"Estou vivo, mas com a dor de ter abandonado meu país e a profissão", diz jornalista exilado

Cidade Juárez, localizada no Estado de Chihuahua, recebeu a nomenclatura de "zona mais violenta do mundo fora de áreas de guerra"

Atualizado em 14/12/2011 às 18:12, por Luiz Gustavo Pacete.


Cidade Juárez, localizada no Estado de Chihuahua, recebeu a nomenclatura de "zona mais violenta do mundo fora de áreas de guerra". Segundo a organização Conselho Cidadão para a Segurança (CCSP), é a cidade "mais violenta" do mundo, com a média de 132 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2008, a região contabilizou cerca de 1.400 assassinatos e, em 2010, mais de 2.500 mortes foram vinculadas ao narcotráfico.
É nesse contexto que o jornalista Luis Horacio Nájera atuou como jornalista até o ano de 2006, presenciando a morte de colegas e a crueldade dos cartéis. A situação de Nájera piorou quando ele começou a denunciar o envolvimento da polícia com os cartéis. Foi aí que a decisão de deixar o país tornou-se questão de "sobrevivência".
Em depoimento, concedido ao Comitê de Proteção a Jornalistas (CPJ) e publicado no relatório "Silêncio ou Morte" da entidade, Nájera fala sobre as angústias de ter deixado o país e a profissão.
Por Luis Horacio Nájera, ex-correspondente do Grupo Reforma, em Ciudad Juarez*
Até agora eu não pude ter certeza se fui um covarde ou um valente ao fugir de Cidade Juárez com minha família e três malas, deixando tudo para trás. Levo dois anos no exílio e ainda sinto por ter abandonado meu lar, meus pais, e por deixar o Jornalismo, ofício que tanto amo, após 18 anos de trabalho.

Divulgação Luis Horacio Nájera Abandonar o México foi uma decisão complicada que amadureceu com o tempo, porém, que chegou de forma inesperada. Tive a ideia de deixar o país pela primeira vez depois de receber advertências de policiais corruptos para que eu deixasse de fazer perguntas ou tirar fotos dos cadáveres, informações que, de alguma maneira, poderiam dar alguma luz sobre os delinquentes.

Durante quase 20 anos, cobri o entorno da Cidade Juárez, o oeste do Texas e o Novo México para o Grupo Reforma, uma das empresas de jornalismo mais prestigiadas do México. Fui ameaçado de morte em incontáveis situações. Fui perseguido, acusado, intimidado e ameaçado em função das apurações que eu fazia.
Em fevereiro de 2006, depois de receber ameaças de morte pela cobertura do assassinato de um famoso advogado, saí temporariamente de Juárez e fui a Nuevo Laredo, onde, novamente, me seguiram e me acusaram, depois de eu dar algumas matérias sobre as atividades do cartel do Golfo. Alguns meses depois, eu estava de volta a Juárez. Tomei conhecimento da morte de um amigo muito próximo, o jornalista Enrique Perea Quintanilla, morto em agosto de 2006.
Por perseguir o que não era somente meu trabalho, mas também minha paixão, muitas vezes perdi a razão. Então, quando às vezes tratava de obter a melhor imagem ou indagar sobre algo, cruzei a tênue linha que me separava do perigo. Em 2008, recebi informação confiável de que vários jornalistas estavam em uma lista negra de sentenciados à morte, feita pelo crime organizado. Minha fonte me disse que eu estava na lista. Depois eu soube que outros dois nomes também estavam inclusos: Armando Rodriguez Carreón, assassinado em novembro daquele ano, e Jorge Luis Aguirre, que agora vive exilado no Texas.

Algumas vezes penso que era como uma rã em um experimento de laboratório, metida em água cuja temperatura aumenta lentamente até a morte. Apesar de presenciar sujeitos sombrios em carros de luxo me fotografando nas cenas do crime e apesar de ter sido seguido algumas vezes por pessoas armadas com rifles, eu não fui capaz de perceber que minha vida corria perigo. Finalmente, ao contrário do que poderia fazer uma rã, reconheci que estava em perigo iminente quando a temperatura aumentou repentinamente, em agosto de 2008.
Aconteceu um massacre no centro de reabilitação de Juárez e eu escrevi uma nota detalhando a cumplicidade da policia estatal e dos soldados pra ocultar os assassinos.

Depois dessa publicação, as ameaças chegaram de todos os lados. No fogo cruzado eu não tive ninguém a quem recorrer. Após ter sido testemunha do clima crescente de crimes violentos e impunidade, não podia confiar no governo nem tampouco me deixar ser assassinado debaixo de um solitário farol, em qualquer rua. Por isso, abandonei o México, em setembro de 2008, com minha família e viajei para o Canadá.


Sigo vivo e tenho sorte por isso, porém, sinto a dor de ter abandonado minha profissão e meu país. Agora, tenho um trabalho de meio período como porteiro, único trabalho que pude conseguir depois de 14 meses desempregado. Minha esposa, especialista em recursos humanos, trabalha como empregada doméstica. Estamos mantendo nossos filhos, dois garotos e uma menina. Estamos vivos, longes do fogo cruzado, porém, continua a dor de ter fugido do meu país e de minha profissão.



* Depoimento cedido à IMPRENSA pelo Comitê de Proteção dos Jornalistas (CPJ)
Tradução:

Leia outras matérias da série "Estado de Sítio":

-