Estagiar para quê?
Estagiar para quê?
Já discutimos uma série de vezes a relação intrínseca entre teoria e prática, já sabemos que uma não sobrevive sem a outra, reforçamos que a teoria deve ter certa prevalência sobre a prática pelo simples fato que a primeira serve de base para a segunda. Tudo certo. Mas, então podemos concluir que o estágio em jornalismo é algo banal ou que pode ser relegado? Não é bem assim.
Em tese, o estágio deveria ser a aplicação da teoria na prática, a confirmação e a consolidação do aprendizado desta teoria. Se fossemos descrever um "estágio ideal" ele seria mais ou menos assim: estagiários acompanhando os profissionais, discutindo o fazer prático com eles e depois refletindo sobre essa prática com professores ou tutores mais experientes. Mas este é o ideal e muitas vezes ele só cabe mesmo ali, no plano das idéias.
O que percebemos é que o estágio em geral, e também no jornalismo, serve muito mais como forma de baratear os custos com contratações do que efetivamente como espaço de aprendizado. Conheço inúmeros estagiários/jornalistas, que fazem às vezes de um jornalista profissional, pautam, escrevem, assinam matéria. Dificilmente estes estagiários têm o acompanhamento de um profissional e raramente são orientados por professores, neste processo, acabam caindo no vicioso círculo de aprender só com a prática. Como profissionais de fato, mas ainda não de direito, sucumbem às pressões próprias da profissão e deixam de lado os afazeres acadêmicos, concluindo os estudos aos trancos e barrancos.
É verdade que temos inúmeros exemplos de célebres jornalistas que se formaram na labuta da redação e se este tipo de formação funcionava há 40, 30 anos ou menos, quando o jornalismo ainda se regulamentava, hoje a realidade é outra e a formação não pode prescindir de um acompanhamento teórico que naqueles tempos também existia, mas na base do autodidatismo.
Acho que no fundo o problema todo está no sentido do estágio, para que ele serve e qual o motivo que o estudante tem para se empenhar nele. Vejo muitos alunos perdidos neste sentido, achando que estagiar é a solução para todos os problemas de formação, além de também garantir a entrada no mercado de trabalho. Se ele é uma oportunidade para compreender os problemas que envolvem o fazer profissional e aprender a superá-los, não restam dúvidas, mas também pode ser um caminho para encontrar novos problemas.
É por isso que o estágio deve ser visto apenas como mais um momento de aprendizado, como um espaço para vivenciar na prática informações que se aprendeu na teoria, é um momento para errar, pedir conselhos, tirar dúvidas, aprender com a experiência do outro e a partir daí construir sua própria experiência. Contudo, a falta de sentido não é responsabilidade dos alunos, muitas vezes as faculdades se eximem da responsabilidade de orientar os estagiários sobre o momento que estão vivendo.
O estágio passa agora, no âmbito da FENAJ e de outras entidades de classe, por uma ampla discussão. Parece que a tentativa de regulamentar o estágio acadêmico é uma forma acertada de comprometer também as instituições de ensino com este processo que até então está no domínio do mercado. Esperamos que o estágio acadêmico não acabe virando, no interior das instituições, apenas um instrumento para aumentar os tramites burocráticos na vida do professor e que efetivamente contribua para aproximá-lo do seu sentido ideal.






