Especial: 200 anos após o lançamento da primeira revista no Brasil, IMPRENSA faz edição sobre o veículo

200 anos após o lançamento da primeira revista no Brasil, o mercado se adequa às novas tecnologias em busca de um novo público sedento por i

Atualizado em 09/01/2012 às 12:01, por Nelson Varón Cadena* e  colaboração especial à IMPRENSA.

Quatro mil títulos depois

nformação e entretenimento

Uma das mídias de massa mais populares do Brasil, a revista nasceu no país em um lugar dos mais inusitados. Nada de reunião de intelectuais da época ou uma reação a qualquer tipo de reforma ou sistema político. Há 200 anos, em janeiro de 1812, a primeira revista nacional foi editada por um detento, no Nordeste. Diogo Soares da Silva de Bivar, de 24 anos, preso político que aportou na Bahia para cumprir pena nas masmorras da Fortaleza de São Pedro, redigiu As Variedades de dentro de sua cela.

O primeiro número tinha 30 páginas de conteúdo e 4 de referências, incluindo a capa. O segundo, lançado dois meses depois, continha 66 páginas. Bivar era um rapaz de vasta cultura, militante maçon, todo o entusiasmo do mundo e alguma influência ou padrinho fora da prisão. De outra forma, não teria conseguido editar a revista “com as licenças necessárias”, ou seja, a aprovação da censura, conforme consta no rodapé de capa da estreia.

De lá para cá, as revistas traçaram uma densa história e – de acordo com dados da Associação Nacional de Revistas (Aner) – ainda com muito fôlego para avançar os anos. Só no primeiro semestre de 2011 as vendas no país cresceram 5,1%, alcançando 440,6 milhões de unidades vendidas no ano. São cerca de 4.705 títulos nas bancas brasileiras, que atingem a média de 30 milhões de pessoas.

Se a situação não é perfeita para os editores, já que a participação publicitária não aumenta na velocidade do número de publicações e ainda é baixa a relação entre cidadãos do país e exemplares vendidos, ela é infinitamente melhor do que a que encontrou Bivar na fundação de As Variedades, que não era clandestina nem tinha propósitos políticos declarados. Sua “missão” era a de disseminar cultura, por meio de longos artigos e transcrições de outras publicações europeias similares.

A baixa circulação, cerca de 60 exemplares, e a falta de leitores em uma Bahia que registrava índice de analfabetismo superior a 90% acabaram por inviabilizar a continuidade da publicação, que morreu no mesmo ano de seu nascimento. A morte prematura, no entanto, não atrapalhou a disseminação da ideia e o desenvolvimento do mercado revisteiro no Brasil.

Muito se especula sobre como Bivar conseguiu dar vida a seu projeto. No mínimo, devia ter alguma biblioteca à sua disposição, já que não seria possível buscar na memória tantas referências bibliográficas, como as que aparecem nas páginas de sua publicação. Há, ainda, a suspeita de que o revisteiro teria acesso a documentos oficiais, já que, além da primeira revista do país, foi dele a autoria do segundo Almanaque brasileiro, que circulou na Bahia em dezembro de 1811, com capa de referência a 1812.

O Almanaque relacionava funcionários públicos de todas as repartições e instâncias de poder e também das instâncias militar e eclesiástica. Claro que, para ser editado, dependia de uma consulta a documentos oficiais. A conclusão histórica é de que Bivar deveria ter, portanto, privilégios na prisão, que permitiriam que ele deixasse a cadeia para que pudesse consultar publicações estrangeiras, livros e documentos. Ainda que haja tal dúvida, é curioso analisar que a mídia que hoje se leva para toda a parte teve seu início atrás das grades.

Crédito:Gus Morais

JORNAL OU REVISTA?
Em 1812, era um desafio diferenciar uma revista de um periódico. Ambos tinham o mesmo formato, conhecido por “in-folio”, o equivalente a meio ofício de hoje. Tanto jornal quanto revista tinham entre 19 cm a 22 cm de largura por 12 cm a 14 cm de altura. O número de páginas - quatro para os jornais e indeterminado para as revistas - também não era uma referência determinante. O jornal de Hipólito da Costa, o Correio Braziliense, assim como outras folhas europeias, O Investigador Português, por exemplo, tinham dezenas e até mais de uma centena de páginas. A periodicidade também não era o filtro: muitos periódicos tinham circulação mensal.

Então como podemos afirmar que Variedades era mesmo uma revista? A começar pelo nome que se reporta à ideia de assuntos variados reunidos numa só publicação. Outra característica importante foi a semelhança com a primeira revista do mundo, a Edificantes Discussões Mensais, editada em Hamburgo, com a proposta de ser uma evolução do livro, com o diferencial da diversidade.

A primeira revista do Brasil tinha o objetivo de ser uma revista literária, mas o seu editorial comportava, dentro do tema, resumos de viagens, poesia, anedotas e outros itens. Tinha todas as referências do que mais tarde se convencionou ser um magazine, sinônimo de revista, denominação americana para o conceito de prateleira de assuntos.

