Estupidez e espirais

Estupidez e espirais

Atualizado em 12/01/2005 às 13:01, por Natan Praxedes / UNISA.

“Não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor...”. Não sei bem o que aconteceu, e nem por que aconteceu, só sei que aconteceu.
Na terça-feira passada, eu e meus amigos estávamos perambulando pela cidade quando cansamos e decidimos dormir. Não era um lugar tão bacana quanto o último que passamos a noite que tinha vista para o Paraíso, mas já tínhamos dormido ali antes, e isso, naquela hora, era suficiente.
A noite era fria, mas não aquele frio que colocamos um casaco e pronto, ‘tudo resolvido’, era mais ou menos quando sentimos um vulto se aproximar, sabe aquele friozinho que dá? Bem, de verdade, não sei o que era, só sei que isso incomodava a gente, mas fazer o quê, “né” verdade?
Bem, São Pedro...posso chamá-lo só de Pedro? – o velhinho acenou com a cabeça positivamente – Então, Pedrão, enfim, dormimos ali mesmo naquele concreto frio. As notícias da semana passada e um papelão escrito frágil eram nossos cobertores naquela noite fria.
Lá pelas tantas da madrugada, quando os carros se tornam um objeto raro nas ruas da cidade que nunca dorme, escuto passos vindo em nossa “Não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor...”. Não sei bem o que aconteceu, e nem por que aconteceu, só sei que aconteceu.
Na terça-feira passada, eu e meus amigos estávamos perambulando pela cidade quando cansamos e decidimos dormir. Não era um lugar tão bacana quanto o último que passamos a noite que tinha vista para o Paraíso, mas já tínhamos dormido ali antes, e isso, naquela hora, era suficiente.
A noite era fria, mas não aquele frio que colocamos um casaco e pronto, ‘tudo resolvido’, era mais ou menos quando sentimos um vulto se aproximar, sabe aquele friozinho que dá? Bem, de verdade, não sei o que era, só sei que isso incomodava a gente, mas fazer o quê, “né” verdade?
Bem, São Pedro...posso chamá-lo só de Pedro? – o velhinho acenou com a cabeça positivamente – Então, Pedrão, enfim, dormimos ali mesmo naquele concreto frio. As notícias da semana passada e um papelão escrito frágil eram nossos cobertores naquela noite fria.
Lá pelas tantas da madrugada, quando os carros se tornam um objeto raro nas ruas da cidade que nunca dorme, escuto passos vindo em nossa direção. Até aí nada de mais; para nós, que somos fantasmas de uma sociedade gomorriana, isso acontece todos os dias. As pessoas vêm e vão sem nos ver. A não ser quando dizem com os olhos enojados o que a boca não pode falar.
Ah, mas isso não é importante, não é, Pedrão? O que interessa é que, de repente, escuto aquele som de algo rasgando o ar em toda velocidade. Sabe quando fica aquele mosquitinho chato no ouvido que a gente afasta com a mão?...Então, daquele jeito; em seguida um barulho de carapaça de coco sendo martelada e partida em dois, tamanho o choque da pancada.
De súbito, senti um frio nos pés e um calor no rosto em forma de líqüido. Comecei a ver imagens de explosões em espirais de cores, lembranças distorcidas. Não me sentia mais. Quando dei por mim, já estava aqui.

- Durante um minuto ambos ficaram calados...

Ei, Dom, você sabe o que aconteceu nessa noite? – Pergunta o mendigo pendendo a cabeça para o lado, como uma criança curiosa e, com ar taciturno, o velho responde:
Mais uma vez a estupidez venceu a lucidez. Morreste por intolerância, e como tu, outros mais perecerão. Contudo tu cairás na graça da mídia, e teus amigos serão estrelas de televisão, rádio e jornal; e, por um breve espaço de tempo, dormirão sob a luz de holofotes a sob a segurança dos guardas da lei e da ordem. A sociedade respeita-los-á. Tudo por um breve período. Muitos lamentarão, e poucos refletirão.
Dom, será que isso não pode durar um pouquinho mais?
Em verdade te digo: não, não com aquele povo que só lamenta, e que apenas lamenta, o infortúnio dos outros.
Entre, meu filho, logo outros chegarão. Agora, dormirás tranqüilo.
Fica em paz, teus amigos, por hoje, também dormirão bem. Estamos a um mês das eleições.