EUA: onde se sabe de tudo, menos o necessário
EUA: onde se sabe de tudo, menos o necessário
Essa coluna é para aqueles que ficam demasiadamente irritados com as notícias que diariamente aparecem na Imprensa do Brasil sobre a má administração das coisas públicas.
Diante do que vocês vão ler a seguir, safado esconder dinheiro na cueca, em gavetas ou malas é coisa de amador, truque de bandido vagabundo. O difícil é esconder prédios públicos.
Mas é exatamente isso que está acontecendo aqui na Florida, acredite se quiser, como diria meu finado colega de profissão Robert Ripley, sobre quem já escrevi numa coluna passada.
Imaginem vocês que o Estado da Florida não sabe dizer com exatidão onde estão 18 mil prédios públicos, construídos com dinheiro proveniente de impostos. E mais: autoridades dizem que não tem funcionários suficientes para rastrear todas essas propriedades.
O imbróglio começou no início desse ano, quando Linda South, secretária do Departamento de Administração da Florida recebeu dos legisladores estaduais a tarefa de apresentar uma lista de todos os prédios públicos. O objetivo era vender o que fosse possível para aumentar o orçamento, combalido pela crise econômica generalizada.
Mrs. South então descobriu que não existia uma única lista com todas as propriedades pertencentes ao governo da Florida. Isso porque como o estado é dividido em 67 condados, que são regiões administrativas autônomas, cada condado é responsável por manter controle sobre seus respectivos prédios públicos. E isso, descobriram agora, não tem sido feito.
Mrs. South recebeu dos condados uma lista contendo aproximadamente 18 mil prédios públicos, mas sem qualquer informação detalhada sobre onde exatamente eles se localizam, quanto eles valem, para o que estão sendo usados, se foram alugados para terceiros ou continuam sob uso oficial, se passaram por alguma reforma ou até mesmo se ainda estão em pé, depois de vários furacões que açoitaram a região em anos recentes. Resumindo : uma lista inútil, sem qualquer dado realmente relevante para o propósito inicial do projeto.
Não pude conter minhas gargalhadas com a ironia dessa situação. Já comentei em colunas passadas que aqui nos Estados Unidos qualquer tipo de informação, sobre qualquer cidadão, pode ser facilmente conseguida gratuitamente pela Internet. Pelo menos aquelas consideradas de domínio público. Pagando, é possível descobrir até coisas de cunho mais privado, também pela Internet.
Se eu quiser descobrir se o namorado de minha filha tem antecedentes criminais ou se já se envolveu em acidentes de trânsito é só entrar no site do departamento de Justiça do condado onde eu moro e está tudo lá. Basta ter o nome completo da pessoa. Se, além disso, eu tiver o número do Social Security, que seria o nosso CPF daí do Brasil, dá pra descobrir muito mais coisas. Posso checar o banco de dados dos outros condados também, em qualquer lugar do País. Se meu vizinho disser que vendeu a casa por 400 mil dólares e eu quiser checar é só entrar no site que controla os registros de compra e venda de imóveis e vou saber exatamente de quantos mil dólares foi o tamanho da mentira dele. Tudo que é considerado registro público é acessível para qualquer cidadão, a qualquer momento.
Com tanta informação disponível, qualquer um pensa que seria fácil as autoridades terem dados atuais sobre propriedades oficiais, já que os prédios, ao contrário dos seres humanos, não mudam de endereço, ou de nome, sexo, aparência ou estado civil. Por isso mesmo são chamados de imóveis.
Mas aí vem mais uma ironia: como prédios públicos não pagam impostos nem geram qualquer tipo de receita para os condados nem mesmo o Departamento da Fazenda e as águias do Imposto de Renda têm qualquer dado sobre eles. "Eu acho impressionante o governo estadual não saber o que ele mesmo tem", disse J. D. Alexander, presidente do comitê que determinou o levantamento dessas informações.
Como estupidez e burocratas andam de mãos dadas, a brilhante solução encontrada pelos daqui foi contratar uma companhia que faça um inventário -- em todos os condados da Florida, de norte a sul, leste a oeste -- de todas as propriedades pertencentes ao governo estadual. Isso porque o Departamento de Administração tem aproximadamente 500 funcionários, mas vejam vocês, nenhum, nenhunzinho, é capaz de descobrir onde exatamente esses prédios estão, em quais condições e quanto eles valem.
Então vão contratar terceiros para fazer um serviço que evidentemente vai drenar ainda mais os cofres públicos, cujo dinheiro vem de cidadãos trabalhadores e pagadores de impostos. Ou seja, nós, os otários de sempre. Como vocês podem ver, aí como aqui as coisas não são tão diferentes assim.
Aqueles que duvidam do que eu reporto aqui, achando que coisas absurdas só acontecem do lado debaixo do Equador, podem clicar .






