Espaço aberto

Espaço aberto

Atualizado em 08/07/2010 às 18:07, por Luiz Gustavo Pacete e  da equipe de estagiários.

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Em 1º de junho a IMPRENSA Editorial realizou o III Fórum Liberdade de Imprensa & Democracia no auditório Ruth Cardoso na FIESP, em São Paulo. O objetivo do evento foi debater a liberdade de expressão na América Latina e no mundo. Entre os convidados deste ano (veja neste link o hot site do evento), esteve o jornalista e ex-presidente da Bolívia, Carlos D. Mesa Gisbert, vencedor do prêmio internacional Rey de España, que atuou nos jornais Ultima Hora e no canal 6 América. Ele falou com a revista IMPRENSA durante a cobertura sobre o evento, publicada na edição de julho da revista (nº 258, pág. 70). Confira abaixo trechos da entrevista em texto e áudio que não foram publicados no impresso.

Revista IMPRENSA - Como foi o processo de chegada à presidência e a aceitação da opinião pública?
Carlos Mesa - Quando eu aceitei a vice-presidência jamais me passou pela cabeça ser presidente um ano depois. Em 2003 a Bolívia viveu uma crise política extremamente grave, fortes situações de violência, setores contrários aos políticos tradicionais que pressionaram os setores democráticos. Minha decisão de não compactuar com o governo de Lozada (de quem eu era vice) fez com que eu fosse presidente por sucessão constitucional. Propus uma assembleia constituinte, por isso não concordei em compactuar. Em minha gestão tive um respeito profundo pelos meios de comunicação, jamais em meu mandato critiquei, pressionei ou coloquei restrições de publicidade de Estado, tampouco enviei pessoas para pressionar. Mas acredito que grande parte dos veículos foi responsável por minha renúncia em 2005.

IMPRENSA - Como a imprensa o tratou naquele momento?
Mesa - No começo foi uma lua de mel, a imprensa me via com bons olhos e o fato de eu ter sido jornalista contribuiu. Minha imagem era conhecida e tinha crédito. Mas progressivamente os meios foram se alinhando de forma partidária e ideológica, a mídia havia apoiado o partido do presidente Lozada por interesse empresarial de grandes grupos. Meios que representavam esses grupos começaram a se alinhar em oposição ao governo porque consideravam que tinham que defender seus interesses, eles me viram como se eu estivesse privilegiando setores importantes e dividindo o país. Alguns meios de televisão de oposição foram implacáveis comigo.

IMPRENSA - Por qual trabalho ganhou o prêmio Rei da Espanha?
Mesa - Eu cumpri 25 anos como jornalista e então foi um reconhecimento muito importante, o Rey de España. Junto com Manoel Espinosa produzi um documentário sobre a acusação de vínculos do governo com o narcotráfico de 1989 a 1993. Fizemos uma investigação bastante intensa, Contamos e mostramos vinculações sem graus espetaculares, porém creio que foi a seriedade com que fizemos o trabalho [que nos conferiu o prêmio].

IMPRENSA - E a segurança em relação a jornalistas? Violência faz parte da realidade da imprensa boliviana?
Mesa - Não pode ser comparado com outros países como México e Colômbia. Até agora estamos vivendo casos isolados, mas o exercício de violência contra os veículos é moderado. Quero dizer: ameaças de setores sociais que não davam entrevista a tais meios, jornalistas que são agredidos fisicamente ou golpeados, edifícios de emissoras atacados por gangues... Em 90% dos casos os jornalistas não correm riscos de morte, mas podem quebrar o braço ou destruir o material de trabalho. O presidente da república, em uma coletiva de imprensa, se referiu ao jornalista com nome e sobrenome e o afrontou por uma notícia publicada. Evo fez isso, chamou o jornalista, acusou-o em uma coletiva e disse que não iria permitir que o jornal tivesse publicado tal informação.

IMPRENSA - O que tem feito atualmente na Bolívia. Pensa em voltar à política?
Mesa - Sou colunista de jornais desde 1979 - [só] quando presidente deixei as colunas por razões que me pareciam incompatíveis. Tenho também uma fundação com projetos de direitos humanos e cidadania e vou publicar um livro chamado "Presidência Sitiada", uma memória do que foi meu governo. Apesar de escrever literatura, publiquei vários livros de história com meus pais. Sobre a possibilidade de voltar à política, entrar é fácil e sair e quase impossível. Creio que o horizonte de Evo é importante, não diria que não concorreria às eleições de 2015, mas neste momento meu espírito não está pra isso.

IMPRENSA - Como ex-chefe de Estado, qual sua opinião sobre as questões polêmicas envolvendo Brasil e Irã?
Mesa - Sabe que é complicado fazer um juízo de valor sobre determinado país... Eu sempre parti do princípio que um país é soberano para suas decisões diplomáticas e por decidir em que âmbito e situação vai intervir. O presidente Lula está contribuindo para uma distinção internacional e está fazendo uma aposta forte. E qual é essa aposta? Que o Brasil se transforme em um jogador de nível mundial, uma aposta que pode ganhar ou perder. Então eu creio que exista uma pergunta. O Brasil entra em discussões internacionais em que a America Latina nunca havia estado e tem seu dever com a campanha eleitoral e com a posição internacional. Isso nivela ou limita as possibilidades? São respostas difíceis de dar, mas eu entendo a lógica brasileira. Brasil está em um momento de transição histórica, de ser um protagonista que já ultrapassa o âmbito regional.

IMPRENSA - E acerca das relações da Bolívia com o Brasil, qual seu ponto de vista?
Mesa - Eu diria que o Brasil tem com a Bolívia, assim como com a América Latina, dois tipos de relação: a da atual proximidade de lula com Evo é boa. Eram ruins [durante o episódio da] nacionalização [das reservas de gás] da Petrobras, mas se recuperou. Existe uma intenção de Lula de respaldar o governo de Evo na medida em que este representa uma mudança política, porem existe algo mais importante. O Brasil olha as relações com a Bolívia e a America Latina em estratégia de longo prazo. Creio que o Brasil tem um projeto para América Latina positivo e integracionista, mas arriscado, porque o Brasil é muito grande. Conservar esse equilíbrio não vai ser fácil.

IMPRENSA - José Serra, candidato à presidência brasileira, fez uma declaração polêmica sobre o envolvimento do governo boliviano com os movimentos cocaleiros. O que o senhor diz a respeito?
Mesa - Do ponto de vista formal, o candidato Serra ficou na metade da declaração. Sugerir sua preocupação sobre o que o governo boliviano tem feito para combater o tráfico de drogas é uma coisa, mas ele foi mais longe e disse que era óbvio que havia cumplicidade do governo boliviano. Provavelmente Serra calculou a repercussão do que disse. Mas posso dizer que nenhum candidato ou presidente podem fazer afirmações desta natureza sem a existência de provas.

Crédito das fotos: Alf Ribeiro

Leia a matéria completa na edição 258 de IMPRENSA
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