"Faculdade não sabe quais jornalistas quer formar", diz editora de Treinamento da "Folha"

Em março, IMPRENSA discutiu o curso de jornalismo no Brasil. Em meio ao debate de revisão das diretrizes curriculares - em pauta desde 2009,e ainda sem previsão de conclusão -, reunimos jornalistas, especialistas e coordenadores de alguns dos maiores programas de treinamento do país para tentar responder a duas questões: que curso será construído para as próximas gerações?

Atualizado em 04/03/2013 às 16:03, por Guilherme Sardas e Jéssica Oliveira*.

Quem são os jornalistas recém-formados atualmente?

No debate, temas como a qualidade do estudante que chega às redações e suas principais qualidades e carências, a especificidade do jornalismo em relação à comunicação social, a atualização digital, a dinâmica ideal entre teoria e prática, a regionalização do ensino, entre outros. A matéria completa pode ser lida na edição 287 de IMPRENSA.

De hoje até sexta, publicaremos as entrevistas com os responsáveis pelos programas de treinamento dos jornais Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, O Povo e da TV Globo.
Alessandra Balles, editora-interina de Treinamento da Folha, afirmou que para ela a maior deficiência das faculdades de jornalismo "é não incitar os alunos a escrever todos os dias". "Mais uma vez, é preciso treinar clareza, concisão, agilidade, mostrar o texto para outro colega para que ele comente, critique, aponte caminhos. E incentivar a leitura, em todas as áreas, de agricultura a cinema, de política a literatura", afirmou.
Confira abaixo a entrevista completa. Trainee da turma 26, Alessandra é formada em jornalismo pela Cásper Líbero, cursou também ciências sociais na USP.

Crédito:Reprodução Para o jornal, faculdades falham ao não deixar o aluno praticar o jornalismo
IMPRENSA - A partir das dúvidas, comentários e experiências que os selecionados do curso apresentam, a grade curricular das faculdades condiz com o mercado que eles encontram hoje? Por quê? Folha - Uma das coisas que mais ouvimos é: "Aprendi mais aqui [no programa de treinamento da Folha] em quatro meses do que em quatro anos de faculdade". Isso mostra que os próprios estudantes percebem a deficiência em sua formação. A percepção é que as faculdades não formam alunos nem com bagagem cultural/teórica, nem com experiência prática. A impressão é que a grade curricular fica num limbo entre essas duas frentes, e o maior prejudicado é o jornalista recém-formado, que encontra um mercado cada vez mais competitivo e exigente. Outra deficiência é a falta de jornais-laboratório (impresso, online, em rádio ou TV) importantes nas faculdades, que reproduzissem as exigências reais das empresas jornalísticas. As grades curriculares das faculdades estão longe do que o mercado exige, seja em inovação tecnológica, seja em conhecimento.

Você enxerga algum tipo de mudança nas faculdades? Ou ainda há certa resistência em ‘acompanhar’ o mercado? A grade curricular deveria ser revista ano a ano, mas, em geral, não é o que se vê. E acompanhar o mercado não é apenas perceber, por exemplo, a necessidade de formar alguém para trabalhar em internet. Acompanhar o mercado é saber que as empresas jornalísticas precisam cada vez mais de profissionais capazes de atuar em várias plataformas, mas que tenham bagagem cultural para a produção de textos analíticos e aprofundados, ágil etc.

As disciplinas são focadas para formar jornalista ‘de redação’? O que poderia mudar? O profissional de comunicação corporativa ou assessoria de imprensa é melhor se já passou antes por redação. Assim, não cometeria erros básicos como ligar para atualizar o mailing no horário de fechamento, mandar um e-mail coletivo oferecendo algo "exclusivo" ou vendendo uma pauta que saiu recentemente naquele veículo ou no seu concorrente direto. Isso mostra total despreparo. As faculdades deveriam ter disciplinas específicas para assessoria e comunicação corporativa, explicando a importância da imagem do seu cliente e da relação saudável com a imprensa.

Como você vê o nível geral de preparo dos universitários que chegam ao curso? Quais suas maiores deficiências e/ou dificuldades? E as maiores potencialidades? Para o programa de treinamento da Folha , são selecionados não apenas formados em jornalismo. E o que se vê, em geral, é que estudantes que concluíram outras graduações, como história ou direito, têm uma formação teórica melhor. A maior dificuldade é a de ter boas pautas. É uma geração acostumada a encontrar muita coisa pronta na internet, não habituada a abrir olhos e ouvidos para a vida real. Outra deficiência é a falta de capacidade de improvisar. Ouvir um "não encontrei nenhum personagem no Facebook" me deixa decepcionada. Vá para a rua, fale com pessoas, não fique na frente do computador esperando uma resposta. Também acho que os estudantes escrevem pouco na faculdade.
Um estudante de jornalismo deveria escrever pelo menos um texto por dia, treinar clareza, concisão, agilidade. Não importa se depois ele vai trabalhar em jornal impresso, TV ou assessoria. As escolas também deveriam cobrar leituras mensais, é o famoso "só se aprende a escrever bem lendo". De pontos positivos vejo que os profissionais que saem das faculdades de jornalismo estão mais por dentro de como é a realidade da profissão, sem glamour, com longas jornadas, plantões. Então estão mais preparados para enfrentar o cotidiano dessa profissão. E quem sai da faculdade de jornalismo já teve o treinamento técnico em relação ao texto jornalístico, que tem suas peculiaridades. Já sabe a importância do lead, o que deve vir antes etc.
Há uma reclamação quase constante de que os focas chegam crus à redação. Mas se o intuito da faculdade é formar um profissional, o que pode estar acontecendo no curso? Parte das faculdades não oferece oportunidades para que o estudante amplie de forma substancial sua bagagem cultural, não tem simulações do que o mercado exige (com jornal-laboratório, textos diários, reuniões), não sabe que tipo de profissional quer formar. O estudante, por sua vez, se acomoda muitas vezes com esta situação e pensa algo na linha "depois eu aprendo na prática". Não desenvolve o principal papel da imprensa, que é o de fiscalizar, não ensina formas diferentes e criativas de contar uma história. Há exigência de estar cursando a faculdade de jornalismo? A Folha acredita na importância do diploma? Para o programa de treinamento da Folha , não há exigência de estar cursando ou ser formado em jornalismo. Como a Folha já publicou em editorial: "capacidade crítica, espírito de contestação e independência não são privilégios dos formados em jornalismo".
Com supervisão de Guilherme Sardas *