"Estamos vivendo um impasse civilizatório", diz André Trigueiro / Por Gustavo da Silva Barbosa - PUC (SP)
"Estamos vivendo um impasse civilizatório", diz André Trigueiro / Por Gustavo da Silva Barbosa - PUC (SP)
Atualizado em 12/08/2005 às 13:08, por
Gustavo da Silva Barbosa e estudante de jornalismo da PUC-Rio*.
Por O jornalista André Trigueiro alerta que a exploração inadequada dos recursos naturais já está comprometendo as condições de sobrevivência da geração atual. Informação, ciência e tecnologia estão disponíveis para corrigir o rumo da destruição ambiental nesse início de século. Apesar disso, só entre 2003 e 2004 mais de 26 mil quilômetros quadrados foram desmatados na Amazônia.
O jornalista André Trigueiro recebeu em 2003 o Prêmio Embratel de Televisão e o Prêmio Ethos de Responsabilidade Social pela reportagem "Água: o desafio do século 21". O programa foi exibido no canal Globo News - do qual André é repórter e apresentador do "Jornal das Dez" desde 1996.
Segundo ele, o uso irracional dos recursos naturais não-renováveis configura um modelo suicida. Mas André Trigueiro acredita que a vulgarização do discurso ambiental e a disposição maior para o diálogo entre economistas e ecologistas podem reverter este quadro.
Pilotis: No Brasil, existe uma febre de exportação. Entendemos que a produção de carne e grãos é importante para sustentar o saldo positivo na balança comercial. É possível haver harmonia entre ecologia e economia?
André Trigueiro: É justo que se fale de desenvolvimento, produção de riqueza e geração de emprego e renda. É justo desde que isto esteja atrelado a políticas sustentáveis, ou seja, que não se faça da exploração dos recursos naturais uma atividade que implique em um legado negativo para quem vem depois. Estamos vivendo um impasse civilizatório. É um momento muito sério e que dificulta imaginarmos que neste ritmo seja possível assegurar condições de sobrevivência dignas para a maioria das pessoas. Presenciamos um cenário de destruição sem precedentes dos recursos naturais não renováveis. Em bom português: estamos seguindo um modelo suicida.
Pilotis: O que está por trás deste modelo suicida?
André Trigueiro: Muitas vezes, quando se fala de desenvolvimento, o que está em jogo é a maximização de lucro e a relação custo-benefício. Ou seja, você está olhando o que te convém, e no curto prazo. O projeto coletivo está em segundo plano. É possível e fundamental haver diálogo entre os princípios da ecologia e da economia. Podemos construir uma civilização que respeite o direito ao lucro e que não invalide o consumo sustentável. É possível desacelerar a fúria com que se esgota os recursos naturais não-renováveis e promover igualdade de renda e de oportunidades.
Pilotis: Quando pensamos nestas questões parece que ainda se trata de um tipo de informação elitizada. Como popularizar este discurso?
André Trigueiro: Universalizando as atitudes. Não dá para colocar apenas como atribuição da imprensa a obrigação de divulgar as informações, sinalizar rumos e perspectivas e dizer o que é e o que não é certo. É responsabilidade compartilhada com todos os setores da sociedade. Meio ambiente não é sinônimo de fauna e flora, de bicho e floresta. Ele tem um recorte transversal, atravessa todas as áreas do conhecimento e do saber.
Pilotis: Logo, ele não é do gueto dos ecologistas, certo?
André Trigueiro: Não é assunto de interesse apenas de ecologistas, biólogos e cientistas. Ele é assunto de quem está vivo. Se estiver vivo neste planeta, bem-vindo à seara ambiental. Afinal, não há nada mais essencial do que comer, respirar (risos)... Ter qualidade de vida, né? Portanto, todos nós, em maior ou menor grau, podemos e devemos fazer a nossa parte no sentido de vulgarizar as informações, os conhecimentos, os relatórios que sinalizam o senso de urgência. Tornou-se inadiável a discussão sobre o que devemos fazer e de que jeito.
Pilotis: Falando em conscientização coletiva, quais seriam as alternativas para que houvesse uma alfabetização ambiental por parte da população?
