Fabiana Moraes, repórter do Jornal do Commercio
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| Fabiana Moraes |
"Uma história que aconteceu comigo recentemente foi quando estava produzindo um caderno sobre a questão racial no país por ocasião do centenário de Joaquim Nabuco. Uma das personagens da reportagem era Emanuela de Paula, uma modelo negra nascida aqui em Pernambuco, muito famosa, umas das modelos negras mais famosas do mundo. Já foi capa da Forbes, onde ela apareceu como a 11º modelo mais bem paga em todo o mundo. Ela nasceu em Cabo de Santo Agostinho. E eu nunca conseguia falar com a Emanuela porque ela está sempre em viagem, em trânsito. Um dia ela estava em Nova York, outro dia no Caribe, outro dia em outro lugar. Até por e-mail era complicado. Ela não me dava uma entrevista porque simplesmente não tinha tempo para falar comigo. E o prazo da minha matéria estava se extinguindo e eu sem falar com a Emanuela. Ela era um personagem importante da minha matéria tanto por ser negra quanto por ser uma história de sucesso profissional. Então eu resolvi ir à casa da família dela no Cabo. Vi todos os álbuns de fotografia, conversei com o pai, conversei com a mãe, com a tia, com a avó, com os vizinhos. E eu aproveitei que uma colega minha ia a São Paulo Fashion Week e pedi que ela falasse com a Emanuella. Ela conversou com ela cinco minutos. Mas eu não a entrevistei. Fiz um perfil dela, mesmo sem entrevistá-la. Com esse tipo de informação do contexto da personagem, cercando de dados sobre ela com pessoas próximas delas, você consegue fazer um perfil, uma reportagem sobre a pessoa.
Uma situação anterior, mas semelhante, aconteceu quando eu estava fazendo o epílogo do livro baseado na série de reportagens 'Os Sertões', quando tentei entrevistar um padre que havia sido afastado da Igreja por conta de sua participação na construção irregular de Santuário dedicado à Santa Terezinha, cujo custo da obra está avaliado em 1 milhão de reais. Eu o entrevistei para minha matéria sobre o assunto na série do jornal, mas quando fui escrever o epílogo do livro, que conta como todos os personagens da série estão vivendo atualmente, o padre não quis falar comigo. Tentei por todos os meios, deixei recados telefônicos, falei com o bispo local, mas o padre se recusou a falar. Então, recorri novamente ao método de conversar com pessoas próximas a ele para obter as informações de que eu precisava."
