Ex-correspondente no Irã, repórter da Newsweek vem ao Brasil e relembra sua prisão em Evin
Ex-correspondente no Irã, repórter da Newsweek vem ao Brasil e relembra sua prisão em Evin
Atualizado em 31/03/2011 às 10:03, por
Igor Ribeiro e editor executivo.
Ex-correspondente no Irã, repórter da Newsweek vem ao Brasil e relembra sua prisão em Evin
O jornalista iraniano Maziar Bahari aprendeu a dividir sua vida entre antes e depois da prisão. Afinal, o correspondente da ficou encarcerado por 118 dias em Evin, uma das cadeias mais temidas do Oriente Médio. Eram 7h do dia 21 de junho quando a casa de sua mãe, em Teerã, foi invadida por oficiais do governo, que o levaram, ainda sonolento, para a prisão, ao lado de diversos outros jornalistas e blogueiros. Quase dois anos depois do incidente, Bahari vem ao Brasil para participar do júri do festival de documentários . Diretor de mais de uma dezena de filmes do gênero, o jornalista falou ao Portal IMPRENSA, por Skype de Londres, sobre sua experiência na cadeia e sobre o momento que vivem países de tradição islâmica, tomados por manifestações populares pró-democracia.| Divulgação | |
| Maziar Bahari |
A seguir, Bahari analisa os atuais acontecimentos no Oriente Médio e Norte da África, fala de seu interesse político sobre o Brasil e também cultural, como bom fã de futebol, caipirinha, Gilberto Gil e Emílio Santiago.
Portal IMPRENSA - Qual sua expectativa de vir ao Brasil para o festival É Tudo Verdade?
Maziar Bahari - Em primeiro lugar, eu gosto muito de festivais, e o É Tudo Verdade é um dos grandes festivais do gênero no mudo, fico feliz em participar. Depois, gosto muito de tudo que tem a ver com Brasil, caipirinha, futebol, música, tudo. É um país que está ficando muito importante internacionalmente, e me interessa particularmente a questão política dos direitos humanos. Especialmente na sua relação com o Irã, que considera o Brasil um de seus poucos aliados. Até entendo porque seu país tenha se interessado, inicialmente - até para preencher algum espaço [diplomático] -, por questões iranianas como o desenvolvimento nuclear, mas creio que isso pode prejudicar o Brasil, tanto em sanções materiais, afastando investidores internacionais, mas também como uma espécie de traidor da nação iraniana... Essa onda de manifestações a favor da democracia começou no Irã há dois anos. Portanto, o Brasil deveria ficar do lado certo da história, não só porque é a coisa certa a se fazer, mas também porque compensa material, financeira e comercialmente para o país.
Portal IMPRENSA - Acha que o fato de uma pessoa com um passado de intensa luta contra a ditadura como a atual presidente pode mudar a postura do país nessa questão?
Bahari - É uma questão difícil de se responder, porque quando você está na oposição, é um ativista e é jovem, você pensa diferente de quando está no governo. Muitos ativistas de direitos humanos iranianos e oposição esperavam muito do Lula, pois ele era um sindicalista, que lutava pelo direito dos trabalhadores, por democracia, por liberddade... Mas ele abraçou Ahmadinejad, o chamou de amigo, não falou nada sobre o abuso de autoridade no Irã, das prisões políticas... Tudo contra o que o Lula se colocava antes de ser presidente. Então as pessoas têm de diminuir suas expectativas e acreditar que a presidente do Brasil vai ser, antes, presidente do Brasil, e não a ativista que era, a feminista que era, assim por diante. Mas ela deveria ficar do lado certo da história e levar em consideração os direitos humanos no Irã, pois vai haver uma mudança muito em breve no país. Até acontecer essa mudanca, ela deveria entender que o Irã não é um parceiro confiável, eonomicamente, politicamente, nada. Dilma Rousseff deveria relembra de suas raízes como ativista dos direitos humanos, mesmo que ela seja hoje a presidente e não mais a oposição.
Portal IMPRENSA - Quando você fala em estar do lado certo da história, parece bem confiante de que essas mudanças no Oriente Médio são inadiáveis. O que faltou para o Irã, em 2009 e agora, para fazer sua mudança, sua revolução?
Bahari - Acho que a principal diferença para outros países é que o Irã teve sua revolução há 33 anos. E a revolução ainda está na memória coletiva do povo iraniano, mesmo que muitos cidadãos de hoje tenham nascido depois dela. E essa é uma memória coletiva ruim sobre revoluções... É por isso que o povo está procrastinando tanto, esperando suas opções antes de tomar ações drásticas. No Egito ou na Líbia, a lembrança de mudanças assim são muito mais históricas do que no Irã, onde é mais fresca.
