Exclusivo: entrevistamos Bob Woodward, o jornalista americano responsável pelo furo que derrubou o presidente Nixon
Exclusivo: entrevistamos Bob Woodward, o jornalista americano responsável pelo furo que derrubou o presidente Nixon
Na entrevista que você vai ler abaixo, concedida à IMPRENSA e aos jornalistas do World Press Institute, Woodward fala de jornalismo, Garganta Profunda e descreve George W. Bush com ironia, mas precisão jornalística, usando exemplos anedóticos da simploriedade das respostas do presidente.
Bob Woodward: (sobre Bush) "Ele é muito confiante, acredita no que faz e diz"
IMPRENSA - O senhor ficou chateado com o fato de Mark Felt ter revelado ser o Garganta Profunda a outra pessoa, sem avisá-lo?
WOODWARD - De maneira nenhuma. Fiquei surpreso, não preciso dizer, e preocupado, sem saber se tinha sido uma decisão dele mesmo ou de sua família. Me dei conta de que tudo tinha acabado quando um editor me agarrou pelo pescoço na redação e disse: "Acabou, Bob!". A gente confirmou que ele tinha falado mesmo naquele dia. Foi bom, porque acabou com muito mistério. Agora que todo mundo sabe, fica claro que era ele e que era óbvio. Foi melhor que tenha acontecido agora do que depois que ele tivesse morrido. Ele não está são, tem aquele olhar senil. Não fi quei chateado, mas preocupado. Tanto meu advogado quanto Ben Bradlee [editor do Post durante o Caso Watergate e por 26 anos, entre 1965 e 1991] disseram a mesma coisa: "É uma pessoa com uma doença mental."
IMPRENSA - Existe alguma lição de todo esse episódio?
WOODWARD - No fim das contas, fiquei satisfeito com o desfecho. É a demonstração de que você pode ter um relacionamento com uma fonte, manter sua palavra, fazer bem o seu trabalho e obter informação importante de fontes confidenciais. É um ótimo precedente e uma prova para outras fontes de que você vai manter a sua palavra.
IMPRENSA - Como o senhor se prepara para uma entrevista?
WOODWARD - Quando me preparo para uma entrevista, procuro saber exatamente o que quero, do que estou atrás, e tento deixar isso claro ao entrevistado. Quando pergunto sobre fatos, estou interessado em saber como a pessoa e os outros se sentiram naquele momento. Como e por quê. Carrego sempre dois gravadores. Não confi o em mim mesmo (risos). Quando fui entrevistar o presidente Bush para um dos livros, preparei um memorando de 21 páginas para ele e Condy [Condoleeza, secretária de Estado, chanceler] Rice. Queria saber se estava certo e ter a chance de ele me confi rmar ou não minha apuração. A recepção geral entre os colegas foi uma grande gargalhada. "Ele nunca leu nada na vida inteira", me diziam. Mas ele leu. E porque fomos em detalhe checando o memorando, pude publicar tudo em on , citando suas palavras.
IMPRENSA - O senhor poderia comentar o seu método de apuração e entrevista?
WOODWARD - Um método que uso é o de reentrevistar as pessoas várias vezes. Algumas coisas elas nunca vão nos dizer. Em geral, sabemos muito pouco do que acontece no governo. Um alto personagem me disse que depois do meu livro Plano de Ataque [sobre os bastidores as decisões da a invasão do Iraque], sabe-se mais ou menos 70% do que aconteceu no Iraque. O resto, talvez nunca saibamos. Pode ser que nunca apareça. Também ouvi o seguinte sobre o livro: "Esta é uma história do que aconteceu. Mas você faz parecer ter mais coerência do que o fato em si, na verdade".
IMPRENSA - Quais as diferenças entre o jornalismo investigativo na época do Watergate e hoje?
WOODWARD - Acho que hoje o negócio está mais impaciente. Carl Bernstein e eu trabalhávamos na história por semanas antes de publicar. Hoje, cada vez mais, gasta-se menos tempo em coisas que deveríamos gastar mais. Você precisa ter uma mistura de background information (informação dos bastidores, off ) e on the record . E isso toma tempo.
IMPRENSA - O senhor entrevistou o presidente George Bush e seus principais auxiliares diversas vezes para seus livros. Na sua opinião, ele toma suas próprias decisões ou é guiado por ministros e assessores?
WOODWARD - Estou certo de que ele toma suas próprias decisões. A resposta ao 11 de Setembro veio, em sua maior parte, de sua cabeça, foram suas as decisões. E muita gente no gabinete de Guerra da Casa Branca gostou da idéia de que tenha sido a decisão de outra pessoa. Como mostro nos livros, ele se envolve nos detalhes, como poucos, e se orgulhava de dizer que sabia cada detalhe das operações, porque ele estava em todas as reuniões importantes em que as decisões foram tomadas. No começo, estava muito inseguro, mas depois, na cabeça dele, não havia ninguém que soubesse mais de 11 de Setembro do que ele. Ele estava no centro de tudo. "Posso dizer o que eu quiser. Me envolvi, estive em todas as reuniões sobre o assunto", me disse. Mas, às vezes, falta alguém que o alerte, como no caso do furacão Katrina - um erro de Inteligência, como no 11 de Setembro. Faltou a Bush alguém em Nova Orleans, que ele teria caso o furacão fosse no Texas ou Alabama, alguém que ligasse para ele e dissesse: "George, get your ass down here!" (Vem para cá agora!)". (risos)
IMPRENSA - Como o senhor analisa o presidente Bush?
WOODWARD - Bush é muito objetivo. Dá respostas de 30, 40 segundos, vai direto ao ponto. Ele não gosta de jogar pequeno, gosta de coisas grandes, de transformações. Ele não admite seus erros, é parte de sua personalidade, mas ele aprende a partir dos erros. Saí de uma entrevista com o presidente Bush e fi quei surpreso por poder perguntar cinco vezes mais coisas que tinha planejado e estavam no memorando. Nenhum limite de tempo. No fi nal ele disse: "Se quiser voltar, volte quando quiser!". Ben Bradlee (ex-editor do Washington Post) me perguntou: "E aí, pegou ele na mentira?". Mas ele é muito confi ante, acredita no que faz e diz.
Leia entrevista completa na edição 207 de IMPRENSA (novembro de 2005)






