Especialistas avaliam posicionamento da imprensa sobre governo Dilma
O anúncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em acatar o pedido de abertura do processo de impeachment contra a presidente&nb
Atualizado em 03/12/2015 às 15:12, por
Alana Rodrigues e Matheus Narcizo*.
O anúncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em acatar o pedido de abertura do processo de impeachment contra a presidente (PT) na última quarta-feira (2/12) pautou os noticiários do Brasil e do mundo. Mas desde meados do primeiro mandato da governante, a imprensa desdobrou notícias e opiniões sobre o governo.
Crédito:Wilson Dias/Agência Brasil Especialista veem Dilma encurralada pela imprensa
Há dois meses, uma charge publicada no jornal O Dia , feita por Renato Aroeira, chamou a atenção ao colocar a presidente diante de um pelotão de fuzilamento de grandes jornais. Na ilustração, Dilma, de olhos vendados e com as mãos amarradas, enfrenta um "tiroteio" de publicações, como Veja, Folha e Estado de São Paulo e O Globo .
No mesmo período, um editorial da Folha intitulado "Última Chance", publicado — com incomum destaque — na capa, disparou: “não lhe restará [à presidente Dilma Rousseff], caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa.”
IMPRENSA conversou com jornalistas, historiadores e chargistas para discutir como os jornais abordaram, nos últimos meses, o possível afastamento da presidente e o "partidarismo" da mídia ao tratar o cenário político.
Renato Aroeira pondera que o partidarismo nos veículos de comunicação é um fato. O que não é necessariamente ruim. O chargista acredita que o problema aparece quando toda a imprensa defende uma única causa, partido ou posição política.
Crédito:Reprodução/Aroeira Chargista diz que partidarismo nos veículos de comunicação é um fato
"O ideal seria ter todo o espectro ideológico coberto por órgãos, jornais, revistas. Acredito também que o fato da imprensa ter ficado toda de um lado só fez com que ela passasse a acreditar piamente, fervorosamente, no que escreve. A ausência de dúvidas é péssima para a profissão de jornalista", avalia.
A cartunista Laerte também segue o mesmo pensamento. "O problema é quando existe apenas um tipo de olhar, situações como a que vivemos hoje são testemunhas de como esse olhar único prevalece em diferentes empresas de mídia", defende.
Pluralidade
Para o jornalista e historiador Matias Molina, há uma falha quando a linha editorial guia a reportagem. "Quando se 'editorializa' a informação", diz. Segundo ele, nada impede que os jornais escolham um candidato. "Declarar uma preferência não é nenhum problema, pelo contrário, mostra se a publicação é coerente com seus princípios e permite ao leitor comparar com ela sua própria opinião", afirma.
Crédito:Reprodução/Laerte
Olhar único dos fatos prevalece na imprensa, defende Laerte
Matias observa que, nos últimos meses, a imprensa mostrou de modo "estridente" os desdobramentos da crise. "A imprensa é a mensageira; o problema é o conteúdo da mensagem. Na antiguidade, quando a notícia era ruim, matava-se o mensageiro. Hoje, uma parcela da sociedade prefere culpar o mensageiro pela crise institucional do país e não o governo".
O jornalista e professor Rovilson Britto destaca que a mídia brasileira foi, desde seu início, estruturada a partir de interesses políticos. Ele afirma que a imprensa atua abertamente como partido político. "O critério não foi de mercado ou de livre concorrência. No caso dos canais de televisão e rádio as concessões foram dadas para grupos políticos apoiadores da ditadura militar. Isso nunca foi modificado", analisa.
"A fiscalização [da mídia] é feita de maneira seletiva, denunciando fortemente governos com os quais os veículos não se alinham, e sendo completamente complacentes com os governos que apoiam", acrescenta.
Questionada se há algum um limite para que os jornais defendam sua posição, a historiadora Maria Aparecida de Aquino diz que ele não deve existir. A palavra, na verdade, é "compromisso". Para ela, os jornais devem se comprometer com a sociedade e possibilitar que o leitor reflita e tome sua própria posição.
