Escolhida entre as vencedoras, Eliane Brum recebe troféu e homenagem na 12ª edição do "Troféu Mulher IMPRENSA"
“Cada vez que uma matéria ou artigo da imprensa se assemelha a uma denúncia de Facebook, o jornalismo desce um degrau a mais, rumo a irrelev
Por Fernanda Andrade, aluna da Fapcom
ância. E o jornalismo é importante demais para ser irrelevante”, assim afirma Eliane Brum em seu discurso, ao receber prêmio e homenagem, na 12ª edição do "Troféu Mulher IMPRENSA".
Ganhadora das categorias "Jornalista Independente" e "Repórter de Jornal" (por seu trabalho no El País ), nesta edição de 2017, Eliane demonstrou-se muito grata em seu discurso, que foi o primeiro dentre as ganhadoras, pela trajetória construída como jornalista ao longo de quase 30 anos, pela liberdade que o El País lhe dá desde 2013, pelas mulheres que ali estavam e por jornalistas que não desistem da apuração dos fatos de forma completa.
No palco da Sala Paschoal Carlos Magno, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, a autora de livros como O Olho da Rua – citado como o primeiro livro jornalístico lido pela também premiada Elisa Veeck (TV Vanguarda) – e A Vida que Ninguém Vê – com o qual ganhou o prêmio Jabuti em 2007 – ainda citou emocionada o caso de Rafael Braga, único preso das manifestações de junho de 2013, por carregar uma garrafa de Pinho Sol em sua mochila, e que no mês passado foi símbolo da luta pela visibilidade daqueles que sofrem com injustiças sociais e não tem espaço na mídia.
Em entrevista prévia à cerimônia de entrega dos prêmios, ao ser questionada sobre o que mudou após o reconhecimento de seu trabalho, não apenas de forma regional, como ocorria quando ela escrevia para o Zero Hora , para o reconhecimento nacional, Brum afirmou que seu jeito de fazer jornalismo mantém-se o mesmo: a jornalista continua checando informações de forma minuciosa, segue respeitando as pessoas e as palavras, persiste na escuta do contraditório. A diferença que Brum destaca é o crescimento do alcance de suas reportagens, com apoio da internet, mas mesmo assim reitera que “uma matéria não pode ser confundida com uma postagem em redes sociais”.
Ao ser questionada sobre seu sentimento acerca do prêmio e das várias áreas do jornalismo nas quais atua, a jornalista afirmou que é “apaixonada pela reportagem! Não é só o que eu faço, ela é também o que eu sou. Nesses últimos 30 anos como repórter eu me sinto habitada pelas pessoas que eu entrevistei e elas tecem minha vida”.
Em meio ao que retrata como "uma crise política, estética e de identidade", Brum ainda assim diz sentir orgulho de seu país, porém, reconhece que não é fácil ser uma jornalista mulher, em meio a pensamentos, atitudes e ambientes machistas. "É importante dizer que as (jornalistas) mulheres negras sofrem muito mais discriminação. Eu trabalhei por mais de 20 anos em redação e eu tive nesses anos uma colega negra apenas. Não é só descriminação de gênero, é também muito racismo", completa Eliane, que reforça, mais uma vez, que o Brasil e a imprensa só mudarão para melhor quando houverem mais mulheres negras e transexuais nas redações.
Ao final de seu discurso, Eliane parafraseou atriz e MC paulistana, Roberta Estrela D'alva: "Se a paz não for para todos, ela não será para ninguém".






