“Existe uma cobertura muito enviesada”, diz o correspondente Samy Adghirni sobre o Irã

Após três anos atuando como correspondente estrangeiro no Irã, Samy Adghirni lança o livro "Os Iranianos"

Atualizado em 07/08/2014 às 14:08, por Gabriela Ferigato.

O mesmo país que condena homossexuais e traficantes à morte, incentiva e financia operações de troca de sexo e possui um dos mais avançados tratamentos para aliciados do mundo. Pode-se afirmar que o Irã é repleto de contradições, onde muitas vezes o lado negativo predomina no noticiário. Primeiro correspondente brasileiro na região, o jornalista Samy Adghirni, da Folha de S.Paulo , afirma que o país é tratado de maneira rasa e superficial na mídia.
Crédito:Divulgação O jornalista Samy Adghirni foi o primeiro correspondente brasileiro no Irã Justamente por esse motivo, e ao notar que o Brasil e o Irã estavam se aproximando cada vez mais, Adghirni “cavou” sua ida a Teerã. “Existe uma cobertura muito pobre e enviesada por não entender a complexidade das coisas. O programa nuclear, por exemplo, é algo mais complexo do que simplesmente ‘o Irã quer fabricar a bomba atômica e isso é um perigo para o mundo’. Só uma perspectiva de quem está dentro pode ajudar o leitor brasileiro a entender”, afirma o jornalista.
Fruto dessa experiência e encerrando o ciclo como correspondente na região, ele lança o livro “Os Iranianos” (Editora Contexto) que, além de abordar a história e costumes locais, ajuda a desmitificar alguns conceitos. Segundo ele, o maior mito é pensar em um país hostil, retrógrado e atrasado. Crédito:Divulgação Obra retrata experiências do jornalista no Irâ
“Qualquer pessoa que vá para o Irã sabe o quanto eles são hospitaleiros e acolhedores, de forma até constrangedora para os nossos padrões. É uma população bastante sofisticada, com altos níveis de instrução, com destaque para o ensino universitário”, afirma.
Outro mito é sobre a condição da mulher. Apesar de “realmente deixar a desejar nessa questão”, Adghirni afirma que levando em conta a perspectiva regional, inclusive de boa parte da Ásia, a situação é muito mais avançada do que se pensa. No Irã elas têm participação nos negócios, na academia, na cultura e nos esportes.
“Quando Saddam Hussein invadiu o Irã a pedido dos ocidentais houve uma mobilização geral dos homens. Enquanto iam à luta, as mulheres ficaram sozinhas na cidade e assumiram muitas coisas, como comércio e hospitais – dando protagonismo a elas. Hoje a taxa de natalidade no país é muito baixa, o que significa que o papel da mulher no Irã foi dissociado ao da reprodutora”, completa.
Além disso, as iranianas podem se dirigir aos homens sem que estes sejam marido ou parentes. Porém, para o jornalista, o grande problema que a mulher enfrenta é a lei, que continua muito desfavorável. “A legislação obriga a mulher a cobrir o cabelo com o véu. Seu testemunho vale menos no Tribunal e, além disso, a lei é desfavorável com elas em questões de herança”.
As maiores complicações sobre a prática do jornalismo no Irã, segundo o correspondente, é de ordem logística e burocrática, como o mau funcionamento da internet e a necessidade de permissão para qualquer pauta que envolva o governo.
“Há também pressão das autoridades e assuntos que devem ser tratados com muita cautela, como as minorias étnicas. A diferença do Irã em relação a ditaduras clássicas, como Síria e China, é que lá a conta vem depois. Com o visto de correspondente estrangeiro, você pode fazer o que quiser, mas depois assume as consequências. Já levei puxões de orelha por matérias que fiz, mas sempre muito sutil”.
Exceção a isso, foi a detenção de Jason Rezaian, correspondente em Teerã do The Washington Post , de sua esposa, correspondente de um jornal do Emirados Árabes Unidos e de uma fotógrafa iraniana, sem que tenham sido divulgados os motivos da detenção. “Por mais que a gente jogue luz para outras coisas que o Irã faz, isso é o pior que pode acontecer. É algo bárbaro”.