"Escrever sobre anônimos é um barato porque eles têm menos amarras", diz Fred Melo Paiva

Ao longo de mais de uma década trabalhando com “grandes gurus do impresso”, como Nirlando Beirão e Ricardo Setti, o jornalista Fred Melo Paiva desenvolveu um estilo de narrativa que se tornou sua marca registrada.

Atualizado em 28/05/2014 às 11:05, por Danúbia Paraizo.

Nas redações do Estadão , Folha de S.Paulo , Playboy e Trip nos anos 2000, Paiva se tornou um dos representantes da nova geração do chamado new journalism, estilo marcado por textos mais trabalhados, um verdadeiro encontro entre a objetividade jornalística e a arte da literatura.
Com o recém-lançamento do livro “Bandido Raça Pura”, o jornalista revisita alguns de seus principais textos, publicando-os em forma de coletânea. São perfis de famosos, como Oscar Niemeyer e o jogador Ronaldo Nazário, e de ilustres desconhecidos, como o hippie que participou da ocupação da reitoria da USP, em 2007. “Era um personagem secundário ou terciário, não tinha importância à primeira vista, ninguém queria falar com ele, mas o modo de olhar e a maneira de escrever mudaram sua relevância”, lembra o escritor.

Crédito:Carol Quintanilha Fred Melo Paiva é também apresentador da série "O Infiltrado", no History Channel Ao contrário de textos com famosos, que correm o risco de caírem em clichês ou não apresentarem nada de realmente interessante, as reportagens com anônimos são um verdadeiro prato cheio para o jornalista. “Sempre gostei muito de escrever sobre desconhecidos, porque para justificar sua presença em um jornal, eles precisam ter algo sensacional para contar. Escrever sobre anônimos é um barato porque eles têm menos amarras e não fizeram media training ”.

Não menos importante, a coletânea também se dedica a textos que extrapolam o convencional, com perfis psicológicos de cães e até mesmo de urubus. Uma de suas histórias mais famosas nessa categoria é a do cão guia Boris, primeiro animal a entrar no metrô de São Paulo, depois de uma ação na justiça movida por sua dona, em 2006.

Os urubus Lodo, Sujeira e Carniça, da Paraíba, também ganharam as páginas da imprensa em um perfil publicado na Folha de S.Paulo, outra pérola que pode ser encontrada no livro “Bandido Raça Pura”. O texto que dá título ao livro, aliás, “é outra loucura completa”, nas palavras do próprio autor. “O texto traz as memórias póstumas de um pit bull que foi sacrificado”, define.

Concorrência desleal Crédito:Divulgação Livro tem como prefácio texto do jornalista Ricardo Setti Refletindo sobre o espaço das grandes reportagens diante do imediatismo que a internet impõe à notícia, Paiva, que também apresenta a série “O Infiltrado”, no canal a cabo History Channel, lamenta o pouco investimento em textos mais elaborados. “Hoje, essa crise do jornalismo impresso, a transformação que passa a comunicação, vitimou a grande reportagem”.

Segundo o profissional, a internet oferece atrativos que dividem a atenção do leitor, que com o acesso às redes sociais, recebem inúmeros compartilhamentos de informações. “E tudo isso em um ritmo frenético, o que te induz a uma leitura ansiosa, causando em muitos casos, déficit de atenção”.

Este é justamente o cenário oposto ao que exige a leitura de uma grande reportagem, defende o autor. “A paciência que você tem para transpor qualquer dificuldade na internet não dura três segundos. Já com um texto mais elaborado, a leitura exige uma transposição de dificuldades. Ele exige que o leitor supere certas passagens mais complexas, exige atenção”.

Apesar das ameaças, a grande reportagem permanece com espaço garantido no meio em que for, garante o jornalista. “Sempre vai haver uma demanda por uma história bem contada. Um belo texto tem seu lugar. Não acredito que a internet seja capaz de acabar com uma tradição tão antiga como a narrativa. O exercício de contar histórias é muito fundador de quem a gente é para morrer”.