"A imprensa precisa ser plural. Normalmente, quando se abre os editoriais dos jornais, das revistas, eles gostam muito de dizer que são neutros. A neutralidade não existe. Ela está num determinado lugar", avalia.
Lembranças de Goulart
O professor Rovilson Britto e Maria Aparecida acreditam que o tom utilizado pelos jornais é muito parecido com o usado no período que antecedeu o golpe militar de 1964. "Basta voltar às manchetes e textos da época", afirma Britto.
A historiadora lembra do jornal Correio da Manhã , que nos dias 30 e 31 de março, à véspera do dia do golpe, publicou dois editoriais, um escrito "Basta" e o outro "Fora". "Basta e fora para derrubar João Goullart. Claramente golpista", explica.
No dia 3 de abril, entretanto, o Correio divulgou outro editorial. Desta vez, dizendo "Terrorismo Não". "[O jornal] percebeu um pouco tarde demais. Por isso, é importante que a imprensa tenha muito claro o que ela está fazendo neste momento", pontua.
Entenda o processo de impeachment
Com a aprovação do processo, uma comissão especial deve ser criada em 48 horas para avaliar a denúncia. Depois do parecer, ele segue para o plenário da Casa para votação.
A previsão é que na tarde desta quinta-feira (3/12) Eduardo Cunha leia, em plenário, o pedido de impeachment, além do texto de sua decisão. O presidente da Casa determinará a criação de comissão especial para analisar a denúncia e receber a defesa de Dilma. Ela deve ser formada por 66 deputados titulares e igual número de suplentes indicados pelos líderes partidários.
Para o impeachment ser aprovado, são necessários 2/3 dos votos da Câmara (342 deputados) e, depois, outros 2/3 do Senado (54 senadores). Ou seja, para barrar o impeachment, a presidenta precisa conseguir 172 votos em seu favor na Câmara ou 28 votos, caso o processo chegue ao Senado.
Se o Congresso Nacional considerar pertinente, o processo de impeachment pode derrubar a presidente isoladamente, isto é, não implica também na cassação do vice, Michel Temer, que passaria a assumir a presidência do país.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.
Crédito:Wilson Dias/Agência Brasil Especialista veem Dilma encurralada pela imprensa
Há dois meses, uma charge publicada no jornal O Dia , feita por Renato Aroeira, chamou a atenção ao colocar a presidente diante de um pelotão de fuzilamento de grandes jornais. Na ilustração, Dilma, de olhos vendados e com as mãos amarradas, enfrenta um "tiroteio" de publicações, como Veja, Folha e Estado de São Paulo e O Globo .
No mesmo período, um editorial da Folha intitulado "Última Chance", publicado — com incomum destaque — na capa, disparou: “não lhe restará [à presidente Dilma Rousseff], caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa.”
IMPRENSA conversou com jornalistas, historiadores e chargistas para discutir como os jornais abordaram, nos últimos meses, o possível afastamento da presidente e o "partidarismo" da mídia ao tratar o cenário político.
Renato Aroeira pondera que o partidarismo nos veículos de comunicação é um fato. O que não é necessariamente ruim. O chargista acredita que o problema aparece quando toda a imprensa defende uma única causa, partido ou posição política.
Crédito:Reprodução/Aroeira Chargista diz que partidarismo nos veículos de comunicação é um fato
"O ideal seria ter todo o espectro ideológico coberto por órgãos, jornais, revistas. Acredito também que o fato da imprensa ter ficado toda de um lado só fez com que ela passasse a acreditar piamente, fervorosamente, no que escreve. A ausência de dúvidas é péssima para a profissão de jornalista", avalia.
A cartunista Laerte também segue o mesmo pensamento. "O problema é quando existe apenas um tipo de olhar, situações como a que vivemos hoje são testemunhas de como esse olhar único prevalece em diferentes empresas de mídia", defende.
