Faz tempo que o tempo virou - Por Paulo de Tarso Venceslau
Faz tempo que o tempo virou - Por Paulo de Tarso Venceslau
Atualizado em 20/06/2005 às 18:06, por
Paulo de Tarso Venceslau*.
Por Pouca gente acredita em previsões meteorológicas. Mas a gente as lê ou ouve com atenção. Principalmente quando se tem um compromisso no fim de semana. Os radares, computadores, cálculos estatísticos e fotos de satélites que fazem a leitura do tempo costumam, porém, não ver o que um caiçara sente.
O mesmo acontece com a política. Todos os dias são emitidos sinais que não podem ser captados pelos mais sofisticados equipamentos eletrônicos. Como dizia frei Betto, tudo vai depender dos óculos de quem os lê. E só não vê quem não quer.
Ricardo Kotscho, brilhante e respeitado jornalista, confessou publicamente que não percebeu a mudança do clima político no Brasil ("O vento virou e eu não percebi", 24 maio 2005). Desinformado ele nunca foi. Até recentemente, viveu nos bastidores do poder. Partilhou de informações que os pobres mortais talvez nunca saibam. Sobrevoou nuvens carregadas e céus de brigadeiro. Com certeza, tal qual um frade, ouviu confidências que permanecerão guardadas sob sete chaves.
O mesmo Kotscho confessa que há pouco tempo escreveu sobre os bons tempos que talvez julgasse ser extensivo senão para todos pelo menos para aqueles que acreditavam no governo Lula. Era o caso dos velhos amigos reunidos na casa do escritor Fernando Morais. Foi "um baita astral, um pessoal de bem com a vida". A festa era uma homenagem ao ditador Fidel Castro ou de desagravo ao ministro José Dirceu por ocasião da revelação do escândalo Waldomiro Diniz, seu braço direito? Até onde se sabe, foram as mesmas pessoas que participaram desses dois jantares. Nem mesmo as "toneladas de críticas" que recebeu foram suficientes para alertá-lo sobre a mudança do tempo.
Faz tempo que o tempo mudou. Os jornais disponíveis na internet são esclarecedores. A carta de desfiliação do PT de César Queiroz Benjamin, por exemplo, foi publicada na página 3 da Folha, em 23 de agosto de 1995. A gota d'água para Benjamin, que hoje assessora o MST, foi a contribuição de uma conhecida empreiteira baiana para a campanha presidencial de Lula, em 1994. Os recursos teriam entrado através da campanha de José Dirceu, candidato a governador, em quem Benjamin ainda confiava (não sei se ainda confia). Confira: "Dirceu é inocente, mas não o sistema de poder que governa o PT, aliás com apoio das bases. Boa parte do que resta delas está cooptada. Grandes ambições articulam pequenas ambições, grandes chefes têm sob si chefes menores, empregos mais altos geram empregos para quem está embaixo".
Na mesma ocasião, eu guardava um segredo só confidenciado a Lula. Roberto Teixeira, compadre e amigo da principal liderança do PT, estava envolvido diretamente com malversação de recursos públicos na prefeitura de São José dos Campos. A descoberta só foi possível porque, em 1993, eu era secretário das finanças. Em 1997, após 4 anos de silêncio cúmplice e tentar, sem sucesso, debater a questão em todas as instâncias partidárias, dei longa entrevista relatando o episódio. Eu ainda acreditava no compromisso do PT com os valores que nortearam a militância nos anos de chumbo.
Depois, Chico de Oliveira abandonou o partido que ajudara a fundar e construir. Suas análises revelam que a premonição de Bejamain se concretizou. Militantes políticos e sindicais abandonaram seus compromissos históricos e se transformaram em gestores e reprodutores do capital.
Desde quarta-feira, 18 de maio, apesar do bom tempo, governo e PT vivem a ressaca de uma fracassada mega-operação para abafar a CPI dos Correios com farta distribuição de cargos e recursos públicos.
Sábado, 28 de maio, acaba de ser publicada a Carta de Campinas, subscrita por um time eclético, majoritariamente oriundo do PT, que mostra a consciente política de manutenção da obra tucana.
