"Eu já não estou mais pensando na 'Primavera Árabe', mas no Apocalipse", diz Rabinovici

De março a maio deste ano, todo o mundo presenciou as consecutivas revoluções no mundo árabe, que derrubaram regimes autoritários e mobilizaram a população, que teve como um dos principais instrumentos de organização as mídias sociais.

Atualizado em 10/10/2011 às 11:10, por Pamela Forti.

O jornalista Moises Rabinovici, diretor de redação de O Diário do Comércio , foi correspondente internacional em Israel. Rabinovici foi enviado ao país pela primeira vez, para acompanhar o processo de paz com a Palestina, e ainda voltou outras vezes, para cobrir os desdobramentos, além de percorrer quase todos os países do mundo e do Oriente Médio. Divulgação

À IMPRENSA, ele falou sobre os recentes acontecimentos da chamada "Primavera Árabe". "Nós agora estamos vivendo o outono árabe, que eu acho que é o inverno para Israel", compara. Para o jornalista, as conquistas no mundo árabe são frágeis e a vulnerabilidade política nos países da região pode instigar novos conflitos. Ele explica: "A primavera decepou cabeças no Egito, na Tunísia e na Líbia ainda continua. Mas não conseguiu se estender à Jordânia. No golfo, a Arábia Saudita mandou suas tropas protegerem os pequenos países - Omã, Emirados. Então, a primavera ficou meio que estagnada. Não floresceu em canteiros bem preparadas, floresceu no meio de lama. Agora, a primavera no deserto dura pouquíssimo. Nos três primeiros dias da primavera aparecem umas florzinhas amarelas em algumas partes das dunas - e elas acabam, somem. E vira verão, com aqueles ventos tão quentes, que você tem que fechar as janelas de casa, porque eles sopra muito forte. Mas é do verão ao inverno que acontecem as guerras no Oriente Médio, porque depois, quando o inverno estiver começado, as nuvens não permitem mais o sobrevôo de avião", afirma. Agora, em outubro, é outono no hemisfério norte; o inverno começa em dezembro.

"O que se diz em Israel é que Bibi Netanyahu não vai resistir e vai atacar o Irã. Então, eu já não estou mais pensando na primavera, estou pensando no apocalipse. Porque há essa janela meteorológica para o ataque e os EUA estão segurando Israel para não atacar. E o que tenho lido na imprensa israelense é muito belicoso, a primavera não fez nenhum bem a Israel. A paz com o Egito que eu vi nascer nos anos em que estive lá, está por um fio agora. E quando eu cheguei lá, Israel dizia que não ia entregar um grão de areia do Sinai. E entregou o Sinai inteiro mais os poços de petróleo. Sob o general Sharon, que teve uma mudança tão grande quanto Menachim Begin, a paz estava se tornando possível. Houve uma reviravolta", explica o jornalista. Depois de anos de conflitos com a Palestina, os limites do acordo entre os dois países ainda estão longe de uma definição.

"E eu fiz uma pergunta a Arafat uma vez, da qual me orgulho. Eu perguntei pra ele porque ele sempre perdia o possível esperando o ideal. Porque se ele topasse o possível - 98% do que ele pedia - o ideal chegaria depois. Pra mim, eles estão pedindo hoje o que ele tiveram em 1948. A ONU fez uma partilha na Palestina. Israel aceitou, os árabes não. E os árabes atacaram. Hoje eles querem esse território outra vez. Imagina quantos anos de guerra se passaram, quantos mortos, para que se volte a uma situação de 1948? Por que não aceitaram lá atrás? Agora querem. Mas agora, Israel quer um acerto de fronteiras, para ficar segura de que não será atacada", finaliza.


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