Especial: Xingu, 22 anos depois
Especial: Xingu, 22 anos depois
O pequeno monomotor Sertanejo - uma espécie de fusca dos ares, por seu tamanho e pelo ronco do motor - pousa na pista de terra da Aldeia Ipatse, dos Kuikuru. Antes de tocar o solo e criar um rasto vermelho de poeira, já é possível ver um grande chapéu de palha entre os índios à espera dos visitantes. Trata-se de Washington Novaes. Tal qual um Villas Boas do jornalismo, Novaes incorporou-se à paisagem árida de julho nas terras do Alto Xingu. E o Alto Xingu, ao que parece, também se incorporou ao corpo muito branco de Novaes. Essa simbiose data de 1984, quando Novaes chegou ao Xingu, então de barco, com a missão de traduzir ao Brasil a fascinante e desconhecida cultura indígena daquela região.
| Rodrigo Manzano |
Washington Novaes, protegido pelo seu chapéu de palha e o inseparável protetor solar, volta à região 22 anos depois. Não o preocupa apenas o escaldante calor sobre a pele frágil. Preocupa-o, gravemente, também, o destino da cultura ancestral dos indígenas do Alto Xingu - cada vez mais fragilizada pela influência dos brancos - e da biodiversidade - ameaçada pelo avanço do plantio de soja no entorno do Parque Indígena do Xingu, criado em 1961.
| Rodrigo Manzano |
O Xingu, até a primeira visita de Novaes na década de 1980, era um território praticamente inexplorado e desconhecido dos brancos. Veiculada pela TV Manchete, a série de documentários "Xingu - A Terra Mágica" revelou ao Brasil os encantos daquele universo fascinante, enigmático e tão estranho aos não-indígenas quanto uma sopa dos Bálcãs. Reprisado inúmeras vezes, exibido nas escolas e nas associações, a primeira versão do documentário tornou-se referência na compreensão dos direitos indígenas no Brasil contemporâneo. Quando retorna ao Xingu, Washington Novaes encontra uma cenário delicado. De "terra mágica" o Xingu passou a "terra ameaçada". "Isso reflete meu coração apertado, de ver a transformação nesses últimos 22 anos. O Xingu, hoje, é uma ilha cercada de ameaças de fora, pelo desmatamento em função da soja, da pecuária, das madeireiras e dos garimpos. Também é um lugar com muitas ameaças internas. Nesse período, a relação das culturas do Xingu com a nossa cultura se aprofundou muito, com a comunicação e com as estradas. Eles vêem televisão e recebem informações que geram um conflito geracional", lamenta Novaes, "os velhos dizem que os jovens não querem mais seguir as velhas tradições, a velha cultura; que eles não querem ser índios, eles querem ser brancos, usar camiseta, bermuda, tênis, óculos escuros, dançar forró e jogar futebol. Com isso eles estão abandonando o formato de viver dos índios", descreve.
| Rodrigo Manzano |
Esse cenário descrito por Novaes revela-se já à primeira vista àquele que chega nas tribos do Alto Xingu. Alguns índios vestem-se de acordo com a civilização branca. Um deles, utiliza uma camiseta da banda norte-americana Blink 182, embora nunca tenha ouvido falar dela, nem mesmo escutado sua música. Outro, agregou às sua indumentária de miçangas o símbolo da Nike. Algumas mulheres, muito tímidas, usam vestidos. Para atravessar a tribo, buscar água ou pescar, bicicletas e até mesmo uma motocicleta são utilizadas. Os caciques mostram-se angustiados e, quando podem, exortam os jovens a recuperar os valores ancestrais de seu povo. Sobre isso e sobre as ameaças ao meio ambiente da reserva é que trata a série "Xingu - A Terra Ameaçada".
| Rodrigo Manzano |
"Cada vez que eu vinha para cá, essa presença era cada vez mais forte", lembra-se o jornalista, que criou o projeto do retorno e da documentação em 2000 e somente agora conseguiu viabilizar o patrocínio da Petrobrás e da Natura, por meio da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual. Dessa vez, a série vai ao ar na TV Cultura, onde estréia no dia 29 de junho, às 18 h (veja programação abaixo), com reexibição da série de 1984. "Xingu - A Terra Ameaçada" visitou novamente as cinco etnias retratadas na primeira versão: Waurá, Kuikuro, Yawalapiti, Metuktire e Panará. Para a nova série, Washington Novaes reuniu parte da mesma equipe original, convidando o diretor de fotografia Lula Araújo e o diretor de edição João Paulo Carvalho, além do artista plástico Siron Franco, que assina a direção de arte.
