Ex-correspondente de “O Globo” na Índia lança livro sobre o país para desfazer estereótipos

A jornalista Florência Costa foi a primeira repórter em tempo integral de um jornal brasileiro em terras indianas. Em 2006, ano em que foi para a Índia como correspondente de O Globo , o país tomava as manchetes do mundo e já era visto como uma economia promissora.

Atualizado em 27/11/2012 às 16:11, por Luiz Gustavo Pacete.

O maior desafio dela era falar do país sem realçar estereótipos, mostrando aos leitores brasileiros que a Índia ia além de uma nação exuberante, era também berço de uma série de revoluções e importantes acontecimentos sociais e democráticos.

Florência com um Sadu "Homem Santo" Inicialmente, Florência viveu em Mumbai, o coração financeiro do país. “É uma cidade extremamente importante, tanto do ponto de vista geopolítico por estar próxima ao Paquistão, como pela relevância econômica. Eu cheguei lá após a Índia ter sido destaque no Fórum Econômico Mundial, ela ganhou manchete de vários veículos do mundo e isso me chamou atenção”.

A jornalista que também já trabalhou na Rússia apresentou o projeto de ir à Índia ao O Globo e teve sua ideia aceita. “Eu fui lá mostrar além das questões financeiras, mas também o que era a Nova índia. Fiz várias matérias de comportamento e a primeira que eu fiz foi sobre o sistema de castas que é um tema muito polêmico no país”.
Após seis anos no país, a jornalista volta a viver no Brasil e lança o livro “Os indianos” pela Editora Contexto. O resultado do trabalho de apuração, pesquisa e entrevistas tem como objetivo mostrar a Índia sem estereótipos e tratar de temas sociais, econômicos, culturais e históricos que vão muito além do que já se conhece sobre o país.

Imprensa na Índia
Florência conta que os indianos são tímidos quando falam com jornalistas. “Diferente do Brasil, onde as pessoas são mais receptivas, os indianos precisam ser conquistados e sempre olham com desconfiança, como os asiáticos em geral”. Ela admite não ter tido dificuldades ou passado problemas em apurações.

Para ela, um dos pontos positivos em atuar como jornalista na Índia é o respeito e a credibilidade da imprensa. “O governo está acostumado a levar pancada de jornais. Quando tem um escândalo os ministros vão se justificar. Todo dia tem debate, os jornalistas falam mesmo sobre os assuntos, não existe tabu”. Ela não nega que a imprensa não é perfeita, tem seus defeitos, mas trabalha com plena liberdade.
Sobre o reflexo do sistema de castas nas redações, ela conta que os jornalistas convivem com os mesmos problemas quando profissionais de castas superiores e inferiores acabam refletindo as divisões no que escrevem. “O tema das castas sempre dá polêmica na Índia, principalmente quando falam sobre cotas. As pessoas vão às ruas, a imprensa debate, não é à toa que é a maior democracia do mundo”.
Em 2010, quando visitou o Brasil, Florência percebeu que as pessoas já tinham certo conhecimento sobre o país. Ela descobriu que a novela “Caminho das índias” contribuiu para mostrar um pouco da Índia. “Assim que cheguei tinha de explicar coisas básicas em função do total desconhecimento que tinham sobre o país. Hoje isso já não é necessário”.

Florência acredita que o Brasil pode explorar melhor sua relação com a índia. “É uma país consumidor gigante. Um mercado que pode chegar a 300 milhões de pessoas. Eles precisam de energia, commodities . É um mercado valiosíssimo”. Do ponto de vista social, a jornalista explica que a Índia adota muitos exemplos do Brasil, principalmente projetos sociais do governo Lula.