Por pouco, no entanto, Bivar não perde o título de pioneiro. Hipólito da Costa, quatro anos antes, cogitara também fazer uma revista. Seu jornal, Correio Braziliense, como grafa a história, também tinha o batismo de Armazém Literário. Marcado com o jornal, fica claro que sua visão também alcançava a variedade de um magazine.

INFLUÊNCIA ESTRANGEIRA
Os brasileiros aprenderam a ler revistas no convés dos navios e nos portos do Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), ou Recife (PE), onde aportavam as embarcações contendo centenas de caixotes com mercadorias variadas e as malas com revistas francesas, inglesas, portuguesas, espanholas e italianas. No tempo de Variedades (1812), não se tem o registro da circulação de revistas estrangeiras no Brasil, apenas periódicos da Europa e da América Latina, muitos deles distribuídos por meio dos malotes diplomáticos.

No entanto, na segunda metade do século XIX, as revistas estrangeiras estavam em toda a parte, sobretudo nas residências das famílias que tinham alguma cultura, sabiam ler, escrever e apreciavam as novidades do mundo e as revistas ilustradas. Primeiro chegaram a inglesa The Ilustration, a portuguesa Ilustração Portuguesa e a francesa L’ Ilustration, esta última influenciou o Barão de Tefé a lançar a Revista da Semana (1900-1959), primeira grande revista semanal do Brasil. Depois vieram as italianas Il Secolo XX e La Lettura, a inglesa The Spere, as espanholas A Vida Galante e La Esfera e as francesas Le Petit Journal, Lectures Pour Tous e Revue des Modes. Já nos anos 1920, chegou a norte-americana Time, que inspirou O Cruzeiro (1928) nos seus primórdios. Mais tarde, a revista de Assis Chateaubriand assumiria o padrão da Life, que inspirou a Manchete, em 1952.

O Malho (1902) teve inspiração francesa no Le Charivari, assim como Careta. Os franceses venderam para o mercado brasileiro as franquias de Lectures Por Tous, Revue Dês Modes e Jê Sais Tout, aqui editadas, a partir de 1917, com o nome de Leitura para Todos, Revista da Moda e Eu Sei Tudo. Mais tarde, chegaram ao país as revistas de moda propriamente ditas: a alemã Burda para o público feminino, obrigatória nos saraus de costura de fim de tarde, e a americana Vogue, com proposta editorial mais abrangente e que também teve uma franquia no Brasil a partir de 1975.

A americana Esquire, ícone do new journalism, começou a circular no país nos anos 1960 e logo seria uma das referências de Realidade (1966-1976). A Time americana, que já circulava no Brasil antes e tinha quase sempre uma seção sobre o país, inspirava Veja em 1968. A influência das revistas americanas tornava-se maior a partir dos anos 1950. Multiplicaram-se as segmentadas. Vieram as infantis, as de moda, as de negócios, as eróticas. E, com elas, mais franquias, a da Playboy, por exemplo, que a partir de 1975 passou a ter uma edição brasileira, uma das franquias mais bem-sucedidas do mundo.

DO PRELO À RETROGRAVURA
A primeira e a segunda revistas brasileiras – Variedades e O Patriota – foram impressas nos mesmos prelos de madeira que imprimiam jornais, usando o mesmo papel e formato. Eram revistas de textos, sem recursos gráficos de imagem a não ser as vinhetas de capa. No caso específico de Variedades, o símbolo da maçonaria. A encadernação era precária, com a montagem dos cadernos de quatro páginas, um encartado no outro, sem grampo nem cola para fixar.

No último quarto do século XIX, é que as revistas ganharam recursos de imagem por meio da gravação da matriz em pedra, a popular litografia. E já na virada do século, com a matriz em metal, ou seja, a zincografia. A grande virada aconteceu em 1900, quando o Barão de Tefé trouxe de Paris máquinas de fotogravura, clicheria completa e impressoras mecânicas. Além disso, comprou máquinas fotográficas e contratou um especialista, Monsieur Charles, para lançar a Revista da Semana, já impressa em offset, assim como O Malho, a partir de 1902.

A impressão em rotogravura chegou com O Cruzeiro, em 1928, inicialmente em preto e branco e, a partir de 1930, em cores. Assis Chateaubriand adquiriu na Alemanha uma rotativa de cinco unidades, sistema de policromia, na época, sem similar na América Latina. A rotogravura significou um grande avanço para os editores de revistas. As publicações ganhavam qualidade, nitidez nas imagens e possibilitava, enfim, grandes tiragens.

De lá para a frente, o mercado entrou em franco crescimento. Novos títulos são lançados mensalmente e o grande desafio atual das editoras é fazer com que a mídia se adapte às novas tecnologias, conquiste mais leitores e abocanhe uma fatia mais significativa do bolo publicitário. Se levada em conta a variedade de títulos e segmentos, bem como o número de leitores ainda não atingidos, o caminho a ser percorrido ainda é longo e a sobrevida do formato está garantida, porque não, por mais 200 anos.

*Nelson Varón Cadena é jornalista, publicitário, pesquisador de comunicação e idealizador do “Almanaque da Comunicação”.

Matéria publicada na edição de jan/fev (275) da Revista IMPRENSA