Esses são apenas alguns dos infindáveis sinais que só precisam de óculos adequados para vê-los.
O tempo mudou. Faz tempo.
*Diretor de redação do Jornal CONTATO de Taubaté www.jornalcontato.com.br
O mesmo acontece com a política. Todos os dias são emitidos sinais que não podem ser captados pelos mais sofisticados equipamentos eletrônicos. Como dizia frei Betto, tudo vai depender dos óculos de quem os lê. E só não vê quem não quer.
Ricardo Kotscho, brilhante e respeitado jornalista, confessou publicamente que não percebeu a mudança do clima político no Brasil ("O vento virou e eu não percebi", 24 maio 2005). Desinformado ele nunca foi. Até recentemente, viveu nos bastidores do poder. Partilhou de informações que os pobres mortais talvez nunca saibam. Sobrevoou nuvens carregadas e céus de brigadeiro. Com certeza, tal qual um frade, ouviu confidências que permanecerão guardadas sob sete chaves.
O mesmo Kotscho confessa que há pouco tempo escreveu sobre os bons tempos que talvez julgasse ser extensivo senão para todos pelo menos para aqueles que acreditavam no governo Lula. Era o caso dos velhos amigos reunidos na casa do escritor Fernando Morais. Foi "um baita astral, um pessoal de bem com a vida". A festa era uma homenagem ao ditador Fidel Castro ou de desagravo ao ministro José Dirceu por ocasião da revelação do escândalo Waldomiro Diniz, seu braço direito? Até onde se sabe, foram as mesmas pessoas que participaram desses dois jantares. Nem mesmo as "toneladas de críticas" que recebeu foram suficientes para alertá-lo sobre a mudança do tempo.
Faz tempo que o tempo mudou. Os jornais disponíveis na internet são esclarecedores. A carta de desfiliação do PT de César Queiroz Benjamin, por exemplo, foi publicada na página 3 da Folha, em 23 de agosto de 1995. A gota d'água para Benjamin, que hoje assessora o MST, foi a contribuição de uma conhecida empreiteira baiana para a campanha presidencial de Lula, em 1994. Os recursos teriam entrado através da campanha de José Dirceu, candidato a governador, em quem Benjamin ainda confiava (não sei se ainda confia). Confira: "Dirceu é inocente, mas não o sistema de poder que governa o PT, aliás com apoio das bases. Boa parte do que resta delas está cooptada. Grandes ambições articulam pequenas ambições, grandes chefes têm sob si chefes menores, empregos mais altos geram empregos para quem está embaixo".
Na mesma ocasião, eu guardava um segredo só confidenciado a Lula. Roberto Teixeira, compadre e amigo da principal liderança do PT, estava envolvido diretamente com malversação de recursos públicos na prefeitura de São José dos Campos. A descoberta só foi possível porque, em 1993, eu era secretário das finanças. Em 1997, após 4 anos de silêncio cúmplice e tentar, sem sucesso, debater a questão em todas as instâncias partidárias, dei longa entrevista relatando o episódio. Eu ainda acreditava no compromisso do PT com os valores que nortearam a militância nos anos de chumbo.
Depois, Chico de Oliveira abandonou o partido que ajudara a fundar e construir. Suas análises revelam que a premonição de Bejamain se concretizou. Militantes políticos e sindicais abandonaram seus compromissos históricos e se transformaram em gestores e reprodutores do capital.
Desde quarta-feira, 18 de maio, apesar do bom tempo, governo e PT vivem a ressaca de uma fracassada mega-operação para abafar a CPI dos Correios com farta distribuição de cargos e recursos públicos.
Sábado, 28 de maio, acaba de ser publicada a Carta de Campinas, subscrita por um time eclético, majoritariamente oriundo do PT, que mostra a consciente política de manutenção da obra tucana.
Esses são apenas alguns dos infindáveis sinais que só precisam de óculos adequados para vê-los.
O tempo mudou. Faz tempo.
*Diretor de redação do Jornal CONTATO de Taubaté www.jornalcontato.com.br






