Exclusivo: leia na íntegra entrevista com Cristina Moretti, esposa de Ivandel Godinho

Exclusivo: leia na íntegra entrevista com Cristina Moretti, esposa de Ivandel Godinho

Atualizado em 05/01/2005 às 12:01, por Pedro Venceslau e Thaís Naldoni.

"O secretário de segurança não dá a mínima para o caso"

IMPRENSA: Como tem sido sua vida depois do sequestro?
Kiki: Até nas guerras, você sabe se seu marido morreu ou não morreu. O que eu vou dizer para meus filhos? Não dá para ficar deste jeito. Enquanto não tivermos uma resposta, uma solução - ou vivo ou morto - a gente não pode pensar em outra coisa senão levar a vida para frente. Eu acho que é isso que o Ivandel esperaria de mim.

IMPRENSA: Algumas pessoas dizem ter visto alguém parecido com o Ivandel perambulando sem memória pelo interior de São Paulo. Você acredita que ele ainda esteja vivo?
Kiki: Nós imprimimos 15 mil folhetos para mandar para todos os hospitais e Prefeituras do interior de São Paulo. Por isso, muitos que viram este material disseram ter visto pessoas parecidas com o Ivandel. Mas ninguém acredita mais que o Ivandel esteja sequestrado. Alguma coisa aconteceu que eles não o devolveram. A única coisa que eu exijo da polícia é que desvende isso. É inadmissível que não haja nenhum caminho, nenhuma pista, nada. Este é um grande mistério. O Ivandel não foi abduzido! Ele foi levado por uma pessoa que falou comigo durante quase três meses. Eu exijo uma solução, não posso ficar com a vida em suspenso.

IMPRENSA: Como você se sente hoje em dia?
Kiki: Quando eu voltei a trabalhar, percebi que havia mudado completamente. Quem passa por um trauma como o meu, muda para pior ou para melhor, mas muda. Eu me tornei uma pessoa muito mais prática com a vida. Nada mais é problema. Quando voltei, a motivação de todo mundo, que era a da volta do Ivandel, estava começando a cair e surgiam questões como: será que a Kiki vai tocar os três escritórios? Ela vai dar conta? Ela vai querer fazer isso ou o trauma foi tão grande que ela vai esmorecer? Então, era chegado um momento importante, no qual eu tinha que mostrar para as pessoas o que eu queria fazer. Pela criação que eu tive e pelo que o Ivandel esperaria de mim, a última coisa que eu iria fazer seria sentar e chorar.

IMPRENSA - Como foi possível manter a rotina de trabalho, os clientes e a competitividade da InPress nesse período tão conturbado?
Kiki - Logo depois do sequestro, eu fiquei praticamente três meses sem trabalhar todos os dias, indo ao escritório às vezes. Além de reuniões de criação, eu cuidava da parte administrativa, financeira e entrava em momentos estratégicos, mas fiquei fora do dia-a-dia. O sequestro aconteceu no final do ano, que é um período difícil, de negociação de contratos para o ano seguinte. É a época das novas contas, das renovações... um período em que o Ivandel e eu ficávamos muito à frente. O melhor presente que recebi foi ver que, quando voltei, a equipe havia renovado todos os contratos e muito bem. Além disso, a In Press ainda havia ganho mais seis ou sete novas contas de marcas importantes. Isso realizou meu grande sonho, que é ver a empresa existindo sem mim e o Ivandel, ver que a marca é mais forte que nós. A constatação que eu tive com todo este problema foi que a In Press tem uma equipe muito mais madura do que eu imaginava. A equipe passou por uma situação emocional muito difícil, principalmente em São Paulo, onde o Ivandel comandava pessoalmente.

IMPRENSA: Qual foi a reação dos clientes? Como eles receberam a notícia do seqüestro do Ivandel?
Kiki: Não sei dizer se em algum momento eles ficaram temerosos. Eu imagino que possam ter ficado. Nem tanto pelo fato de nós estarmos ausentes, mas pelo impacto emocional que o sequestro teria na equipe. Após um tempo, os clientes passaram a falar comigo, surpresos com a maturidade da equipe, que passou por tudo isso sem deixar o problema interfirir na qualidade do serviço. Alguns clientes nem sabiam do sequestro.

IMPRENSA: Como você avalia a forma da condução do caso pela polícia e o papel do governo? Recentemente, você divulgou uma carta aberta ao governo de São Paulo, dizendo que as investigações até agora foram em vão...
Kiki: Acredito que o governo tem feito tudo o que pode. Mas, por alguma razão, este caso é diferente. É chocante o fato de você ficar mais de um ano sem saber o que está acontecendo. Eu nunca senti falta de empenho nas investigações, mas se eles usaram tudo o que tinham à disposição, eu não posso responder. Ao longo da investigação, tivemos problemas. O secretário de segurança (Saulo de Castro Abreu) não me recebeu sequer uma vez. Ele nunca deu a mínima para o caso. Eu só fui me sentar com o secretário-adjunto (Marcelo Martins de Oliveira) após o evento que marcou um ano do seqüestro, em outubro deste ano.

IMPRENSA: Com qual freqüência você recebe novas informações?
Kiki: A investigação continua e tem um grupo grande envolvido nela. Eles, inclusive, aumentaram o contingente. Mas só recebo informações quando pergunto. Não há nenhum retorno específico, não há informações toda a hora.

