Epidemia do Narcisismo
Epidemia do Narcisismo
Atualizado em 17/03/2010 às 20:03, por
Silvia Dutra.
Vejo no jornal local uma notícia aparentemente desimportante, mas que na verdade é, na minha opinião, o retrato fiel de toda uma época e uma sociedade. Crystal Charles, uma moça de 24 anos, transformou num evento a libertação do namorado, Anthony Lee Sears, da prisão. Ela alugou uma limousine com quase 15 metros de extensão, encheu o carro de parentes, amigos e balões e foi buscar o namorado na porta da cadeia.
O caso aconteceu anteontem em Orlando, Florida, e virou notícia, com direito a foto e repercussão em outros meios de comunicação, sites e blogs pela Internet. Alguém desavisado, observando tanta comemoração, poderia até imaginar que Sears é alguém muito respeitado, voltando de alguma jornada heróica, humanitária e importante, merecedor de tantas honras e agrados.
Na verdade,Sears foi pra cadeia em agosto de 2009, após ser perseguido pela polícia dirigindo drogado com a carteira de motorista suspensa. Não foi sua primeira vez. Nos últimos seis anos ele já foi preso e solto, por diferentes crimes, um total de nove vezes. Não é o que se poderia chamar de um bom partido, ou um bom elemento. Entretanto, foi recepcionado pela namorada com uma limousine branca, tratado como celebridade, fotografado pela Imprensa de Orlando, levado para uma casa decorada com flores, onde sua liberdade foi festejada e ele recebeu presentes atrasados já que passou o Natal e seu próprio aniversário atrás das grades.
Semanas atrás outro fato acontecido aqui nos Estados Unidos me deu arrepios de horror. Angie Jackson, uma mulher de 27 anos, tomou uma pílula abortiva conhecida como RU 486 e divulgou em tempo real, pelo Tweeter, sem esconder nenhum detalhe, tudo o que acontece durante um aborto. Mais de 100 mil pessoas assistiram ao vídeo que ela postou no You Tube, relatando tudo que estava acontecendo com seu corpo, das cólicas até a hemorragia que expulsou o feto. Milhares de pessoas deixaram comentários, alguns raivosos, a chamando de assassina e a ameaçando de morte, enquanto outros elogiaram a coragem dela em desmistificar um procedimento que geralmente é feito e mantido em segredo. Mrs. Jackson virou uma celebridade instantânea, foi entrevistada, e deve lançar um livro contando em mais detalhes seus 15 minutos de fama na Internet. Não vai me surpreender se ela também ganhar um reality show na televisão, ou virar garota propaganda de clínicas de aborto.
Eu não vou discutir aqui sobre o aborto em si. Acho que ter ou não um filho é decisão que cabe a cada mulher tomar. O que me incomoda, nessas duas notícias, é a sensação de que elas são sintomas de uma doença mais séria, algo que há alguns anos atrás, antes do advento e popularização da Internet e outras mudanças sociais e tecnológicas, seria inimaginável.
Não sou antropóloga, nem socióloga, nem psicóloga, minha opinião é completamente leiga, de uma mãe e mulher meio atordoada com esses tempos em que vivemos. Mas parece-me que o mundo vive uma epidemia de vaidade e narcisismo, de falta de educação e elegância, de egos inflados, de culto à personalidade. Só pode ser uma doença essa busca exagerada e a qualquer custo pela fama e a notoriedade, mesmo que por motivos errados, falsos, ilusórios e nem um pouco nobres. Essa falta de pudor, essa inversão total de valores.
A Internet me ensina que narcisistas acreditam que são melhores que os outros, tem uma visão inflada e distorcida de si mesmos. Buscam ser o centro das atenções, preocupam se com as aparências, perseguem ideais fantasiosos de perfeição física, tem grande dificuldade em estabelecer relacionamentos amistosos, cooperativos ou amorosos ou perceber e se importar com os direitos e necessidades dos outros. Também dão um valor exagerado à riqueza material, fama, símbolos de status e poder, como roupas e objetos de griffes. São extremamente competitivos, não admitem um não como resposta, tem grande dificuldade em assumir responsabilidade por seus atos e tendem a lançar a culpa por seus problemas sobre os outros, ao mesmo tempo em que não hesitam em assumir o crédito por méritos alheios quando tem a oportunidade.
