Fábula de morte da velha notícia

Fábula de morte da velha notícia

Atualizado em 13/03/2009 às 09:03, por Igor Ribeiro.

Ao saber, em meados dos anos 1970, que herdaria o principal negócio de sua família - o poderoso conglomerado de mídia nacional NewsInc - o senhor Sal A. Frario ficou reluzente. Em franca expansão pelo país após o amadurecimento do jornalismo investigativo e a divulgação de grandes escândalos políticos, o negócio noticioso era uma promessa garantida de altos lucros. Sr. Frario - ou "Salafra", como ficou conhecido no meio - quase foi preterido pelo irmão mais velho, diretor geral das empresas radiofônicas. Falou mais alto a experiência do caçula como diretor comercial do mais importante título do grupo, o jornal Novos Tempos , que quase duplicou assinaturas e venda em bancas baseado em promoções de aquisição de enciclopédias e, assim, agitou a monótona receita publicitária do veículo.

Salafra foi pioneiro dos grandes milagres tecnológicos que dominaram as telecomunicações. Foi o primeiro de seu país a realizar transmissão de som e imagem via satélite e a utilizar o videotape. O investimento em novas tecnologias propiciou cortes cada vez maiores na escala de produção sem depreciar a essência dos produtos, além da requalificação do quadro de funcionários por meio da contratação de profissionais cada vez mais novos e menos onerosos.

A NewsInc floresceu entre as delícias do livre mercado. Acompanhado do bom momento econômico do início dos anos 1990, Salafra prosperou, atingindo por TV ou rádio a totalidade do país em pouco mais de dez anos depois de chegar à presidência. Em meados daquela década o grupo entrou na internet, uma nova mídia de potencial revolucionário.

A world wide web, que hipnotizava todos os novos jornalistas, não conquistava a velha guarda, que achava aquilo coisa de cientista louco. O próprio Salafra teve de ser convencido de sua importância para fazer investimentos na internet - mais como uma forma de não perder para a concorrência do que pelo entusiasmo em si.

O NewsInc, assim como todo o mercado, passou por altos e baixos no ramo até crescer a demanda e, só então, começar a entender melhor o funcionamento do mundo digital. Novos produtos e serviços foram criados, e o promissor progresso digital começou a acontecer.

Paralelamente, os produtores de conteúdo e notícia independente também se alastraram. Inicialmente, sem trazer grande perigo, mas uma década depois, a chamada "mídia social" transformou a internet. Junto aos grandes conglomerados, os milhares de internauta criadores e disseminadores de conteúdo fizeram da rede de computadores uma gigantesca troca dinâmica de informação. Todos estavam felizes.

O problema começou quando, por volta de 2005, a massa crítica de conteúdo jornalístico reproduzido por fontes amadoras na internet começou a ameaçar o domínio dos grandes grupos de mídia. O conteúdo fornecido pelas mídias sociais, gratuito, pautou a preferência do consumidor, que parou de assinar jornais, comprar revistas e ver TV. O faturamento dos grupos de mídia começou a cair e, em poucos anos, a publicidade passou a procurar formas alternativas e mais baratas de divulgar seus produtos.

Ao perceber que suas próprias empresas jornalísticas pautavam muitas das notícias disponibilizadas e reproduzidas por internautas gratuitamente, Salafra começou a ter calafrios. Os grandes jornais e editoras começaram a sentir o que acontecera anos antes com a indústria fonográfica: a concorrência com o MP3 e outras formas mais baratas de aquisição de música, que proclamaram a queda vertiginosa das vendas e quase ruiu o mercado. A informação, assim como a cultura, estava virando um bem de livre consumo e não mais uma mercadoria.

Para piorar a situação, na virada da década, uma crise financeira internacional balançou todo o mundo capitalista. O mercado encarou no espelho sua própria fragilidade e, aos moldes do que acontecera em 1929, fez muitos executivos repensarem na vida. Falências, demissões, quedas de juros e controle estatal tentaram equilibrar a economia. Infelizmente, o modelo de negócios baseado em especulação e lucro estava corroído em suas bases e nenhuma resposta pareceu o suficiente. O cidadão comum, desacreditado com o rumo das coisas, passou a cortar tudo que era supérfluo. O mundo da NewsInc e seus concorrentes também começou a ruir, já que versões similares de serviços e produtos que proviam eram possíveis de ser encontrados mais baratos ou gratuitos na internet. Salafra começou a arrancar os cabelos.