Pluralidade
Para o jornalista e historiador Matias Molina, há uma falha quando a linha editorial guia a reportagem. "Quando se 'editorializa' a informação", diz. Segundo ele, nada impede que os jornais escolham um candidato. "Declarar uma preferência não é nenhum problema, pelo contrário, mostra se a publicação é coerente com seus princípios e permite ao leitor comparar com ela sua própria opinião", afirma.
Crédito:Reprodução/Laerte
Olhar único dos fatos prevalece na imprensa, defende Laerte Matias observa que, nos últimos meses, a imprensa mostrou de modo "estridente" os desdobramentos da crise. "A imprensa é a mensageira; o problema é o conteúdo da mensagem. Na antiguidade, quando a notícia era ruim, matava-se o mensageiro. Hoje, uma parcela da sociedade prefere culpar o mensageiro pela crise institucional do país e não o governo".
O jornalista e professor Rovilson Britto destaca que a mídia brasileira foi, desde seu início, estruturada a partir de interesses políticos. Ele afirma que a imprensa atua abertamente como partido político. "O critério não foi de mercado ou de livre concorrência. No caso dos canais de televisão e rádio as concessões foram dadas para grupos políticos apoiadores da ditadura militar. Isso nunca foi modificado", analisa.
"A fiscalização [da mídia] é feita de maneira seletiva, denunciando fortemente governos com os quais os veículos não se alinham, e sendo completamente complacentes com os governos que apoiam", acrescenta.
Questionada se há algum um limite para que os jornais defendam sua posição, a historiadora Maria Aparecida de Aquino diz que ele não deve existir. A palavra, na verdade, é "compromisso". Para ela, os jornais devem se comprometer com a sociedade e possibilitar que o leitor reflita e tome sua própria posição.
"A imprensa precisa ser plural. Normalmente, quando se abre os editoriais dos jornais, das revistas, eles gostam muito de dizer que são neutros. A neutralidade não existe. Ela está num determinado lugar", avalia.
Lembranças de Goulart
O professor Rovilson Britto e Maria Aparecida acreditam que o tom utilizado pelos jornais é muito parecido com o usado no período que antecedeu o golpe militar de 1964. "Basta voltar às manchetes e textos da época", afirma Britto.
A historiadora lembra do jornal Correio da Manhã , que nos dias 30 e 31 de março, à véspera do dia do golpe, publicou dois editoriais, um escrito "Basta" e o outro "Fora". "Basta e fora para derrubar João Goullart. Claramente golpista", explica.
No dia 3 de abril, entretanto, o Correio divulgou outro editorial. Desta vez, dizendo "Terrorismo Não". "[O jornal] percebeu um pouco tarde demais. Por isso, é importante que a imprensa tenha muito claro o que ela está fazendo neste momento", pontua.
Entenda o processo de impeachment
Com a aprovação do processo, uma comissão especial deve ser criada em 48 horas para avaliar a denúncia. Depois do parecer, ele segue para o plenário da Casa para votação.
A previsão é que na tarde desta quinta-feira (3/12) Eduardo Cunha leia, em plenário, o pedido de impeachment, além do texto de sua decisão. O presidente da Casa determinará a criação de comissão especial para analisar a denúncia e receber a defesa de Dilma. Ela deve ser formada por 66 deputados titulares e igual número de suplentes indicados pelos líderes partidários.
Para o impeachment ser aprovado, são necessários 2/3 dos votos da Câmara (342 deputados) e, depois, outros 2/3 do Senado (54 senadores). Ou seja, para barrar o impeachment, a presidenta precisa conseguir 172 votos em seu favor na Câmara ou 28 votos, caso o processo chegue ao Senado.
Se o Congresso Nacional considerar pertinente, o processo de impeachment pode derrubar a presidente isoladamente, isto é, não implica também na cassação do vice, Michel Temer, que passaria a assumir a presidência do país.
* Com supervisão de Vanessa Gonçalves.