Essas notícias e considerações me fazem lembrar de uma conversa recente com uma amiga, que enfrenta turbulências no casamento devido a conflitos com a enteada. "Acho que não soubemos criar nossos filhos", reclama minha amiga, desanimada e irritada com as exigências descabidas, a falta de gratidão, solidariedade, colaboração, calor humano e a intensa vaidade e egoísmo das pessoas em geral nos dias de hoje, especialmente as mais jovens.
Sendo eu própria mãe de dois jovens abaixo de 25 anos de idade entendo bem minha amiga e confesso que também tenho meus momentos de desânimo, de desesperança com esse mundo que me parece virado de cabeça pra baixo, repleto de engenhocas eletrônicas, minicâmeras em todos os lugares, escolas que promovem alunos que mal sabem ler ou escrever, mas conhecem tudo sobre Internet, My Space, Tweeter, realities shows e outras plataformas para o exercício contínuo e sistemático do egocentrismo e da vaidade despudorada.
"Isso não é justo", é o bordão dessa geração mais jovem, que se revolta diante das contrariedades e frustrações da vida e reclama quando as coisas não acontecem exatamente como eles imaginam e fantasiam que tenham direito. E eles se acham cheios de direitos, é a geração do "EU PRIMEIRO". Não é a tôa que essa geração ensimesmada ambiciona ítens como IPhone, Ipod, Ipad e o que mais for inventado com esse prefixo de "I", que significa "EU" em Inglês.
Também fico irritada, como minha amiga, quando vejo gente reclamando ao sofrer as consequências por fazer algo errado. Trabalho numa biblioteca e diariamente atendo o público, muitos jovens . Dia desses um teve a audácia de me dizer que eu deveria era perdoar as multas e ter ficado feliz dele ter devolvido, ainda que com atraso de algumas semanas, os ítens levados do acervo, já que muitos nem isso fazem.
Bom, não perdoei as multas e até ele pagar o que deve não vai poder fazer mais uso do acervo da biblioteca. Não tenho bola de cristal, não faço idéia do que vai acontecer com esse mundo no futuro, e, embora minha tendência seja pessimista, ao menos fico feliz que na minha casa e na da minha amiga ainda acontecem brigas e conflitos entre pais e filhos. É sinal de que ainda não estamos mortalmente contaminadas pela doença dos tempos e que nossos filhos ao menos recebem em casa uma orientação e uma resistência à essas tendências malucas. Em situação terminal e desesperadora estão os pais da mocinha que alugou a limousine, e os do rapaz que está temporariamente fora da cadeia, porque eu não tenho dúvidas que ele deve voltar pra lá, num futuro próximo.
O caso aconteceu anteontem em Orlando, Florida, e virou notícia, com direito a foto e repercussão em outros meios de comunicação, sites e blogs pela Internet. Alguém desavisado, observando tanta comemoração, poderia até imaginar que Sears é alguém muito respeitado, voltando de alguma jornada heróica, humanitária e importante, merecedor de tantas honras e agrados.
Na verdade,Sears foi pra cadeia em agosto de 2009, após ser perseguido pela polícia dirigindo drogado com a carteira de motorista suspensa. Não foi sua primeira vez. Nos últimos seis anos ele já foi preso e solto, por diferentes crimes, um total de nove vezes. Não é o que se poderia chamar de um bom partido, ou um bom elemento. Entretanto, foi recepcionado pela namorada com uma limousine branca, tratado como celebridade, fotografado pela Imprensa de Orlando, levado para uma casa decorada com flores, onde sua liberdade foi festejada e ele recebeu presentes atrasados já que passou o Natal e seu próprio aniversário atrás das grades.
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Semanas atrás outro fato acontecido aqui nos Estados Unidos me deu arrepios de horror. Angie Jackson, uma mulher de 27 anos, tomou uma pílula abortiva conhecida como RU 486 e divulgou em tempo real, pelo Tweeter, sem esconder nenhum detalhe, tudo o que acontece durante um aborto. Mais de 100 mil pessoas assistiram ao vídeo que ela postou no You Tube, relatando tudo que estava acontecendo com seu corpo, das cólicas até a hemorragia que expulsou o feto. Milhares de pessoas deixaram comentários, alguns raivosos, a chamando de assassina e a ameaçando de morte, enquanto outros elogiaram a coragem dela em desmistificar um procedimento que geralmente é feito e mantido em segredo. Mrs. Jackson virou uma celebridade instantânea, foi entrevistada, e deve lançar um livro contando em mais detalhes seus 15 minutos de fama na Internet. Não vai me surpreender se ela também ganhar um reality show na televisão, ou virar garota propaganda de clínicas de aborto.
