Ex-diretor da TV Globo lança campanha contra assédio à Folha na internet

O jornalista Alberto Luchetti, ex-diretor da TV Globo, lançou uma campanha na internet em defesa do jornal Folha de S. Paulo. Intitulada&nbs

Atualizado em 09/11/2018 às 17:11, por Marta Teixeira.

O jornalista Alberto Luchetti, ex-diretor da TV Globo, lançou uma campanha na internet em defesa do jornal Folha de S. Paulo. Intitulada #FolhaSim... pela liberdade de imprensa, a peça pode ser vista no site e nas redes sociais do canal de televisão AllTV.


"Resolvi fazer campanha a favor da Folha porque não dá para você pressionar financeiramente. O que ele está tentando fazer é sufocar financeiramente um veículo que vai completar 100 anos. Quando criei a hashtag #folhaSim foi no sentido de apoiar a Folha, nós todos, profissionais de jornalismo ou não, em função da liberdade de imprensa. A gente não pode ser sufocado com uma verba que não é dele, é pública", disse Luchetti ao Portal IMPRENSA, referindo-se à atitude do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).


Durante entrevista ao Jornal Nacional, logo após ser eleito, Bolsonaro ameaçou não dar verbas publicitárias à Folha. O jornal virou alvo depois de publicar matéria revelando um esquema de disparo de mensagens anti-PT via WhatsApp bancado por empresários, o que infringia a legislação eleitoral. Além da empresa, os jornalistas envolvidos na apuração da reportagem também passaram a ser vítima de assédio pela internet.

Crédito:Reprodução








Com um dia de mobilização na rede, Luchetti considera que a repercussão, principalmente nas mídias sociais, tem sido positiva. Quanto à postura da grande imprensa, o jornalista considera que seria bom haver uma atitude. "Acho que todos deveriam tomar uma posição em relação a isso. Hoje, a Folha está sendo vítima dessa perseguição, digamos assim, ou desta tentativa de coação, mas amanhã podem ser outros veículos. Cada um pensa e age da maneira que acha mais conveniente. Eu acho que a gente não pode se calar", acrescentou.


Para a campanha foi produzido um vídeo relembrando a importância da liberdade de imprensa para a democracia. "A Folha de S. Paulo é um jornal compromissado com a verdade. E nós sabemos que nenhuma democracia poderá ser consolidada sem o respeito às liberdades. Por isso, somos todos #FolhaSim", registra a gravação. Ao mesmo tempo, são exibidas imagens ligadas ao jornal e de momentos históricos no país.


"Vou sempre me rebelar contra atitudes autoritárias e indignas, que não correspondem à democracia, a democracia que o elegeu presidente. Se ele é presidente hoje, eleito pelo voto popular, deve à Folha, uma das que mais trabalhou nas Diretas Já. Ele deveria reverenciar a Folha e não tratá-la dessa maneira hostil como está tratando", completou Luchetti. Veterano da imprensa, ele foi diretor do Domingão do Faustão, na TV Globo, mas também trabalhou na Band, Folha, em O Estado de S. Paulo e na rádio Jovem Pan.


Por que achou necessário tomar essa iniciativa?


Acompanhando a eleição, vi as reações dele contra a Folha. Não digo que achei normal, mas palatável. Porém, quando o vi, eleito presidente, no Jornal Nacional, ameaçar a Folha, falar sobre a proibição de verbas publicitárias, eu achei que deveria condená-lo. Porque ele deixou de ser candidato, passou a ser presidente eleito. Ele virou uma instituição e, como instituição, não poderia tomar essa posição, que é uma posição de revanchismo, autoritária. Resolvi fazer campanha a favor da Folha porque não dá para você pressionar financeiramente. O que ele está tentando fazer é sufocar financeiramente um veículo que vai completar 100 anos. É um dos principais jornais do país, um jornal que lutou o tempo todo pela democratização, teve um papel importante nas Diretas Já, foi liderado por um jovem editor Otávio Frias Filho, que faleceu recentemente e é um nome reverenciado por toda a imprensa. É um veículo de comunicação que merece respeito e não uma ação de truculência. Ele pode não ter gostado de alguns artigos como qualquer candidato. A Folha não está aí para agradar ninguém. O Millôr Fernandes (cartunista e jornalista morto em 2012) já dizia: "a imprensa nasceu para ser oposição, o resto é armazém de secos e molhados". O nosso papel não é bajular. Se ele quer alguém que o bajule, que fique com a Rede Record, o bispo Edir Macedo já falou que vai bajulá-lo, ou com o Silas Malafaia, que estava do lado dele no dia da ameaça à Folha. Ele que fique com esses dois pastores contra uma imprensa livre. Essa é minha posição. Eu tenho um veículo de comunicação pequeno, na internet, mas estou fazendo o meu papel. Se cada um fizer o seu papel, do seu tamanho, a gente fica de um tamanho legal.


Considera que a imprensa está meio receosa ou omissa em relação a esse ambiente de risco à liberdade de imprensa?


Quando tomo alguma atitude, não me preocupo com a dos outros veículos. Acho que todos deveriam tomar uma posição em relação a isso. Hoje, a Folha está sendo vítima dessa perseguição, digamos assim, ou desta tentativa de coação, mas amanhã podem ser outros veículos. Cada um pensa e age da maneira que acha mais conveniente. Eu acho que a gente não pode se calar. Vou completar 45 anos de jornalismo, nunca fiquei quieto diante de nada. Quando optei por montar um veículo de comunicação na internet, foi porque achei que seria o veículo mais democrático possível, onde eu poderia falar o que quisesse. O verbo que prego sempre é transgressão com responsabilidade e espírito crítico. Só acho que têm de ficar atentos para um regime autoritário como está se desenhando, e que começou muito mal, ameaçando, no primeiro pronunciamento oficial como presidente, um órgão tradicional da imprensa. Se tem coragem, ousadia e petulância para ameaçar a Folha de S. Paulo, um jornal quase centenário, o que dirá com os outros veículos.
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Como foi a reação no primeiro dia?


Estou vendo uma reação muito boa. Não só da parte da mídia não oficial, a mídia social, que ele (Bolsonaro) mesmo apregoa ter sido responsável pela sua eleição. A repercussão na mídia social está muito maior do que na mídia tradicional. Quando tomei minha decisão, não pensei em repercussão nem no tamanho dela, mas em chamar atenção. Se os outros pensarem que devem tomar uma posição, isso terá um efeito muito grande, ou não. O importante é que eu estou tranquilo, porque eu não aceito. Vou sempre me rebelar contra atitudes autoritárias e indignas, que não correspondem com a democracia, a democracia que o elegeu presidente. Se ele é presidente hoje, eleito pelo voto popular, ele deve à Folha, uma das que mais trabalhou nas Diretas Já. Ele deveria reverenciar a Folha e não tratá-la dessa maneira hostil como está tratando.