Especial: "O governo do PT sempre foi mais friendly"
Especial: "O governo do PT sempre foi mais friendly"
A Revista G Magazine foi lançada logo depois que a lendária Sui Generis fechou. Há dez anos no mercado, a publicação teve como sua entusiasta desde o começo, a publicitária e jornalista Ana Fadigas. Até hoje na direção da revista, Fadigas começou no jornalismo em 1977 quando foi editora-assistente da revista Recreio, da Abril.
Ana Fadigas tem uma relação próxima com o universo gay. Além de comandar a G Magazine , o pai de seus filhos é gay. "Eu tenho uma relação carinhosa com esse universo", revela.
Na entrevista concedida à Revista IMPRENSA, ela conta dos altos e baixos que a publicação enfrentou, dos ensaios dramáticos e da sua intenção de publicar uma revista voltada aos gays que gostam dos mais menininhos.
Como você explica o lançamento de três títulos novos no mercado gay agora?
O mercado editorial não está maravilhoso nesse momento. Mas essas revistas ocupam um espaço muito importante. O mercado gay, o mercado pink, o "pink money" já vem saindo do armário há algum tempo. O governo Lula facilita isso colocando em pauta projetos de cidadania, de militância. Eu acho que já tava na hora da G Magazine ter concorrentes porque baliza o trabalho da gente.
Qual vai ser o impacto direto dessas publicações na vida da G ?
Eu não acredito em perda de mercado da G , principalmente porque não tem nenhuma que tenha uma proposta parecida com ela. A G é militante, não é ativista, mas é militante. Além disso, ela tem a nudez de famosos. Então, eu acredito em um aumento do mercado publicitário com a entrada dessas novas revistas.
Como foi o começo da G?
Eu trabalho no mercado de revista há quase 30 anos. Fiquei 20 anos na Abril, e passei por quase tudo que você imaginar. Passei por quadrinhos, revistas infantis, populares. Fiquei 8 anos no mercado de revista popular como a Contigo, Boa Forma . Eu sempre gostei mais de revistas populares, com capas chamativas. Aí quando eu sai da Abril, eu, o Otávio Mesquita e o Ângelo Rossi compramos a revista Sexy . Isso faz uns 12 anos. Com a Sexy já tínhamos toda uma estrutura de fotógrafo, produção para a nudez. E eu sempre tive vontade de lançar uma revista de homens, para gays.
Mas como que foi a transição da Sexy para a G ?
Nós compramos a Sexy e dois anos depois nós lançamos a G . Éramos nós três ainda [Ana Fadigas, Ângelo Rossi e Otávio Mesquita]. A G começou chamando Banana Louca , tiveram cinco edições com esse nome. Até que eu descobri que essa marca já estava na Internet e tinha outros donos. Eu preferi que a revista fizesse uma carreira solo chamando G Magazine e sendo só da editora, sem os sócios que eram gays que não saiam do armário, não assinavam, não faziam nada.
E como foi a aceitação inicial da revista?
O que eu notei quando lançamos a revista é que não existia jornalista para escrever a revista, só pseudônimo. Então eu vi que tinha que assinar a revista com o meu nome porque senão não iria existir. Eu não sou conhecida do público, mas era conhecida no meio de revista. Então eu comecei assinando o editorial da revista. Parece incrível mas há 10 anos era muito diferente. Hoje é politicamente correto aceitar. Ou seja, é politicamente incorreto ser preconceituoso apesar do preconceito existir. Nas primeiras edições, os jornaleiros não queriam aceitar a revista.
E os anúncios?
Anúncios? No início não tínhamos nem vendedor praticamente. O pessoal da própria Sexy é que vendia para saunas, boates, vendiam para anunciantes bem direcionados. Para você ter anúncio de perfume, como hoje a gente tem, demora anos e anos e anos.
Como foi o ensaio da primeira edição?
A primeira revista veio carregada de preconceito, até meu. Por exemplo, no ensaio do primeiro homem nú eu falei: 'não, pênis ereto não! Vai chocar muito'. Mas eu fui percebendo que se a gente entra no segmento tem que fazer do jeito que ele é.
Com quem foi o primeiro ensaio?
Eu não lembro os primeiros. Mas o primeiro famoso foi o Mateus Carrieri que mudou a vida da revista.
Você participou do primeiro ensaio?
Não, eu nunca participei. Se eu participasse eu estragaria tudo, ia querer dar palpite: 'põe a bunda para lá, põe a bunda para cá!'.
É mais difícil fazer o nu masculino porque precisa de ereção?
Pois é, nas primeiras vezes eu tinha sensação de que eu estava fazendo uma revista mais para mulher, apesar da minha ligação com esse universo gay ser muito forte. O pai dos meus filhos é gay, então eu tinha uma ligação carinhosa. Mas com o tempo eu entendi que pinto é pinto e é para ser duro.
É difícil negociar com famosos?
A história foi andando normalmente. O que a gente sonhava? Ter um famoso, lógico. Então quando surgiu o Mateus Carrieri, quando ele fez o contato com a gente, pagamos um cachê que logicamente era maior do que o normal. Mas a história dele é curiosa porque ele acabou sendo chamado para fazer uma novela e nos pediu que guardasse o ensaio. Nós concordamos com isso e guardamos o ensaio mais de um ano para ele poder fazer parte da novela e não ser cortado. Nesse tempo, o Mateus estourou na mídia e ficou famoso, então era uma curiosidade incrível: 'como que o Mateus Carrieri sai nu e ainda com ereção?'.
E BBB, vocês também fizeram alguns.
