Especial: João Silvério Trevisan conta a história das revistas gays no Brasil

Especial: João Silvério Trevisan conta a história das revistas gays no Brasil

Atualizado em 10/12/2007 às 10:12, por Ana Ignácio.

Por

João Silvério Trevisan é ensaísta, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema. Nos anos 70 foi um dos fundadores e editores do antológico jornal Lampião, feito para o público gay. Um dos mais credenciados conhecedores da história do mercado editorial gay brasileiro, Trevisan deu a seguinte entrevista para IMPRENSA.



Qual era a linha editorial do Lampião da Esquina?
Foi a primeira publicação gay do Brasil e circulou entre 1978 e 1981. Fizemos 37 números. Era um jornal mensal, da imprensa alternativa, com distribuição muito boa de norte a sul do país. Lampião não tratava só de temática gay. Tinha feminismo, racismo, ecologia. Abríamos espaço para tudo aquilo que a esquerda da época considerava temas menores, porque a grande pauta prioritária era a luta proletária. Estávamos duplamente à margem da sociedade: a margem da direita e da esquerda. No Rio, quem fazia o jornal era o Aguinaldo Silva, Francisco Bittencourt e Adão Acosta. Em São Paulo era eu e o Darcy Penteado.

Como nasceu o projeto?
A idéia surgiu com a vinda de um jornalista americano, Winston Leyland, que tinha um jornal voltado para gays, o Gay Sunshine. Fizemos uma reunião para receber o Wyston. Estávamos eu, Aguinaldo (Silva) e Darcy (Penteado) e surgiu a idéia, ainda no começo de 78. Logo a coisa engrenou e iniciamos o jornal. O número zero saiu em abril de 78 e já teve problema com a censura. O ministro Armando Falcão pediu um inquérito com base na lei da imprensa em função de uma matéria que fiz sobre o Celso Curi.

Como foi a aceitação do jornal?
Era mais ou menos como hoje. Se saía um gostosão na capa vendia mais, se não, vendia menos. O número que mais vendeu foi com uma matéria sobre masturbação. E o que menos vendeu foi sobre o homossexualismo em Cuba. Os leitores querem apelo sexual, é como se essas publicações fossem válvulas de escape. Muita gente não comprava o Lampiãocom medo de pedir um jornal de veado. O jornal ficava num canto da banca.

Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas pelo Lampião?

Nós tivemos problemas com grupos paramilitares. O Lampião foi incluindo numa lista e algumas bancas foram bombardeadas como uma forma de assustar e atrapalhar as vendas da imprensa alternativa. Então muitas bancas não queriam vender por conta das explosões. Quando os paramilitares explodiam, deixavam um folheto avisando que se continuassem vendendo imprensa alternativa, aquilo continuaria a acontecendo. Tivemos, também, muito problema com a esquerda, que se manteve em silêncio. Fizemos uma entrevista no Lampião com o Lula, na qual ele dizia que não existia homossexual na classe operária. Foi a maior confusão por causa disso. Aconteceram protestos de homossexuais da classe operária. A esquerda sempre foi muito ortodoxa, pelo menos até o período da ditadura.

"Estávamos duplamente à margem da sociedade: a margem da direita e da esquerda"

Como o jornal acabou?
Fui eu que pressionei para o jornal fechar. O Lampião começou a atender as necessidades do publico de maneira apelativa. Mas eu não queria um Notícia Populares para veado. Achei melhor fechar. O Aguinaldo Silva tentou, em seguida, montar outra revista, a Play Gay, que durou dois números. Tinha que ter apelo, sensacionalismo, para vender. Começaram a aparecer capas com duplo sentido, com nível baixo. Apareciam coisas do tipo: "fulano comeu 3 e queria mais 4". Nosso projeto inicial era outro. Boa parte da geração de homossexuais se formou através do Lampião. As primeiras notas relacionadas com os direitos homossexuais fomos nós que demos, de cara limpa.

Depois do Lampião, quais foram as outras publicações gays que surgiram no Brasil?
Foram feitas várias tentativas, em vários períodos. Em geral, elas não passaram dos primeiros números. A mais notável foi a revista Sui Generis, na década de 90, que não apresentava nu e sexo explícito. Ela se destacava por um design muito elegante. Mas sofreu do mesmo problema de sempre: a inexistência de publicidade. A Sui Generis tinha um grande número de leitores. Até hoje existe gente que tem saudade dela. Teve um número que foi escandalosamente censurado por apresentar, na capa, um close de dois rapazes se beijando. Foi para as bancas envolta num plástico preto. Como você vai vender uma revista, se não pode sequer ver a capa? Dá vontade de rir, mas é verdade.

Quais são os motivos para que revistas lésbicas durem tão pouco?
Não sei responder a essa pergunta, como nunca soube entender porque tem sido mais difícil para as lésbicas se organizarem em torno dos seus direitos. Nos tempos do Lampião, entre as lésbicas consultadas, não conseguimos encontrar uma única que assumisse publicamente sua homossexualidade e topasse entrar na editoria do jornal. Nos tempos do grupo Somos, em São Paulo (também na década de 70, como o Lampião), tivemos a maior dificuldade para agregar mulheres. Logo depois que isso aconteceu, as lésbicas acharam melhor saírem para criar um grupo à parte. Esse segregacionismo que parece dominar a militância lésbica historicamente é talvez o maior responsável pelo seu isolamento, o que dificulta também a sobrevivência das revistas. Mas esse é um motivo apenas parcial.

São novas revistas gays (Júnior, DOM, Sobre Ellass), uma agência de publicidade (Seu Expedito). Podemos afirmar que é um boom no mercado editorial gay? É um momento propício para esse crescimento?
Com minha experiência de vida, não tenho nenhum motivo para acreditar em boom do mercado editorial gay, atualmente. Houve outras épocas que prometiam o mesmo, e tudo abortou. No final da década de 90, a editora Record lançou uma coleção, a "Contraluz", que privilegiava a temática homossexual, mas foi desativada por falta de leitores. Algo parecido aconteceu com a Editora GLS, que sobrevive de modo muito marginal e tênue. Assim também as revistas: além da ausência de uma publicidade consistente, o número de leitores é muito pequeno. Há um problema endêmico na comunidade homossexual brasileira que é a dificuldade de se assumir publicamente de um modo natural. Então, acaba-se tendo um grupo de consumidores muito reduzido e, ainda assim, muito estereotipado em termos de gostos. Quando é preciso visibilidade política, deve-se fazer um esforço gigantesco para isso acontecer. Acho que um dos nossos problemas graves é um entroncamento com a questão de classe. A parte mais visível da população homossexual no Brasil ainda é de classe média. No fundo, sequer conhecemos o que significa uma "comunidade homossexual" brasileira que envolva as periferias e o interior do País. Por sua vez, a militância homossexual sempre foi e parece continuar sendo basicamente um movimento de classe média, voltado para a classe média, com raríssimas exceções. É nesse sentido, que acho as paradas GLBT importantíssimas, pois apontam para uma mudança de mentalidade. Mas tal mudança pertence a um futuro incerto.

Já leu a revista Junior, a Dom? O que acha dessas revistas?
Ainda não li nenhuma das duas. Mas, pelo que notei, suspeito que continuam sendo revistas de apelo eminentemente chique e de classe média. Posso estar enganado, mas além do aspecto gráfico mais caprichado, não parecem apresentar nada de novo no horizonte.

Veja também:

-
-
-