Somaram-se a eles dois jovens cineastas indígenas como assistentes de fotografia - Maricá Kuikuro e Kiampopri Panará. Maricá, em 1984, era um menino de 3 anos de idade que aprendia com o pai a arte da pesca. Hoje, aprende a arte da documentação, operando pequenas câmeras DV nos rituais e registrando a tradição de seu povo. "É mais fácil aprender a pescar", confessa, tímido.
LEIA a reportagem completa sobre os índios Kuikuro e o Coletivo de Jovens Indígenas na edição especial de aniversário da IMPRENSA, em setembro.
* Rodrigo Manzano viajou ao Xingu a convite da Fundação Padre Anchieta / TV Cultura .
CRONOGRAMA DE EXIBIÇÃO
29/07 - "Xingu - A Terra Ameaçada" (Estréia)
Programa de abertura da nova série, mostrando o contraste entre a realidade dos povos do Xingu em 1984 e os dias de hoje.
05/08 - Os Filhos de Mavutsine (1984)
O primeiro programa da série gravada em 1984 mostra a realidade do Xingu há 23 anos.
12/08 - Herdeiros do Paraíso (1984)
O segundo programa de 1984 fala da infância e a educação entre os índios do Xingu.
19/08 - Adeus à Infância (1984)
A adolescência e os ritos de passagem para a vida adulta no Xingu.
26/08 - Amor de Índio (1984)
A relação entre homem e mulher, o namoro, o casamento e o sexo entre os índios do Xingu.
02/09 - O Mundo dos Homens Livres (1984)
A organização social e política entre os índios do Xingu.
09/09 - Medicina, Magia e Feitiçaria (1984)
Os pajés e o mundo dos espíritos, presença constante no cotidiano xinguano.
16/09 - A Arte Viva do Índio (1984)
A bela e refinada arte dos índios xinguanos e sua função na sociedade.
23/09 - Kuarup, dos Mortos não se fala - parte 1 (1984)
A velhice e a relação com a morte, incorporada no ritual do Kuarup, a mais importante festa dos povos do Xingu.
30/09 - Kuarup, dos Mortos não se fala - parte 2 (1984)
A festa do Kuarup (continuação).
07/10 - O Direito de Viver (1984)
O acesso aos seus territórios ancestrais e os direitos dos povos indígenas do Xingu.
14/10 - Xingu - A Terra Ameaçada: o povo Panará
O segundo dos programas gravados em 2006 mostra a realidade atual dos índios Panará, antes conhecidos como Krenakrore.
21/10 - Xingu - A Terra Ameaçada: o povo Metuktire
A liderança do conhecido chefe Raoni e os conflitos intergeracionais neste grupo da etnia Caiapó.
28/10 - Xingu - A Terra Ameaçada: o povo Kuikuro
As ameaças das hidrelétricas e dos desmatamentos, os conflitos em torno do nascimento de gêmeos e o surgimento de um cineasta indígena.
04/11 - Xingu - A Terra Ameaçada: o povo Waurá
A luta pela preservação das tradições e os dilemas atuais dos xinguanos.
11/11 - Xingu - A Terra Ameaçada: os Yawalapiti e o futuro do Xingu
O último programa da nova série mostra a situação do povo Yawalapiti e discute o futuro dos povos do Xingu.
04/11 - Xingu - A Terra Ameaçada: o povo Waurá
A luta pela preservação das tradições e os dilemas atuais dos xinguanos.
11/11 - Xingu - A Terra Ameaçada: os Yawalapiti e o futuro do Xingu
O último programa da nova série mostra a situação do povo Yawalapiti e discute o futuro dos povos do Xingu.






