Escola de gente, por Silvia Bessa

Há pouco tempo abri minha caixa de correio eletrônico e ela estava cheia de mensagens emotivas de leitores. Um deles falava da saudade da in

Atualizado em 15/10/2014 às 12:10, por Silvia Bessa.

Crédito:Léo Garbin

fância de forma genérica; outro, do filho; um terceiro não deu explicações. Confidenciou, no entanto, que eu o fiz aumentar a saudade guardada com ele. Fiquei até curiosa a respeito de qual saudade ele falava, mas o cidadão encerrou o contato comigo com um “obrigado”. Compreendi. Era sentimento dos mais íntimos; não tinha motivos para ser compartilhado.


Bem perto de encerrar o dia, cliquei uma última vez para ajustar pendências numa tentativa de me antecipar na corrida em busca dos leões do resto da semana e me deparei com alguém que dizia o seguinte: “Parabéns pelo seu texto. Meu pai faleceu há seis meses e em todo este período nada foi tão suficientemente reconfortante que sua Cristiane”. Eu tinha escrito um artigo de exatas 57 linhas corridas tratando de algo subjetivo e comum, da saudade. Narrava a história real de uma menina de 11 anos daqui de Pernambuco que - perto de morrer - disse ao seu médico “Saudade, tio, é o amor que fica”. Parei diante do que li do leitor sobre o “reconforto” e enchi meus olhos de lágrimas.


Impressões e comentários, simples que sejam, é o melhor presente que um jornalista pode receber. É oxigênio para a rotina e prêmio para a carreira. E é raro quando é escrito porque requer não só uma crítica do leitor (positiva ou negativa) como a disposição dele de sentar diante de um computador para se dirigir ao redator desconhecido. Talvez pela sensação de que a matéria cumpriu com eficiência a sua função fiquei tão satisfeita com a mensagem do homem. Repliquei o e-mail dele assim: “Meu caro, a história contada é linda por si (...) Fico grata demais pelo comentário. Seu depoimento me faz crer que em jornal diário ainda há espaço para emoção”.


Contatos como esses nos dão a certeza de que precisamos cada dia mais de matérias humanizadas. Quando digo humanizar não me refiro a uma frase sem graça pinçada de uma entrevista inexpressiva de um personagem ouvido apenas para corroborar a teoria da matéria, o fenômeno ou a pesquisa. Nunca vi detalhes de pesquisas que tratem do crescente interesse do leitor para matérias com histórias que se aproximem com a do leitor. Desconfio, contudo, que existam muitas. Só assim, por exemplo, se compreende a busca das propagandas eleitorais por gente real dando depoimentos em seus ambientes naturais sobre o que pensam e desejam do futuro governante.


Já na faculdade a gente ouve falar sobre humanização de matérias. Alguém, então, precisa me explicar por que tem dias que não encontro uma matéria com a qual me identifico nos jornais, revistas e TVs. Só acho que é porque ainda estamos muito, muito distantes dos sentimentos e da expectativa das pessoas. Lidamos com gente e ainda temos muito a aprender.