André Trigueiro: Somos bombardeados de mensagens que nos levam a acreditar no sonho que a publicidade promete. Temos a impressão de que seremos alguém melhor, mais bem sucedido, mais feliz se tivermos o último modelo de celular ou o carro mais potente. Acredito que o processo de mudança pode acontecer se a gente inocular o antivírus que nos deixa mais protegidos da sanha de consumo do não-necessário. Mas é bom diferenciar consumismo de consumo. Consumo é fundamental à vida. Eu não posso andar nu nem descalço na rua. Se precisar de um carro para me locomover, eu vou ter um. Trata-se de consumo de matéria-prima e energia para ter qualidade de vida. Numa perspectiva de sustentabilidade, precisamos ser mais vigilantes em relação aos atos de consumo. Isto requer uma mudança de cultura, o que não é fácil.
Pilotis: O último relatório de desmatamento da Amazônia indicou um aumento de 6% em relação ao anterior. Onde o poder público deveria se concentrar em caráter de emergência para diminuir o desflorestamento da Amazônia?
André Trigueiro: No âmbito do Executivo, vamos perceber um conflito de interesses em relação às prioridades da Amazônia. O governo tem um compromisso enorme com exportação e com desempenho da balança comercial. Neste aspecto, o agribusiness tem prestígio e orçamento. Só que o Ministério do Meio Ambiente tem o penúltimo orçamento mais baixo dos mais de 30 ministérios. O poder público, no nível do Executivo, precisa não apenas falar e sinalizar para a sociedade que tem a preocupação com a questão ambiental. Ele deve traduzir isto em orçamento, em medidas efetivas de constrangimento público em relação aos governos estaduais e municipais.
Pilotis: Isto é muito bem apresentado oralmente, mas mal consolidado. Que medidas mais práticas você acha que o governo poderia adotar?
André Trigueiro: Por exemplo, todo ano o governo anuncia a política de crédito para o agricultor. Ou seja, quem plantar terá crédito. O que poderia ser uma medida inteligente da parte do poder público é condicionar o crédito a políticas sustentáveis. Porque o governo, na hora de liberar crédito, não é mais vigilante como é conosco se formos ao banco pedir empréstimo? Às vezes, precisamos de avalista para provar que temos condição de honrar com o compromisso. Por que com o agricultor que opera na Amazônia não existe este rigor? Os instrumentos e as ferramentas estão aí. Recursos também. Cabe ao Estado gerir estes instrumentos de maneira mais consciente.
O jornalista André Trigueiro recebeu em 2003 o Prêmio Embratel de Televisão e o Prêmio Ethos de Responsabilidade Social pela reportagem "Água: o desafio do século 21". O programa foi exibido no canal Globo News - do qual André é repórter e apresentador do "Jornal das Dez" desde 1996.
Segundo ele, o uso irracional dos recursos naturais não-renováveis configura um modelo suicida. Mas André Trigueiro acredita que a vulgarização do discurso ambiental e a disposição maior para o diálogo entre economistas e ecologistas podem reverter este quadro.
Pilotis: No Brasil, existe uma febre de exportação. Entendemos que a produção de carne e grãos é importante para sustentar o saldo positivo na balança comercial. É possível haver harmonia entre ecologia e economia?
André Trigueiro: É justo que se fale de desenvolvimento, produção de riqueza e geração de emprego e renda. É justo desde que isto esteja atrelado a políticas sustentáveis, ou seja, que não se faça da exploração dos recursos naturais uma atividade que implique em um legado negativo para quem vem depois. Estamos vivendo um impasse civilizatório. É um momento muito sério e que dificulta imaginarmos que neste ritmo seja possível assegurar condições de sobrevivência dignas para a maioria das pessoas. Presenciamos um cenário de destruição sem precedentes dos recursos naturais não renováveis. Em bom português: estamos seguindo um modelo suicida.
Pilotis: O que está por trás deste modelo suicida?
