - quando isso é possível - com a cabeça pesada até a semana seguinte. Já nas publicações mensais o ritmo é outro. A redação tem quatro longas semanas para ler, reler, "pentear", checar e re-checar. Errar, portanto, é imperdoável. Nesses casos, o compromisso não é com furo, mas com a qualidade total, a densidade editorial e a visão de jogo.

Pode-se dizer então que as revistas mensais são as menos sujeitas a "embrulharem peixes". Seja qual for o ritmo e a periodicidade, o fato é que o fechamento é o grande momento da redação. Para o bem ou para o mal. "O estresse depende da organização e do temperamento de quem comanda o fechamento. O editor pode dirigir o processo de forma autoritária ou corporativa. Já tive chefes que chegaram na sexta-feira e mandaram, por capricho e sem dar explicações, mudar tudo", conta o jornalista Dias Lopes. Ex editor da revista Veja, ex - correspondente na Itália, atualmente ele vive uma rotina relativamente mais tranqüila. Como editor-chefe da revista mensal Gula, Lopes não tem virado noites nem perdido o sono. Mas isso não significa vida fácil. Assim como a grande maioria das mensais fora do eixo das editoras Globo-Abril, a Gula conta com um time reduzido de profissionais na redação. "Somos em quatro e fechamos 130 páginas, sendo 80 delas editoriais. Não é fácil. Mas eu não reclamo. Pelo contrário. Sou mais viciado em jornalismo hoje do que há 30 anos. Não existe prazer maior do que ver a matéria fechada."

Jornalismo vicia?

Assim como Dias Lopes, a jornalista Mariana Castro, editora do portal iG, se considera uma viciada em jornalismo. Ela, que já trabalhou como editora e colunista no Jornal da Tarde e repórter da revista semanal Contigo!, hoje não consegue nem se imaginar com rotina menos agitada que a de uma redação de internet. "Na internet o fechamento é minuto a minuto e a tensão é total. Não existe deadline e estamos o tempo todo colocando novas manchetes no ar. Temos o termômetro da repercussão a todo momento. Hoje em dia eu não agüentaria trabalhar de outra forma. Não me vejo em jornal, nem em revista semanal. Mensal, então, nem pensar."

Mas nem tudo são flores no reino da internet. Essa vibração diária pode acabar se transformando em estresse em estado puro. E estresse não é metáfora, é doença. "Como existe a possibilidade de colocar reportagem no ar a qualquer momento, a cabeça fica martelando 24 horas por dia. Não consigo descansar nem de madrugada", conclui a praticante de ioga, Mariana.

Que o jornalismo é uma profissão altamente estressante, todo mundo sabe. Mas, por incrível que pareça, é difícil, quase impossível, encontrar um fechador que reclame do excesso de trabalho. Com a palavra, Paulo Moreira Leite, diretor de redação do Diário de S.Paulo e ex-diretor das revistas semanais Veja e Época: "É saboroso mudar a pauta de última hora. Estressante é a insegurança de não saber se o jornal está bom. No fundo, a única forma de relaxar é fazer bem-feito." Do alto da experiência de quem já comandou algumas das maiores redações do país, Leite compara: "O fechamento da revista é pior. Concentra tudo em um só dia. Em compensação, tem-se uma semana de apuração. No jornal a vantagem é que você pode dar o troco, quando furado, no dia seguinte. Em termos de rotina, entretanto, a pior é do jornal."

Talles de Faria, chefe de redação da sucursal da IstoÉ de Brasília, concorda com o colega. "A rotina do jornal é mais estressante, já o fechamento da revista é pior. Mas o que estressa mesmo é ser furado. Ver seu principal assunto publicado antes em outro lugar. Isso estraga o dia, a semana de qualquer um. É um estresse desgraçado."

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Dicas preciosas para identificar e evitar o estresse do fechamento

Como evitar o estresse no fechamento? Para responder a essa pergunta, IMPRENSA consultou o neuropsiqüiatra Rubens Pitliuk, criador do site www.mentalhelp.com, dedicado a diversas doenças relacionadas a distúrbios afetivos e de ansiedade, como o estresse.

Sinais clássicos do estresse:

1 -Diminuição do rendimento, erros, distrações e faltas no trabalho

2 - Insatisfação com tudo

3 - Indecisão, julgamentos errados, atrasados e precipitados

4 - Piora na organização, adiamento e atraso no deadline

5 - Insônia, sono agitado e pesadelos

6 - Irritabilidade e explosividade

7 - Concentração e memória diminuem

8 - Coisas que davam prazer se tornam uma sobrecarga

9 - Uso de férias, feriados e finais de semana para colocar o serviço em dia, ao invés de relaxar (workaholic)

Sintomas que você está estressado:

1 - Cansaço

2 - Ganho ou perda de peso

3 - Infecções, gripes e outras viroses

4 - A pressão arterial e o colesterol sobem, favorecendo o aparecimento de arteriosclerose, derrames e enfartes

5 - Dores de cabeça, musculares e de coluna

6 - Bruxismo (ranger dos dentes durante o sono)

7 - Pernas intranqüilas, principalmente na cama, durante a noite

8 - Má digestão, gastrite e úlceras

9 - Acne, rugas e olheiras

10 - Ataques de ansiedade ou de pânico

11 - Depressão

O que fazer:

1 - Mudar hábitos

2 - Deitar mais cedo, dormir mais, fumar e beber menos, alimentação mais saudável, socializar mais com os amigos, dançar, fazer esportes (libera endorfinas, que são antidepressivos naturais) e ir ao cinema

3 - Viajar, tirar férias e curtir a família

4 - Lembre-se: até Deus precisou descansar no sétimo dia

5 - Massagens de relaxamento

6 - Psicoterapia