Ex-atletas e sua vida como comentaristas esportivos

Comentaristas esportivos que já foram esportistas enfrentam relação tumultuada com jornalistas de carreira e cobrança de ex-colegas

Atualizado em 29/05/2011 às 17:05, por Flávio Costa.

Torneio de futebol disputado por jornalistas na cidade de São Paulo, a Copa Imprensa Aceesp Nike tem partidas deveras disputadas, a la Libertadores. As divididas são tão renhidas que, em uma delas, o apresentador do canal SportTV, Maurício Noriega, fraturou o braço. Mas, por vezes, há um fator de desequilíbrio que faz a balança pender para um dos lados: times que têm ex-jogadores, que viraram recentemente comentaristas. Eles batem uma bola com repórteres, quase todos fora de forma. A diferença técnica é gritante. "É covardia. Imagina a dificuldade para os jornalistas barrigudos jogarem contra o Denílson [da Bandeirantes] e o Caio Ribeiro [da Globo]. Os dois ainda estão em boa forma. Eu acho que eles não deveriam jogar", brinca, com um fundo de verdade, o jornalista Rodrigo Bueno, que trabalha na Folha de S.Paulo e também é comentarista do canal a cabo ESPN.

Se o episódio do campeonato amador, jogado em campo society, tem um caráter meramente anedótico e não chega a constituir uma polêmica, a relação entre jornalistas de carreira e comentaristas que foram atletas é mais tensa do que as cordiais transmissões de jogos costumam transparecer.

Pouco acostumado a palpitar fora das quatro linhas, Antonio Oliveira Filho, mais conhecido como Careca, declara já ter notado uma certa má vontade de jornalistas com ex-jogadores - boa parte deles com precária educação formal em comparação aos colegas diplomados. Centroavante da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1986 (México) e de 1990 (Itália), ele começou, há quase um ano, a fazer análise das partidas do Campeonato Italiano pela Rede TV! após passagens dispersas em emissoras de rádio de Campinas (SP).

"A gente sabe quando o cara pegou bem na bola, quando errou, quando fez uma falta na maldade, quando não fez. A gente fala com conhecimento de causa", afirma Careca. Ele diz acreditar que o trabalho do repórter e do comentarista são complementares: "Um vem com a informação mais apurada, outro traz a vivência dos tempos de gramado. Quem sai ganhando é o telespectador."
Parceiro de Careca, com quem formou uma lendária dupla de ataque no São Paulo, e na Seleção Brasileira, Müller retorna a fazer comentários, para recuperar auto-estima e as finanças combalidas, após ter gastado milhões de reais, ganhos em 20 anos de carreira, com "mulheres e outras besteiras", como ele admitiu em entrevista recente ao Marca Brasil. "Estou cheio de saúde e pronto para recomeçar. Acertei hoje com uma grande rádio para comentar o Brasileiro. Era um objetivo voltar a ser comentarista", disse o ex-jogador, que vive de favor na casa do amigo, o ex-lateral Pavão, em São Paulo.

Para Bueno é difícil generalizar, pois pode simplificar uma relação muito mais complexa. "Eu não sei se 'preconceito' é o termo correto. Há dois lados nesta discussão. Às vezes, há jornalistas que colocam o diploma como um atestado de competência, um 'ISO 9000', como há jornalistas ruins que têm diploma, e tem ainda o comentarista, que foi jogador, que não sabe se expressar, não tem conhecimento. E desqualifica o jornalista por dizer que ele não jogou bola, que não conhece os clubes".

ALÉM DA OPINIÃO
Tal relação se torna mais tumultuada quando o comentarista não apenas se limita a opinar sobre jogos mas também se traveste de jornalista, e faz as vezes do repórter. O advento das redes sociais tornou cada pessoa um potencial produtor de notícias, sem precisar passar pelo crivo tradicional dos meios de comunicação. E é nesse ponto que a confusão começa.

Um caso emblemático foi o bate-boca público, entre o comentarista José Ferreira Neto, da Band, e o apresentador do "Globo Esporte", Tiago Leifert, a respeito da possibilidade do meio-campista holandês Seedorf se transferir do Milan para o Corinthians, no segundo semestre. Em abril passado, durante uma edição do "Globo Esporte", Leifert classificou de boato a notícia veiculada por Neto sobre a negociação. "O que a gente conseguiu apurar é que não tem nada assinado. É uma ideia sim, mas para julho deste ano", disse o jornalista ao vivo.

O comentarista da Band considerou a atitude do jornalista reprovável: "Nunca tive nada pessoal contra o Tiago Leifert. Acho até um rapaz competente. Mas ele fez muito mal ao desmentir no ar a informação do Seedorf, que tinha sido dada minutos antes na Band", rebateu. Tempos depois, Leifert voltou à carga em uma palestra ministrada numa universidade paulistana: "Ele [Neto] fala tudo que vem na cabeça, ele não tem filtro. Isso é bom. O que aconteceu foi que havia uma informação falsa sendo divulgada. A informação de que o Seedorf tinha assinado com o Corinthians. Aí eu vou lá e desminto, porque a informação é falsa", disse o apresentador da Globo. Procurados por IMPRENSA, ambos se recusaram a falar sobre o assunto. A justificativa: não querem saber de polêmica.

Crítico contumaz do jornalismo esportivo brasileiro, Caio Maia é o editor-chefe do site Trivela, especializado na cobertura do futebol internacional, além de ser responsável pela Revista ESPN. Categórico, ele afirma que existe preconceito, sim, em relação aos ex-jogadores, sobretudo por uma questão de corporativismo. "Mas, assim como existem Tostão e o Falcão, que são ótimos, existe ex-jogador que não tem noção do que está falando", pondera.