IMPRENSA: Você passou a andar com seguranças?
Kiki: Eu estou andando com segurança muito mais pela minha mãe do que por mim. Até que tudo seja esclarecido vou continuar com o segurança. Isso é horrível. Privaram minha liberdade. O subproduto do sequestro é pior ainda. Terapia para todo mundo, segurança, carro blindado...Você passa a viver uma vida insuportável.

IMPRENSA: Existe um debate acirrado na imprensa sobre a coerência de se divulgar ou não os casos de seqüestro. O que você acha disso?
Kiki: Enquanto o sequestro está em andamento é melhor que não se divulgue nada. Como pessoa de comunicação e vítima de seqüestro a minha teoria é essa. Pagamos o resgate e não divulgamos nada. Quarenta dias depois, a gente achou que deveria usar a mídia para ver se sensibilizava esses caras. Não adiantou muito, mas a decisão da família foi de só usar a mídia quando já tivessemos corrido todos os riscos.

IMPRENSA: Há algum culpado, além dos sequestradores, por esta fatalidade em sua família? O sistema, a sociedade, o governo?
Kiki: A culpa disso é a gente viver em um país totalmente degradado, sem valores. Não se trata apenas de uma questão de pobreza. A gente assiste hoje, não só no Brasil, mas em todo o mundo, um momento de degradação total da vida. É o fim da humanidade. Hoje, não há mais diferença se você rouba uma carteira, um relógio ou seqüestra.O sequestro para mim é uma coisa muito mais doída, porque é premeditado. O bandido não está nem aí se vão tirar uma pessoa da família, que tem quatro filhos. Se vão privar os filhos da convivência do pai. Depois de tantos apelos, essas pessoas não terem dito nada, não terem feito nada, é de uma frieza. É uma lógica totalmente diferente da nossa.

IMPRENSA: Você acha que a cobertura dos casos de seqüestro na imprensa brasileira é sensacionalista?
Kiki: A imprensa paulista é muito complacente com a violência e a do Rio exagera na cobertura ao transformar a cidade em faroeste sem lei. Eu, que moro na duas cidades, acho a violência carioca bem mais branda que a paulista. Aqui ninguém anda na rua. A imprensa do Rio é mais crua e dura. Eu fiquei assustada quando, durante o andamento do sequestro, o inspetor que trabalhava comigo me disse a média de homicídios em São Paulo por fim de semana: 80 casos. Duvido que morra tudo isso de gente no Rio de Janeiro.

IMPRENSA: Falta investimento público por parte do Governo Federal na questão da segurança?
Kiki: Acredito que falte vontade política. O Governo Federal deve intervir e ele está falhando neste combate à violência nas grandes cidades. Ele tem um papel importante que se abstém de ter e lança a responsabilidade para o governo estadual. Estou falando não só de segurança, mas de política pública porque essa insegurança toda nas cidades brasileiras pode inviabilizar o Brasil e o Governo Federal precisa entender isso.

IMPRENSA: Mudando de assunto. O jornalista de redação que vai trabalhar em assessoria tem facilidade em assimilar o novo trabalho?
Kiki: O melhor profissional na área de Assessoria de Imprensa é o que vem de redação. Para eles é muito mais fácil dar a visão de comunicação empresarial.

IMPRENSA: Quando começou a polêmica do CFJ, medalhões do jornalismo criaram polêmica ao alegarem que assessores de imprensa não são jornalistas. Qual sua opinião sobre o assunto?
Kiki: Acho uma miopia destes grandes jornalistas. Eles acham que defendemos interesses diferentes. Eu acho que não. Todo mundo defende o direito da informação.

IMPRENSA: O que o cliente busca em uma agência de comunicação? O que ele espera?
Kiki: Depende do tamanho e da visão do cliente. Os grandes entendem que volume de clipping é uma grande besteira. A comunicação é bem sucedida quando você atinge os objetivos que foram propostos.

IMPRENSA: Os jornalistas de redação entendem hoje a importância da assessoria? Como é a recepção por parte deles?
Kiki: Existe, hoje, uma parceria muito maior do que antes. A grande maioria dos jornalistas, principalmente quando se trata de uma agência grande, sabe que a assessoria pode ajudar agilizando o agendamento da entrevista, fornecendo material mais detalhado. Mas há jornalistas que acreditam que a assessoria mais atrapalha do que ajuda. Algumas assessorias devem atrapalhar mesmo.

IMPRENSA: Como convencer um cliente a contratar uma assessoria externa ao invés de montar sua estrutura própria e, com isso, reduzir custos?
Kiki: Isso depende da necessidade do cliente. Há casos em que é melhor que a empresa tenha uma assessoria interna mesmo. O melhor modelo, na minha opinião, é que exista um gerente interno e uma assessoria externa. A assessoria externa tem como vantagem não se tornar um funcionário e, assim, ter outras perspectivas para desenvolver ações e estratégias.

IMPRENSA: Se um cliente pedir para a agência negociar um espaço que ele queira em determinado veículo, como você reage?
Kiki: A In Press é muito careta em relação a isso. Eu nunca negociei nenhuma matéria paga com qualquer veículo, mesmo naqueles que notoriamente aceitam essa prática.