Especial: Fogo cruzado
Especial: Fogo cruzado
Fotos: Sergio Huoliver, Flávio Florido, Jorge Aráujo
Na montagem, soldado brasileiro da missão de paz da ONU no Haiti observa a favela da Rocinha, palco da ocupação do Exército brasileiro em busca de armas roubadas de um quartel do Rio
Se, como cantou Gilberto Gil, o Haiti é mesmo aqui, a matéria que você vai ler nas próximas páginas procura, a partir da cobertura de dois fatos distin tos, localizar a aproximação entre a Porto Príncipe (sitiada e sob intervenção das tropas de paz da Organização das Nações Unidas) e a Rio de Janeiro em que as complexas relações do tráfico de drogas com o crime organizado se tornam um desafio para os jornalistas. Isso, a partir do olhar de dois repórteres: Raphael Gomide, da sucursal da Folha de S.Paulo no Rio de Janeiro e do fotógrafo Jorge Araújo, também da Folha , enviado especial para cobrir, junto com o colega Fabiano Maisonnave, as eleições presidenciais no Haiti, em fevereiro.
As duas coberturas são exemplos de que, ao contrário do que vem sendo pregado pelos profetas do pessimismo, a reportagem não morreu.
Jornalistas, ao subirem o morro, são a mais cristalina evidência da importância da reportagem na compreensão pública dos meandros que desenham o narcotráfico carioca. Desde Tim Lopes, os veículos passaram a agir com mais cautela, mas leitores e espectadores esperam informações sólidas da mídia e respostas ágeis do poder público. Essa operação do Exército, particularmente, em ofensiva ao desaparecimento das armas de um quartel carioca, foi atípica. Em 1994, quando o Exército também subiu os morros, os jornalistas não tiveram autorização para cobrir a ação militar. Desta vez, subiram o morro. E levaram consigo as perguntas que a sociedade deseja ver respondidas. O que se passa, afinal, no tráfico?
O repórter Raphael Gomide, em um furo de reportagem digno de cinema, tinha a informação de uma fonte confiável, mas não a certeza de que o dia seguinte confirmaria sua versão de que Exército e traficantes, muitas vezes, estão do mesmo lado. A redação apostou na publicação e acertou. Essa história foi contada, em IMPRENSA, por Pedro Venceslau.
O Haiti, tão longe, mostrou-se mais perto pelas lentes de Araújo. Não somente porque ali estão tropas brasileiras em missão de paz pela ONU, mas, sobretudo, porque as condições de miséria e falta de dignidade dos haitianos é algo que as periferias dos grandes centros urbanos brasileiros conhecem muito bem. Inclusive alguns dos morros cariocas, que, desamparados pelo Estado, são acolhidos pela única alternativa viável de sobrevivência, uma ajuda que vem, infelizmente, pelas mãos dos traficantes.
A cobertura de Araújo e de Maisonnave das eleições tentou entender, para além dos despachos das agências de notícias, a situação política do Haiti. As fotografias de Araújo mostram uma cidade em explosão. A tensão, apesar das forças de paz, permanece. As ruas são campos de uma guerrilha formada por soldados que se viram nessa condição depois de tanto tempo desamparados pelo Estado. A eleição, que, em geral, é uma festa da democracia, momento em que o povo vê em suas mãos as alternativas de esperança, foi uma batalha a céu aberto. A solução não veio com o voto. A solução não virá tão cedo, lamenta Araújo, na reportagem de Denise Moraes.
Ir à rua - sejam as estreitas vielas dos morros ou as lamacentas ruas de Porto Príncipe - é um exercício de coragem. Não somente pelas condições precárias dos dois lugares, mas porque, sobretudo, representa a disposição em tornar pública uma realidade com a qual nem todos estão dispostos a travar contato. Ainda há repórteres. A reportagem não morreu.
Leia matéria completa na edição 211 (abril) de IMPRENSA
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Coronel Fernando da Graça Lemos, assessor de imprensa do Comando Militar do Leste :