As notícias produzidas para a internet tinham, na média, conteúdos piores do que os fornecidos pelas velhas mídias. Os repórteres "digitais" apuravam quase tudo à distância, sem olhar presencial, e com base na extração de textos e pautas da mídia tradicional. Em compensação, eram mais segmentados, práticos de serem vistos e consultados, ecologicamente mais corretos, sem falar no baixo custo e em inúmeras outras vantagens. Todas as alternativas que as velhas empresas de jornalismo buscassem para obter retorno de anunciantes e vendas eram logo superadas por alguma novidade mais democrática do universo digital.

Em 2015, Salafra, seus concorrentes e o governo sentaram à mesa pela primeira vez para tentar resolver parte dos problemas. Primeiramente, a questão qualitativa: como continuar a produzir reportagens com texto e apuração decentes, permitindo observar os diversos lados da notícia e sem ferir a liberdade de imprensa? Depois, a sobrevivência: como viabilizar essa produção e, nas entrelinhas, garantir o ganha-pão de jornalistas, razão de ser dessas empresas?

Na reunião, houve um racha. Um grupo, incluindo a NewsInc, optou por garantir seus lucros e tentar filtrar ainda mais o acesso a informações. Decidiram apertar o acesso aos conteúdos on-line e voltar a investir em promoções. Organizaram-se numa associação, a Empresas pela Garantia da Ordem (EGO).

O segundo grupo, no entanto, preferiu rever suas expectativas de lucro e vencimentos. Decidiu, com apoio do governo, transformar suas empresas em fundações, que conseguissem trabalhar com reportagens que mantivessem os ideais do antigo jornalismo, mas completamente adaptadas às novas realidades digitais, com conteúdo acessível de forma democrática, revendo drasticamente as expectativas de lucro do alto escalão e mantendo-se por meio de doações anônimas e facilidades tributárias. Essas empresas fizeram outra associação, a Frente de Ação pelo Conteúdo e Informação Livres (FACIL).

À presidência da EGO, o senhor Sal A. Frario conseguiu manter-se e reconquistar fatias do mercado, enquanto as fundações reunidas na FACIL ainda claudicavam e dependiam fundamentalmente da ação do governo. O problema ocorreu quando, apesar dos cercos e garantias quanto à exclusividade de informação, os números das empresas pertencentes ao EGO, ainda dependentes da venda direta de informação e do mercado de notícia, voltaram a cair.

Em 2020, no entanto, as fundações reunidas pelo grupo FACIL finalmente começaram a indicar autonomia. Após três anos complicados, quando investimentos oficiais ainda eram uma necessidade e a adaptação ao novo sistema estava em andamento, essas instituições encontraram o rumo e iniciaram sua ascensão. O ameaçador clima de anarquia dos primeiros meses deu lugar ao bom senso e à cooperação generalizada, que trouxe diversidade e comprometimento de centenas de funcionários, muitos deles recontratados poucos anos após a traumática crise financeira de 2009. As atividades e serviços prestados pelas instituições da FACIL conquistaram o público e, assim, traouxeram empresas privadas como colaboradoras em patrocínio e apoio. Ninguém voltou a acumular salários astronômicos, mas todos dividiram boas receitas e lucros. O jornalismo independente e as mídias sociais continuaram prosperando paralelamente e se complementaram com as pautas bem apuradas e executadas pelas fundações de notícia.

As empresas da EGO não conseguiram progredir, muito menos concorrendo com os grupos de mídia livre. A maioria abriu falência e uma parte menor tentou recomeçar como fundação. Durante a derrocada final do velho jornalismo, não faltaram escândalos. Sal A. Frario, por exemplo, foi preso no aeroporto, enquanto tentava fugir para um país tropical. Carregava em duas malas uma quantia razoável de dinheiro conseguido por meio de uma venda fraudulenta do patrimônio da NewsInc. Apesar dos milhares funcionários quebrados e de suas famílias jogadas à pobreza, a consciência de Salafra permanecia leve, certo de que defendia uma propriedade de direito. De pesada mesmo, só a bagagem.


Obs .: este conto foi livremente inspirado na matéria "The Death of the News", de Gary Kamiya para a revista eletrônica Salon, com .