BBB é muito legal e fizemos vários. Alguns a própria Globo proibia. A mulher pode o homem não, isso até hoje.
Ficam se vangloriando de colocar os gays na novela mas proíbem...
Proíbem porque o cara vai sair numa revista gay.
Mas ser gay já não é mais um estigma de quem posa? O Vampeta posou...
Na área de futebol eles são muito livres. Mas eu quis conversar com o Vampeta quando ele fechou o contrato porque ele era o primeiro jogador de futebol. Eu falei pra ele: 'olha, você tem idéia do que é sair nessa revista? Você joga no Corinthians. E se por acaso o estádio começar a te chamar de bicha, como é que você vai reagir?'. E ele falou: 'você vai me desculpar, mas eu morei na Holanda, eu tenho minha cabeça completamente feita, eu sou hetero, se fosse gay não teria problema, mas não sou. Eu não tenho problema nenhum, você pode ficar tranqüila com isso'.
Quais foram os melhores e os piores momentos da G?
O grande momento foi o ano que o Vampeta posou. Foi um ano com uma tiragem acima de 100 mil e vendas altas também. Hoje o mercado de revista é bem menor, e a G acompanhou essa saída. Mas ela tem leitores fiéis. Temos quase 3 mil assinantes. E no site temos muito mais. O site é pago e é parceiro do UOL. Eles me pagam para eu manter o site lá e, mesmo assim, eu vendo assinaturas para não assinantes do UOL.
O assinante da Internet não é o mesmo que compra?
Não. Por enquanto são dois assinantes diferentes. Quanto mais a Internet crescer a revista tem que encontrar um foco.
No site tem ensaios nus também?
Tem e são outros. A gente faz o site interirinho, ele é enorme. Em termos de número, hoje o site é muito maior do que a revista, mas ele só existe por causa da marca da revista.
E como que está, atualmente, a venda em banca?
A média de tiragem é 50 mil. Dependendo do modelo que está na capa a tiragem varia entre 40 mil e 60 mil.
Então hoje se você quiser, em termos de número, você vê hoje o site é muito maior do que a revista mas ele só existe por causa da marca da revista.
A G foi acompanhando o mercado sair do armário. Como foi isso?
A G fez parte dessa saída do armário fazendo o trabalho editorial que é absolutamente militante. Nossa intenção é fazer com que as pessoas saiam do armário.
Para trabalhar em revista gay precisa ser gay?
Eu não sou gay, mas sou extremamente simpatizante, estou aliada à causa.
Alguém na redação precisa ser gay?
Na minha opinião, em algumas áreas não teria o menor sentido ter um heterossexual, por exemplo, um editor-chefe. Agora na administração, tanto faz. Aqui tem lésbica, tem gay, hetero, pansexual, trissexual, bissexual.
O Thomaz Souto Corrêa, numa entrevista para a Revista IMPRENSA, comentou que tinha um projeto de uma revista gay na Abril.
Ela tem agora, mas antes não tinha. Era para sair em 2007, mas agora deve sair em 2008. Tomara que não saia de dentro do armário.
Onde são feitas as fotos? No estúdio ou vocês escolhem ambientes externos?
Isso depende. Às vezes é na praia, às vezes é em estúdio, às vezes é numa locação, numa casa, num sítio. Depende do modelo, depende do fotógrafo.
Já aconteceu de algum modelo não ter ereção?
Nossa! Já aconteceu da gente ficar uma semana tentando.
E como faz nesse caso?
Você imagina...
Mas qual é o segredo?
Olha, não sei. Não me pergunte, mas nas últimas conseqüências eles usam Viagra. É muito ruim você usar porque o ensaio fica único. E o público gosta de ver todas as fases da ereção. Já teve de tudo, mas eu nunca assisti, não quero assistir e não quero ser testemunha de nenhuma dificuldade dessa porque eu ficaria muito nervosa.
Vocês já pensaram em lançar outras revistas para outros públicos gays?
Já muito. Tínhamos a Lolitos que foi uma revista que teve muito sucesso, que é voltada para os homens que gostam dos mais menininhos. Era uma revista difícil de fazer porque você resvala no menor de idade. Agora vamos lançar um site novo que chama Lolitos. Dá muito trabalho porque você precisa ter carteira de identidade, gênero, número e grau e rostinhos pequenos, novinhos. Outra revista que eu gostaria muito de ter era de gays ursos, que são os "bears", os mais gordinhos, mas bem másculos, desarrumadões, machões. Os bears americanos são bem assim, andam de moto, cabeludos e tal. Mas já nós já chegamos a ter umas cinco revistas: Transex, Lolitos, Top Secret, Premium, Fotonovela gay.
Você nunca pensou em fazer uma revista pornô?
Já fiz. A fotonovela era.
Você sentiu que o governo Lula botou o assunto da diversidade sexual mais em pauta?
O governo do PT sempre foi mais friendly mesmo. Começou com a Martha que lançou o primeiro projeto de parceria civil. Mas o governo atual tem mais militantes, mais ativistas do que os outros, entendeu? Não é que seja do PT, mas é um governo mais aberto.
Mas o partido mas engajado é o PSOL, né?
Nessa área de GLS? Ainda é o PT.
Os evangélicos são mais tolerantes?
Não. Eles toleram o gay, mas desde que ele não se manifeste sexualmente com nenhum homem. Mas existe uma coisa da religião por trás ainda. Essa é uma grande dor do gay, porque não ser aceito pelo seu Deus é uma coisa bem complicada.
Veja também:
-
-
-





