Era digital ressaltou o papel e a relevância do jornalismo, apontam profissionais em debate

O repórter e colunista de moda e celebridades Bruno Astuto sabe como é ser jornalista na era digital. Ele está acostumado a fazer revistas impressas, sites, televisão e redes sociais, simultaneamente, com diferentes prazos e em boa parte das vezes sobre o mesmo tema.

Atualizado em 24/11/2015 às 16:11, por Jéssica Oliveira.

O jornalista André Lahóz, diretor de redação da Exame , também. Ele comanda as redações da revista impressa e do site Exame.com, lidando com as duas frentes diariamente.
Os dois participaram do 9º Fórum Aner de Revistas 2015 em São Paulo no painel "O papel do jornalista nas redações da era digital". Para eles, um lado dessa moeda é fascinante, o outro traz desafios e problemas que devem acompanhar o meio por bastante tempo.
Um dos pontos positivos da revolução digital seria permitir maior proximidade com os leitores, já que os sites praticamente acabaram com a necessidade de uma publicação semanal ou mensal segurar uma informação. Lahóz acredita que ela veio como aliada e não como inimiga. "O ambiente é muito rico, desafiador e complexo. Poder falar com seu leitor várias vezes ao longo do mês, da semana, ajuda. O contato com ele é muito maior. Do ponto de vista do conteúdo, é fascinante", disse.
Astuto fala com seu público o tempo e por várias mídias. Recentemente, ele teve que fazer cinco conteúdos sobre a morte da atriz Betty Lago para cinco veículos diferentes. Além de ter em mente a linguagem e público-alvo de cada um, em cada veículo ele escolheu um ponto dela para destacar: na Vogue , o seu lado de modelo, na TV Globo, as novelas. "Navegar nesses meios é natural para mim e só me acrescenta. É fascinante, uma revolução muito positiva", disse.
Outro item animador da balança seria dar ao jornalista a chance de se envolver mais com a produção, em vários formatos e plataformas, buscando as soluções que melhor sirvam ao conteúdo. Astuto disse que os jornalistas viraram "um pouco personagens" que podem transitar pelos meios. "Nós que escrevíamos ou atuávamos no bastidor temos que saber nos colocar na TV e bem."
Para ele, outro detalhe interessante dessa era é proximidade do meio impresso com a televisão, especialmente no quesito resposta do público. "No impresso a gente não tinha a audiência imediata do leitor. E vamos fazer um mea culpa, às vezes fazíamos jornalismo para o colega. O jornalismo digital ajudou muito nisso", disse.
Já o lado ruim disso, segundo Lahóz, seria o confronto com o dilema da audiência. Citando a Exame , ele disse comentou que há capas feitas porque acreditam que vão vender mais, outras porque precisam ser feitas, ainda que não sejam tão atraentes para o leitor. "Quando você para a internet o nome do jogo é a audiência. Essa é uma tensão que vai estar com a gente agora. É muito interessante por um lado, difícil por outro", comparou.
Eles também chamaram atenção para a importância do formato e do cuidado do jornalista com isso. Apesar de lembrarem que o vídeo tem crescido e deve ser melhor desenvolvido nas redações, os profissionais não acreditam que todas as redações e seus jornalistas devam apostar tudo nele.

"O vídeo é uma das soluções. Vamos colocar todos os jornalistas para fazer vídeo? Não. Tem que ver como fazer esse vídeo para uma audiência qualificada. O cuidado com o formato é um dos papeis do jornalista", afirmou Astuto. "Vai deslocar o cara que escreve maravilhosamente para fazer um vídeo que vai ficar ruim? Tem que saber quem vai ajudar nas diversas frentes", emendou Lahóz.
A dupla debateu ainda a necessidade de dar a notícia na hora, rapidamente, e ao longo do dia ir completando, atualizando o conteúdo para o leitor. Astuto exemplificou isso falando sobre uma de suas coberturas da Semana de Moda em Paris, quando estavam pensando em como dividir o conteúdo em várias mídias. "O que eu fiz? Primeiro no Instagram, porque o leitor quer a informação ali na hora, antes de abrir o site, depois no site, e por fim na revista", explicou. Apesar de todas as mudanças na profissão, eles ressaltaram que a essência do jornalismo não mudou e que seu papel acabou exacerbado na era digital. Eles acreditam que dar contexto, análise e explicar o mundo talvez nunca tenha sido tão relevante. "No futuro não vai ser Facebook nem Google que vão revelar corrupções, Lava Jato, Estado Islâmico... Precisamos, sim, de jornalistas que apurem", declarou Astuto. "Quem fizer o bom jornalismo vai ter o seu papel", concluiu Lahóz.