Outra diferença é que o Irã é um país com um governo independente. Tirânico, mas independente. Na Tunísia ou no Egito, por exemplo, as ditaduras não eram independentes, mas tinham governos apoiados por estrangeiros, o que deu mais motivo para as populações se manifestarem. Outra coisa é que Ahmadinejad tem "aparado" sua imagem e ele não se tornou, como nos outros casos, um ditador corrupto. O governo em volta dele muitas vezes é, mas não ele, e as pessoas que apoiam o presidente o veem como um mestre da honestidade. Muitas pessoas morreriam por ele. Junto a uma combinação de muitos outros fatores, foi por isso ele conseguiu suprimir a maior parte das manifestações. Não todas, tem gente que não apoia, e toda pessoa que tem a oportunidade, como agora, vai para as ruas cantar.
Portal IMPRENSA - Quando você foi preso, chegou a pensar em si mesmo como um dos personagens de seus filmes, especialmente "Targets: Reporters in Iraq" [sobre jornalistas que vivem altas cargas de estresse durante coberturas de risco]?
Bahari - É uma situação estranha, porque eu não devria estar respondendo às suas perguntas. Como um jornalista, no mundo ideal, eu deveria estar fazendo perguntas. Mas me tornei uma pessoa a quem se está fazendo as perguntas. Eu deveria reportar as histórias, mas eu me tornei a história. Nao é uma situação confortável para se estar, mas uma vez que eles me prenderam, me colocaram num tribunal e me forçaram a fazer confissões falsas, eles me tornaram uma figura pública. Logo, agora tenho a responsabilidade de falar sobre a atrocidade do regime, sobre as outras pessoas dentro das prisões iranianas, nao perder a oportunidade de dar a eles o apoio internacional que eu tive. Eu tenho de ser a voz de muitas pessoas mudas no Irã. Mas nao é uma situaçao confortável para mim: eu nunca quis escrever minha biografia, nunca quis falar de mim mesmo, sou um pessoa bastante privada de modo geral... Mas isso virou minha vida de ponta cabeça. Então, são essas as consequências.
Portal IMPRENSA - Ao mesmo tempo, você passava por uma situação difícil também na vida particular, já que sua mulher estava atravessando uma gravidez com riscos de saúde enquanto estava preso.
Bahari - Acabei tendo muita sorte de estar presente para ver o nascimento da minha primeira filha, o dia mais feliz da minha vida. Mas, por outro lado, mesmo no momento em que ela nasceu, eu não podia esquecer que há outras centenas de pessoas na cadeia de forma injusta. E que muitas, muitas outras pessoas não tiveram o apoio que eu tive. Foi um momento muito agridoce [o reencontro com a família].
Portal IMPRENSA - Como você vê a crescente cena de documentários? Ainda não é uma atividade lucrativa, mas cada vez mais gente ao redor do mundo se interessa por filmes assim...
Bahari - Acho que é uma soma de fatores. Houve um impulso com alguns documentários mais comerciais feitos nos EUA e na Europa, especialmente com Michael Moore, como "Tiros em Columbine", "Roger e Eu", e "Farehnheit 11 de Setembro". Acho que ele é um gênio em termos de marketing, combinando aspectos holywoodianos com o estilo de documentário. Surgiu uma onda de documentários inspirados nele, mas nem todo o lucro desses filmes combinados deu o resultado que atingiu Michael Moore. Mesmo assim, seus filmes inspiraram muitos outros e revelou o potencial dos documentários.
Também acho - é uma opinião pessoal - que muita gente, nao só cinéfilos, mas gente comum, está cansada de filmes de Hollywood. Há tanto dinheiro envolvido que eles tem de alcançar uma audiência cada vez mais jovem para atingir as metas. Para satisfazer a todos, faziam filmes, antes, suponhamos, para pessoas entre 38 e 54 anos. Hoje tentam fazer filmes que atinjam gente dos 8 aos 80... E eu, pessoalmente, não tenho o gosto de uma criança de 8 anos. Muita gente pensa como eu. É por isso que vão ver documentários, pois são filmes para adultos. E alguns tem muito apelo de entretenimento. E se você permitir a mais documentários terem marketing e a mais documentários serem exibidos às pessoas, mais público irá aos cinemas. Mas são tempos muito guiados por celebridades. Se seu flme nao tem celebridades como Michael Moore ou Morgan Spurlock, é muito difícil fazer marketing...
Portal IMPRENSA - Como conhece tanto sobre o Brasil? Você mencionou muitas coisas e nomes relacionados ao país, mas nunca esteve aqui antes...
Bahari - Eu era criança, em 1974, tinha sete anos, quando vi a primeira Copa do Mundo da qual realmente lembro. E eu lembro do time brasileiro de Rivelino, Jairzinho... E também do time de 1982, de Sócrates, Zico... Então o futebol foi minha introdução ao Brasil. Depois me interessei pela cultura em geral: escutei muito Gilberto Gil e Emílio Santiago, a quem eu vi cantando em Nova York há alguns meses e tem uma grande voz... Também comecei a ver filmes do Brasil feitos durante a ditadura, como os de Glauber Rocha, e fui ficando fascinado pelo Brasil. Depois, quando me mudei para Londres e tomei minha primeira caipirinha, esse se tornou meu drinque preferido!
Serviço : Festival - 31 de março a 10 de abril em São Paulo; 1º a 10 de abril no Rio de Janeiro. Mais detalhes no .
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