Eu não vou discutir aqui sobre o aborto em si. Acho que ter ou não um filho é decisão que cabe a cada mulher tomar. O que me incomoda, nessas duas notícias, é a sensação de que elas são sintomas de uma doença mais séria, algo que há alguns anos atrás, antes do advento e popularização da Internet e outras mudanças sociais e tecnológicas, seria inimaginável.
Não sou antropóloga, nem socióloga, nem psicóloga, minha opinião é completamente leiga, de uma mãe e mulher meio atordoada com esses tempos em que vivemos. Mas parece-me que o mundo vive uma epidemia de vaidade e narcisismo, de falta de educação e elegância, de egos inflados, de culto à personalidade. Só pode ser uma doença essa busca exagerada e a qualquer custo pela fama e a notoriedade, mesmo que por motivos errados, falsos, ilusórios e nem um pouco nobres. Essa falta de pudor, essa inversão total de valores.
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A Internet me ensina que narcisistas acreditam que são melhores que os outros, tem uma visão inflada e distorcida de si mesmos. Buscam ser o centro das atenções, preocupam se com as aparências, perseguem ideais fantasiosos de perfeição física, tem grande dificuldade em estabelecer relacionamentos amistosos, cooperativos ou amorosos ou perceber e se importar com os direitos e necessidades dos outros. Também dão um valor exagerado à riqueza material, fama, símbolos de status e poder, como roupas e objetos de griffes. São extremamente competitivos, não admitem um não como resposta, tem grande dificuldade em assumir responsabilidade por seus atos e tendem a lançar a culpa por seus problemas sobre os outros, ao mesmo tempo em que não hesitam em assumir o crédito por méritos alheios quando tem a oportunidade.
Essas notícias e considerações me fazem lembrar de uma conversa recente com uma amiga, que enfrenta turbulências no casamento devido a conflitos com a enteada. "Acho que não soubemos criar nossos filhos", reclama minha amiga, desanimada e irritada com as exigências descabidas, a falta de gratidão, solidariedade, colaboração, calor humano e a intensa vaidade e egoísmo das pessoas em geral nos dias de hoje, especialmente as mais jovens.
Sendo eu própria mãe de dois jovens abaixo de 25 anos de idade entendo bem minha amiga e confesso que também tenho meus momentos de desânimo, de desesperança com esse mundo que me parece virado de cabeça pra baixo, repleto de engenhocas eletrônicas, minicâmeras em todos os lugares, escolas que promovem alunos que mal sabem ler ou escrever, mas conhecem tudo sobre Internet, My Space, Tweeter, realities shows e outras plataformas para o exercício contínuo e sistemático do egocentrismo e da vaidade despudorada.
"Isso não é justo", é o bordão dessa geração mais jovem, que se revolta diante das contrariedades e frustrações da vida e reclama quando as coisas não acontecem exatamente como eles imaginam e fantasiam que tenham direito. E eles se acham cheios de direitos, é a geração do "EU PRIMEIRO". Não é a tôa que essa geração ensimesmada ambiciona ítens como IPhone, Ipod, Ipad e o que mais for inventado com esse prefixo de "I", que significa "EU" em Inglês.
Também fico irritada, como minha amiga, quando vejo gente reclamando ao sofrer as consequências por fazer algo errado. Trabalho numa biblioteca e diariamente atendo o público, muitos jovens . Dia desses um teve a audácia de me dizer que eu deveria era perdoar as multas e ter ficado feliz dele ter devolvido, ainda que com atraso de algumas semanas, os ítens levados do acervo, já que muitos nem isso fazem.
Bom, não perdoei as multas e até ele pagar o que deve não vai poder fazer mais uso do acervo da biblioteca. Não tenho bola de cristal, não faço idéia do que vai acontecer com esse mundo no futuro, e, embora minha tendência seja pessimista, ao menos fico feliz que na minha casa e na da minha amiga ainda acontecem brigas e conflitos entre pais e filhos. É sinal de que ainda não estamos mortalmente contaminadas pela doença dos tempos e que nossos filhos ao menos recebem em casa uma orientação e uma resistência à essas tendências malucas. Em situação terminal e desesperadora estão os pais da mocinha que alugou a limousine, e os do rapaz que está temporariamente fora da cadeia, porque eu não tenho dúvidas que ele deve voltar pra lá, num futuro próximo.






