Existe ou não um membro da Al Qaeda no Brasil?
Existe ou não um membro da Al Qaeda no Brasil?
Na semana passada, o leitor da Folha de S.Paulo ficou com os cabelos em pé ao ler a . No dia 26/05, o articulista garantiu, sem qualquer "condicional", que estava preso "no Brasil, sob sigilo rigoroso, um integrante da alta hierarquia da Al Qaeda". O texto, embora não citasse o nome do libanês detido, classificava o homem como "terrorista", envolvido em "operações de âmbito internacional", ligadas ao "setor de comunicações internacionais da Al Qaeda".
Óbvio que o alerta vermelho soou não só na redação da Folha , mas de todos os outros jornais de grande circulação. Um membro do alto escalão da Al Qaeda no Brasil? Isso é uma grande - e preocupante, diga-se- notícia.
Qual não foi a surpresa do leitor, então, no dia seguinte, 27/05, quando a Folha trouxe uma matéria, de título " ", na qual dizia que "a procuradora federal Ana Letícia Absy informou que as investigações 'não comprovaram que o preso em São Paulo é membro da Al Qaeda'". E mais: apurou-se que o libanês já havia sido solto após 21 dias encarcerado, e que o motivo da prisão nada teria a ver com a Al Qaeda, mas com "uso da internet para propagação de conteúdo racista".
Ou seja, em razão de comentários anti-americanos, em um fórum fechado na internet, o FBI achou por bem investigar o libanês, contando com o auxílio da Polícia Federal (PF), na batizada "Operação Imperador". Vocês, internautas, quantas e quantas vezes não se depararam na rede com blogs, sites, comunidades e afins que falavam mal de alguma coisa? São, só no Orkut, site de relacionamentos mais usado no Brasil, milhares de comunidades que "odeiam" alguma coisa... enfim...
A PF, em nota, confirmou que a causa da prisão foi a SUPOSTA, repito, SUPOSTA "propagação de mensagens com conteúdo racista pela internet. O estrangeiro foi indiciado no artigo 20, parágrafo segundo, da Lei 7.716/89 (crime de racismo). A PF não se manifestará sobre a investigação, que corre sob segredo de Justiça".
Identificado na matéria como K., o texto explicou que o libanês tem visto brasileiro permanente por ser casado com uma brasileira e pai de uma criança brasileira. Logo que foi preso, o advogado de defesa de K., Mehry Daychoum, impetrou habeas corpus , que foi negado. Na decisão, o desembargador Baptista Pereira, do Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, afirmou que as investigações da PF vinculavam o fórum do qual K. fazia parte a "grupos como Al Qaeda". Hum... ta aí, o estopim da confusão... uma citação genérica, em uma decisão judicial.
À Folha , o advogado de K. disse que houve uma grande confusão por parte da PF. "O meu cliente não tem qualquer vínculo com qualquer organização paramilitar ou terrorista", disse. "Ele [cliente] cometeu a infelicidade de emitir comentários na internet, jamais imaginando que isso pudesse ser crime no Brasil", disse. Segundo seu advogado, K. "mora nos fundos de uma casa", tem um pequeno comércio e conserta aparelhos de informática.
O libanês foi solto pela Justiça porque já havia dado tempo de as autoridades internacionais se manifestarem - o que não aconteceu - e não era possível manter a prisão para sustentar investigações estrangeiras.
Já em 28/05, Janio de Freitas retoma o assunto , dessa vez mais comedido, questionando o motivo de tanto segredo envolvendo o caso de K., se comparado a casos semelhantes ocorridos no Paraná. Ali, o colunista usava o termo "suspeito de integrar a Al Qaeda". Da afirmação à suposição.
Depois de alguns dias de silêncio, o caso volta às páginas do jornal (02/06), quando Janio, agora batizando o libanês Khaled Ali, trata do desencontro das informações repassadas pela Polícia Federal e pelo Poder Judiciário. Desencontro de data da prisão, da soltura, de alegações.
O fato é que a afirmação feita em 26/05, de que estava "preso um integrante da alta hieraquia da Al Qaeda" não foi retratada, ainda que a Ali já esteja em liberdade e que tal ligação não tenha sido comprovada pela investigação. Isso era o mínimo que se podia esperar de um jornal da importância da Folha de S.Paulo , já que o que parecia ser um grande furo, dá ares de enorme barriga.
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