Em relação aos colegas de profissão, ele dá como exemplo positivo a trajetória de Paulo Vinícius Coelho, da ESPN e do Estadão - uma exceção, que equilibra com qualidade o olhar técnico com o jornalístico. Maia aponta um superficialismo excessivo nas análises dos jogos, associadas a uma propensão dos jornalistas de jogar para a torcida, principalmente nos canais de televisão aberta. A Globo, cujos diretores já afirmaram publicamente que tratam o esporte como entretenimento, seria um exemplo. "A crítica que Leifert faz ao Neto é aquele caso do roto falando do esfarrapado. O Tiago Leifert pode ter a formação que ele tiver, mestrado e doutorado em jornalismo, mas o que ele faz não é jornalismo. É animação de torcida e ele deveria saber disso. Não importa quem deu furo, importa se você tem credibilidade e ética, e o público sabe disso", diz Maia.

PEDRA E VIDRAÇA
O comentarista tem que lidar com a vaidade dos colegas, pois jogador de futebol detesta ser criticado. Se a reclamação parte de alguém com quem ele já dividiu um vestiário, a irritação sobe alguns decibeis. Recentemente aposentado, Ronaldo Nazário costumava cobrar pelo Twitter posições mais corporativistas de comentaristas ex-atletas. Mas Ronaldo deixou de ser pedra para virar vidraça. Ele foi convidado a participar da transmissão da Globo das semifinais da Liga dos Campeões da Europa entre Real Madrid e Barcelona. "Se ele realmente virar comentarista, como é que vai comentar sobre o Corinthians, sendo praticamente um parceiro do clube? Como é que ele vai comentar sobre Neymar, se é ele quem agencia a carreira do jogador?", questiona Bueno

Lidar com o conflito de interesses e estabelecer um distanciamento saudável exige a adoção de padrões éticos rígidos para os ex-jogadores. Ao apontar a má fase vivida por Ronaldinho Gaúcho no Milan ou questionar a falta de critério de Dunga ao escolher os jogadores que fracassaram na última Copa do Mundo, Careca não teve medo de perder amizades construídas nos gramados. "Eu tenho meu padrão. A gente não precisa ofender, mas as pessoas estão vendo e você precisa falar o que está acontencendo".
Incensado como melhor cronista esportivo em atividade, o campeão do mundo em 1970, Tostão, evita aparecer em eventos promocionais, até mesmo do Cruzeiro, seu time do coração. "Não me dou importância. Não é falsa modéstia. Sou apenas um colunista, opinador. Não sou protagonista de nada. Jornalista, que não sou, não deveria ser notícia, muito menos garoto-propaganda. Não pense ainda que estou com baixa autoestima. Sou, e sempre fui, pretensioso e vaidoso, do meu jeito", escreveu o colunista em um de seus artigos dominicais para a Folha de S.Paulo e para dezenas de jornais em todo o país que reproduzem seus textos.

"Eu era pago para criticar, mas nunca fiz com ódio. Nenhum jogador me cobrou pelos meus posicionamentos", explica Paulo Roberto Falcão. Ele liderou a bancada de comentaristas da Rede Globo durante 16 anos. Nos anos 1980, participou de transmissões na rádio e na televisão da Itália, país onde teve sucesso como jogador do Roma. Há dois meses ele saiu da cabine da Globo para treinar o Internacional, time do qual é ídolo histórico. Tropeçou ao ser eliminado da Libertadores da América em casa, pelo Peñarol, mas conquistou o Campeonato Gaúcho, vencendo o arqui-inimigo Grêmio.

Apesar do fino trato, Falcão já teve dois entreveros com jornalistas desde que voltou ao Inter. Num deles pediu mais humildade àqueles que duvidavam do seu trabalho. "A humildade a qual eu me referi é a seguinte: as pessoas são muito definitivas. Eu noto muita gente em rádio e televisão dizendo o seguinte: 'Eu tenho certeza que, se o fulano sair e o beltrano entrar, vai ganhar o jogo'. O futebol é imponderável. Dois e dois não são quatro no futebol. Não é matemática". Falcão refere-se a uma ideia que já virou clichê de tão verdadeira, aquela que frequentemente ressuscita o sobrenatural de Almeida, para usar a figura criada por Nelson Rodrigues.
Em outras modalidades, o aspecto técnico é mais preponderante, facilitando o trabalho de quem analisa. "Dificilmente eu vou poder falar de um nadador brasileiro, pois eu sei que ele treinou todos os dias. E minha intenção é acompanhar o treinamento dos brasileiros de perto, como se eu fosse um repórter", diz o medalhista olímpico Fernando Scherer, o Xuxa, contratado pela Record para acompanhar os esportes aquáticos dos próximos Jogos PanAmericanos, a serem disputados em Guadalajara, México.

A proximidade da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no país gera uma demanda por notícias sobre a organização dessas competições. Reportagens sobre má administração de recursos públicos e atrasos nas obras são cada vez mais recorrentes. Que o diga São Paulo, cujo estádio definido para a abertura do Mundial de Futebol, a Arena Itaquera, mal saiu do papel e já tem custos estimados em R$ 1 bilhão. Nesse cenário, a torcida exige compromisso não só dos jornalistas mas também dos ídolos que estão nas cabines da televisão ou nas colunas de jornais. A rivalidade pode se restringir aos rachões da Copa Imprensa Aceesp Nike.