Fala que eu não te escuto

Fala que eu não te escuto

Atualizado em 27/07/2010 às 14:07, por Lucia Faria.

Tenho o péssimo hábito de perguntar se o outro vai bem. E, ao voltar para casa, trago na bagagem um monte de histórias que vieram acompanhadas com a resposta. As pessoas contam seus dramas e casos, relatam amores e descompassos, relembram o passado. Manicure, então, é o meu público-alvo. Elas raramente sabem algo a meu respeito. Eu vou cutucando, pois o que mais gosto é saber a história do outro (não, fofoqueira é outra coisa).

Saber escutar é um grande mérito. Jornalistas têm de ouvir seus entrevistados, dar chances para que eles contem sua versão. Trabalhei com uma repórter excelente que me fazia sentir dó dos seus entrevistados. Pelo telefone, ela espremia as pessoas sem piedade, como cabe aos grandes profissionais da área. Cumpria com excelência a sua função, seguia o faro, mas eu tinha impressão de que não ouvia o interlocutor. Tinha uma tese desde o princípio da conversa e queria escutar somente o que se encaixasse no seu argumento inicial.

Na área corporativa também há quem se faça de mouco para não ouvir os clientes. Eles nos dão sinais de insatisfação, emitem sons que muitas vezes fingimos não ouvir. E essa é a pior solução, pois não ouvir significa não consertar rotas. Ao invés do confronto, é preciso investir na solução.

Por ironia, enquanto escrevo este artigo, descubro que algumas pessoas também não me ouviram hoje. Mais do que isso: não refletiram sobre uma mensagem enviada. Fazer o que? O jeito é respirar fundo e repetir tudo de novo. Desistir, jamais.