André Trigueiro: Muitas vezes, quando se fala de desenvolvimento, o que está em jogo é a maximização de lucro e a relação custo-benefício. Ou seja, você está olhando o que te convém, e no curto prazo. O projeto coletivo está em segundo plano. É possível e fundamental haver diálogo entre os princípios da ecologia e da economia. Podemos construir uma civilização que respeite o direito ao lucro e que não invalide o consumo sustentável. É possível desacelerar a fúria com que se esgota os recursos naturais não-renováveis e promover igualdade de renda e de oportunidades.
Pilotis: Quando pensamos nestas questões parece que ainda se trata de um tipo de informação elitizada. Como popularizar este discurso?
André Trigueiro: Universalizando as atitudes. Não dá para colocar apenas como atribuição da imprensa a obrigação de divulgar as informações, sinalizar rumos e perspectivas e dizer o que é e o que não é certo. É responsabilidade compartilhada com todos os setores da sociedade. Meio ambiente não é sinônimo de fauna e flora, de bicho e floresta. Ele tem um recorte transversal, atravessa todas as áreas do conhecimento e do saber.
Pilotis: Logo, ele não é do gueto dos ecologistas, certo?
André Trigueiro: Não é assunto de interesse apenas de ecologistas, biólogos e cientistas. Ele é assunto de quem está vivo. Se estiver vivo neste planeta, bem-vindo à seara ambiental. Afinal, não há nada mais essencial do que comer, respirar (risos)... Ter qualidade de vida, né? Portanto, todos nós, em maior ou menor grau, podemos e devemos fazer a nossa parte no sentido de vulgarizar as informações, os conhecimentos, os relatórios que sinalizam o senso de urgência. Tornou-se inadiável a discussão sobre o que devemos fazer e de que jeito.
Pilotis: Falando em conscientização coletiva, quais seriam as alternativas para que houvesse uma alfabetização ambiental por parte da população?
André Trigueiro: Somos bombardeados de mensagens que nos levam a acreditar no sonho que a publicidade promete. Temos a impressão de que seremos alguém melhor, mais bem sucedido, mais feliz se tivermos o último modelo de celular ou o carro mais potente. Acredito que o processo de mudança pode acontecer se a gente inocular o antivírus que nos deixa mais protegidos da sanha de consumo do não-necessário. Mas é bom diferenciar consumismo de consumo. Consumo é fundamental à vida. Eu não posso andar nu nem descalço na rua. Se precisar de um carro para me locomover, eu vou ter um. Trata-se de consumo de matéria-prima e energia para ter qualidade de vida. Numa perspectiva de sustentabilidade, precisamos ser mais vigilantes em relação aos atos de consumo. Isto requer uma mudança de cultura, o que não é fácil.
Pilotis: O último relatório de desmatamento da Amazônia indicou um aumento de 6% em relação ao anterior. Onde o poder público deveria se concentrar em caráter de emergência para diminuir o desflorestamento da Amazônia?
André Trigueiro: No âmbito do Executivo, vamos perceber um conflito de interesses em relação às prioridades da Amazônia. O governo tem um compromisso enorme com exportação e com desempenho da balança comercial. Neste aspecto, o agribusiness tem prestígio e orçamento. Só que o Ministério do Meio Ambiente tem o penúltimo orçamento mais baixo dos mais de 30 ministérios. O poder público, no nível do Executivo, precisa não apenas falar e sinalizar para a sociedade que tem a preocupação com a questão ambiental. Ele deve traduzir isto em orçamento, em medidas efetivas de constrangimento público em relação aos governos estaduais e municipais.
Pilotis: Isto é muito bem apresentado oralmente, mas mal consolidado. Que medidas mais práticas você acha que o governo poderia adotar?
André Trigueiro: Por exemplo, todo ano o governo anuncia a política de crédito para o agricultor. Ou seja, quem plantar terá crédito. O que poderia ser uma medida inteligente da parte do poder público é condicionar o crédito a políticas sustentáveis. Porque o governo, na hora de liberar crédito, não é mais vigilante como é conosco se formos ao banco pedir empréstimo? Às vezes, precisamos de avalista para provar que temos condição de honrar com o compromisso. Por que com o agricultor que opera na Amazônia não existe este rigor? Os instrumentos e as ferramentas estão aí. Recursos também. Cabe ao Estado gerir estes instrumentos de maneira mais consciente.






